Ao “amigo do escravo”   Cativo um povo, gemendo Da ...

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Q3990237 Português

Ao “amigo do escravo”

 

Cativo um povo, gemendo

Da vergasta o açoite vil,

Estende os braços convulsos

Vertendo prantos a mil...

 

Vós despertastes ao grito

Da infeliz escravidão;

Somos amigos, dissestes,

Dos míseros que não têm pão.

 

Quanta doçura, Deus grande,

Quanta fé e quanto amor,

Nesta esperança que brilha

Do cativeiro no horror!

 

Remir no mundo os escravos

É curar de Cristo as chagas;

Marchai! Que o suor da luta

Vos doure a fronte em bagas.

 

Quando um dia o sol brasíleo

Surgir, mimoso de amor,

Aquecendo as faces frias

Do escravo ao seu calor.

 

Estátuas de luz e vida,

mil renascido à toa,

Tentarão roubar seus raios

Para tecer-vos uma croa!

 

Ide, librai vossas asas

Da fé no dorso possante!

Acordai Deus, que aniquile

A hidra negra, infamante.

 

Etelvina Amália de Siqueira. Ao “amigo do escravo”. Internet: <academialiterariadevida.blogspot.com> (com adaptações).

 

A poetisa Etelvina Amália de Siqueira (1862–1935) notabilizou-se pelo engajamento na causa abolicionista, tematizada no fragmento do poema apresentado, em que o posicionamento do sujeito lírico em relação à população negra escravizada é

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-discursivo: o poema denuncia o sofrimento dos escravizados, identifica-se afetivamente com sua dor e valoriza a ação libertadora, como mostram "Cativo um povo, gemendo / Da vergasta o açoite vil, / Estende os braços convulsos / Vertendo prantos a mil...; Somos amigos, dissestes, / Dos míseros que não têm pão.; Remir no mundo os escravos / É curar de Cristo as chagas;". Esse conjunto de marcas define um sujeito lírico solidário e conduz ao gabarito A.

Tema central: solidariedade abolicionista
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque o sujeito lírico não apenas descreve a dor do povo escravizado, mas assume posição favorável a ele, com linguagem de denúncia, compaixão e defesa da libertação. Expressões como "infeliz escravidão", "Dos míseros que não têm pão" e "Remir no mundo os escravos" revelam adesão à causa dos oprimidos. Esse tom social, humanitário e abolicionista é compatível com a vertente da terceira geração romântica indicada pela base.
B
Errada
A eliminação decorre do sentido global do poema. Embora haja imagens fortes de sofrimento, elas funcionam como denúncia da escravidão, não como pessimismo subjetivo. O texto se organiza em torno de esperança, fé, amor e ação libertadora, como em "Quanta fé e quanto amor" e nos imperativos "Marchai!" e "Ide". Portanto, não há fundamento para classificá-lo como pessimista sob influência da segunda geração romântica.
C
Errada
A alternativa erra em dois pontos do texto. Primeiro, o posicionamento não é laico, porque há religiosidade explícita em "Deus grande", "fé" e "Cristo". Segundo, o poema não se constrói segundo objetividade realista ou preceitos positivistas: sua linguagem é lírica, exaltada, idealizante e exortativa. A crítica social presente no texto não autoriza enquadramento realista quando o próprio poema a formula por meio de humanitarismo cristão.
D
Errada
O texto não apresenta postura racional nem cientificista. Predominam apelo emotivo, imagens grandiosas, condenação moral da escravidão e invocação religiosa, como em "É curar de Cristo as chagas" e "Acordai Deus". Isso afasta uma leitura de objetividade analítica ou de poesia científica. O teor social do poema não basta para torná-lo racionalista.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar as imagens iniciais de dor como sinal de pessimismo e tomar a crítica social como traço automático de Realismo. O poema, porém, converte a dor em denúncia, esperança e convocação abolicionista, com forte marca religiosa.
Dica para questões semelhantes
  • Não conclua pelo tom geral a partir de um trecho isolado de sofrimento; verifique se a dor é fim em si mesma ou instrumento de denúncia e mobilização.
  • Quando houver crítica social, observe a forma de construção dessa crítica: religiosidade, idealização e exortação podem afastar leituras realistas ou cientificistas.
  • Identifique o campo lexical dominante do eu lírico; aqui, ele reúne compaixão, defesa dos oprimidos e libertação, o que define o posicionamento solidário.

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