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Q3990240 Português

Com o correr das décadas, a prática da literatura no Brasil foi-se revestindo duma capa, ou seja, duma dupla meta ideológica. Ao explorar os meandros da observação direta dos acontecimentos cotidianos ou históricos e ao incentivar a reflexão sobre os observadores privilegiados, nossa literatura tanto configura a carência socioeconômica e educacional do país quanto define, pelo exercício impiedoso da autocrítica, o grupo reduzido e singular que tem exercido de uma forma ou de outra as formas clássicas de mando e governabilidade nas nações da América Latina.

Por um lado, o trabalho literário busca dramatizar objetivamente a necessidade do resgate dos miseráveis a fim de elevá-los à condição de seres humanos (já não digo à condição de cidadãos) e, por outro lado, procura avançar — pela escolha para personagens da literatura de pessoas do círculo social dos autores — uma análise da burguesia econômica nos seus desacertos e injustiças seculares. Dessa dupla e antípoda tônica ideológica — de que os escritores não conseguem desvencilhar-se em virtude do papel que eles ainda ocupam na esfera pública da sociedade brasileira — advém o caráter anfíbio da nossa produção artística.

No século XX, os nossos melhores livros apontam para a Arte, ao observar os princípios individualizantes, libertadores e rigorosos da vanguarda estética europeia, e, ao mesmo tempo, apontam para a Política, ao querer denunciar pelos recursos literários não só as mazelas oriundas do passado colonial e escravocrata da sociedade brasileira, mas também os regimes ditatoriais que assolam a vida republicana. A atividade artística do escritor não se descola da sua influência política; a influência da política sobre o cidadão não se descola da sua atividade artística. O todo se completa numa forma meio que manca na aparência, apenas na aparência. Ao dramatizar os graves problemas da sociedade brasileira no contexto global e os impasses que a nação atravessou e atravessa no plano nacional, a literatura quer, em evidente paradoxo, falar em particular ao cidadão brasileiro responsável. Não são muitos, infelizmente.

 

Silviano Santiago. Uma literatura anfíbia. In: O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 66 (com adaptações).

 

De acordo com as observações de Silviano Santiago no texto precedente, a literatura brasileira do século XX é anfíbia, pois contempla, ao mesmo tempo, a Arte e a Política, buscando abranger os princípios da liberdade, do individualismo e do rigor estético e, ao mesmo tempo, a preocupação com as mazelas sociais. Ao elaborar seu conceito de literatura anfíbia, o autor utiliza método que

Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é reconhecer o procedimento argumentativo do autor: ele constrói o conceito de “literatura anfíbia” a partir da observação da literatura brasileira em seu contexto histórico, social, político e estético. Isso está explicitado em “Com o correr das décadas, a prática da literatura no Brasil foi-se revestindo duma capa, ou seja, duma dupla meta ideológica” e em “nossa literatura tanto configura a carência socioeconômica e educacional do país”. Como a teorização nasce desse recorte nacional, a alternativa correta é a A.

Tema central: método argumentativo do autor
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque descreve o procedimento usado no texto: o autor parte da literatura produzida no Brasil e de sua relação com a realidade nacional para construir a noção de “literatura anfíbia”. O conceito não surge de uma teoria abstrata desligada do objeto, mas da observação de traços da experiência brasileira, articulados com a dimensão estética da Arte e a dimensão histórica da Política.
B
Errada
Está errada porque contraria o texto. O autor não descarta aspectos históricos e sociais; ele os incorpora explicitamente à análise da literatura, ao mencionar “carência socioeconômica e educacional do país”, “passado colonial e escravocrata”, “burguesia econômica” e “regimes ditatoriais”.
C
Errada
Está errada porque o excerto não apresenta um método de delimitação de narrativas ou fragmentos específicos. O texto é ensaístico e generalizante: fala de “nossa literatura” e de “os nossos melhores livros”, mas não seleciona obras, passagens ou corpus delimitado como base formal do conceito.
D
Errada
Está errada porque atribui ao texto um movimento de universalização que não é desenvolvido como método. Embora haja menções a “nações da América Latina” e ao “contexto global”, o foco argumentativo permanece na literatura brasileira e em seus impasses nacionais.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre situar a literatura brasileira em relações mais amplas e universalizar metodologicamente o caso brasileiro. As referências ao “contexto global” e à “vanguarda estética europeia” podem atrair para a D, mas o conceito continua sendo construído a partir do recorte nacional.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro de onde o autor parte para formular o conceito: aqui, o ponto de partida é a literatura brasileira e seu contexto histórico-social.
  • Quando a alternativa falar em exclusão do social ou do histórico, confronte com trechos literais do texto antes de aceitar a inferência.
  • Não confunda reflexão ensaística geral com recorte metodológico de corpus; sem enumeração de obras ou fragmentos, não há delimitação técnica explícita.
  • Menções ao global, ao europeu ou ao latino-americano não bastam para provar universalização; observe onde o eixo da argumentação realmente permanece.

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A literatura brasileira é anfíbia porque mistura Arte e Política.

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