Acerca dos textos de Pierre Clastres e de Franco-Moraes, con...

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Q3954840 Português
Atenção: Considere os dois textos a seguir para responder à questão.


   Como é possivel, pergunta La Boétie, que a maioria obedeça a um só, não apenas lhe obedeça, mas o sirva, não apenas o sirva mas queira servi-lo?

   A natureza e o alcance de tal questão excluem de saída que se possa reduzi-la a essa ou àquela situação histórica concreta. A possibilidade de formular uma interrogação tão destrutiva remete, simples mas heroicamente, a uma lógica dos contrários: se sou capaz de me espantar que a servidão voluntária seja a invariante comum a todas as sociedades, a minha mas também aquelas sobre as quais me informam os livros, é evidentemente porque imagino o contrário de tal sociedade, é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária. Heroismo e liberdade de La Boétie: basta essa ligeira e fácil passagem da história à lógica, basta essa abertura no que é o mais naturalmente evidente, basta essa brecha na convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados. Ao espantar-se com isso, ao recusara evidência natural, o jovem La Boétie transcende toda a história conhecida para dizer: outra coisa é possível. 


(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: CosacNaify, 2004, p. 147-8)



   Se para os olhos de um leigo a floresta amazônica é uma floresta virgem e intocada, o que pesquisas têm demonstrado é que a Amazônia é um grande jardim, plantado por povos indígenas por meio da influência de diferentes aspectos socioculturais.

    Na Amazônia, aquilo que não indigenas entendem como "natureza" (a floresta, os animais, os rios etc.), muitos povos indigenas entendem como ambientes culturais onde relações sociais, incluindo entre humanos e não humanos, ocorrem. Tais relações se refletem em transformações da paisagem que têm gerado biodiversidade na região há milhares de anos.

  Embora a Amazônia seja habitada há cerca de 13 mil anos, quando pensamos em antigas civilizações, pensamos nos incas, astecas, maias ou egípcios, provavelmente por essas civilizações terem modificado suas paisagens por meio de grandes arquiteturas, como as pirâmides. Entretanto, modificações milenares nas paisagens amazônicas têm sido descobertas nas últimas décadas, colocando a região, suas antigas populações humanas, no mesmo patamar dessas que aprendemos a cultuar como grandes civilizações.


(Adaptado de: FRANCO-MORAES, Juliano. "A Amazônia não é uma floresta virgem, mas um jardim plantado pelos povos indígenas". Disponível em: https://esginsights.com.br) 
Acerca dos textos de Pierre Clastres e de Franco-Moraes, considere:

I. Se, em Clastres, o que motiva a hipótese contrária às provas materiais é o uso da lógica, em Franco-Moraes, são provas materiais que subsidiam a percepção de diferenças em concepções de mundo.
II. Em Clastres, a lógica de La Boétie se contrapõe ao seguinte raciocínio indutivo: há dominantes e dominados em todas as sociedades observadas, logo, a hierarquia é imanente à sociedade.
III. Em Franco-Moraes, o fato de os indígenas terem permanecido na floresta como extrativistas e coletores corrobora o argumento de que a consideram como um ambiente cultural.

Está correto o que se afirma em
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é distinguir recorrência histórica de necessidade lógica e verificar se cada afirmação tem apoio textual. Clastres afirma: “é porque imagino a possibilidade lógica de uma sociedade que ignore a servidão voluntária.” Esse critério sustenta I e II e permite excluir III, cuja premissa não é fornecida.

