Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
— Bom dia.
— Bom dia.
— A senhora é do 610?
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não o conhecia pessoalmente...
— Pois é.
— Estava revendo a sua vida no seu lixo.
— Como?
— O seu lixo. O conteúdo do seu pacote.
— Ah...
— O senhor fuma?
— Um pouco.
— Três maços por dia.
— Como é que a senhora sabe?
— Pelas embalagens.
— Ah.
— E é vegetariano.
— Sei... A senhora também examina as cascas de legumes?
— Examino não. É bem a palavra. Elas saltam aos olhos. O senhor não come carne. O senhor não gosta de frango, nem de peixe. Só de cenoura, chuchu e abóbora.
— É que eu estou num regime.
— Sei. E toma muito vinho.
— É para o coração. Me disseram que uma taça de vinho tinto...
— Duas garrafas de "Gato Negro" por dia?
— Bem...
— E o senhor gosta de ler.
— Como é que a senhora sabe?
— Pelas revistas de informática.
— Ah.
— E o senhor está com um problema de pele.
— Isso a senhora não pode saber. Não joguei nada fora que...
— O senhor comprou um creme para dermatite. A bisnaga está vazia.
— É verdade.
— E o senhor é muito sozinho.
— Por que a senhora diz isso?
— Pelos catálogos de pedidos pelo telefone. O senhor pede tudo em casa. E pelas quentinhas. O senhor não cozinha.
— É...
— O senhor não mora com ninguém. No seu lixo só tem material de uma pessoa.
— É verdade. Mas e o seu lixo?
— O meu?
— A senhora é casada, tem dois filhos, um deles ainda usa fraldas, o outro gosta de iogurte de morango, o seu marido fuma charutos, a senhora usa hidratante caro, joga fora muitas flores...
— Como é que o senhor sabe tudo isso?
— No seu lixo tem fraldas, copos de iogurte, pontas de charuto, potes vazios de creme francês e muitas flores murchas.
— Impressionado...
— O quê?
— Eu sempre achei que o lixo fosse a coisa mais particular de uma pessoa. Mas o lixo é público.
— Pois é. Os dois ficaram em silêncio por um tempo.
— O senhor quer jantar comigo hoje à noite?
— O quê?
— É que hoje eu não vou produzir lixo. Vou comer fora. E se o senhor quiser me acompanhar...
— Aceito.
— Ótimo. Só uma coisa.
— O quê?
— No meu lixo você não viu nenhuma embalagem de veneno, viu?
(Luiz Fernando Verissimo)
Ao afirmar que "o lixo é público", a personagem feminina expressa uma mudança de percepção. De acordo com
o contexto da crônica, isso significa que
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