Tema central: Comparação de fundamentos argumentativos
Análise das alternativas
A
Errada
Valida apenas III, mas o texto não afirma que os indígenas tenham permanecido como extrativistas e coletores. O fundamento apresentado é outro: “Tais relações se refletem em transformações da paisagem que têm gerado biodiversidade na região há milhares de anos.” Além disso, exclui I e II, sustentadas pelo contraste entre evidência histórica, possibilidade lógica e transformações comprovadas da paisagem.
B
Errada
Acerta ao incluir II, mas aceita a premissa sem apoio textual de III e exclui I indevidamente. I compara procedimentos efetivamente presentes: Clastres concebe logicamente uma sociedade diferente das conhecidas; Franco-Moraes recorre a pesquisas sobre modificações da paisagem e apresenta diferenças entre concepções de natureza e cultura.
C
Errada
Inclui corretamente I e II, mas também aceita III. Franco-Moraes relaciona a floresta como ambiente cultural às relações sociais e às transformações milenares da paisagem. Não atribui essa concepção à alegada permanência dos indígenas como extrativistas e coletores.
D
Certa
A alternativa D reúne as duas assertivas sustentadas pelos textos. I identifica o contraste entre a possibilidade lógica, em Clastres, e as evidências de transformação da paisagem, em Franco-Moraes, que subsidiam a percepção de diferentes concepções de natureza e cultura. Nesse contexto, “provas materiais” designa, no primeiro texto, a realidade histórica conhecida: a hipótese contraria o padrão observado, sem negar os fatos. II reconstrói a generalização questionada por La Boétie: da existência de dominantes e dominados nas sociedades conhecidas passa-se à crença de que essa divisão seria inerente a qualquer sociedade. Conceber uma sociedade sem servidão rompe essa conclusão. III é excluída porque introduz uma condição não afirmada no texto.
E
Errada
Reconhece I, mas exclui II, embora o texto mencione a “convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados”. Essa convicção sustenta a reconstrução do raciocínio indutivo feita em II: transformar a recorrência da hierarquia nas sociedades conhecidas em uma propriedade necessária de toda sociedade.
Pegadinha da questão
III apresenta como informação textual uma associação temática plausível entre indígenas, extrativismo e coleta. Outra confusão é entender a hipótese de La Boétie como negação dos fatos históricos: ela questiona a necessidade de repetir o padrão conhecido, não sua ocorrência.
Dica para questões semelhantes
  • Distinga a constatação de um padrão nas sociedades observadas da conclusão de que esse padrão é necessário em toda sociedade possível.
  • Confira a premissa e a relação explicativa de cada assertiva: em Franco-Moraes, o vínculo apresentado é entre relações sociais e transformações da paisagem, não entre extrativismo e concepção cultural.
  • Aceite uma inferência quando sua estrutura estiver sustentada pelo texto, mesmo sem formulação literal; rejeite informações apenas plausíveis que não tenham apoio textual.

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Comentários

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I. (Correta)

  • Em Clastres: O autor afirma que La Boétie utiliza uma "lógica dos contrários". Mesmo que toda a história conhecida (provas materiais/históricas) mostre a servidão como regra, La Boétie usa a razão (lógica) para imaginar que o contrário é possível. Ele "transcende toda a história conhecida".
  • Em Franco-Moraes: O autor baseia seu argumento em "pesquisas" e "descobertas das últimas décadas" (provas materiais arqueológicas e botânicas) para demonstrar que o que o leigo vê como "natureza intocada" é, na verdade, uma construção cultural e tecnológica dos povos indígenas.

II. (Correta)

  • O raciocínio indutivo é aquele que parte de casos particulares para criar uma regra geral (Exemplo: "Vi a sociedade A, B e C com chefes, logo, toda sociedade tem chefes").
  • O texto de Clastres diz que La Boétie rompe com a "convicção geral de que não se poderia pensar a sociedade sem sua divisão entre dominantes e dominados". Essa convicção geral é fruto de uma indução histórica que La Boétie desafia ao propor uma "lógica dos contrários".

III. (Incorreta)

  • O texto de Franco-Moraes afirma justamente o oposto da ideia clássica de "extrativismo passivo".
  • O autor defende que os indígenas não apenas coletavam o que a natureza dava, mas plantaram a Amazônia e modificaram a paisagem, agindo como arquitetos de um "grande jardim". Dizer que eles eram apenas "extrativistas e coletores" (no sentido de não interferirem na natureza) contradiz o argumento central de que a floresta é um ambiente culturalmente construído e transformado.

rvr

que questões, meu Deus

Aí o cara escreve rebuscado na redação toma 0...

Isso aqui é extremamente confuso para mim. Deus me dê sabedoria viu, tá osso!

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