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Q3954802 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


Escrever é verbo que briga com o sujeito


   No ofício da literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim. A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do jogo. Se há algo de "universal" aí, é negativo: uma permanente insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas. O raciocínio não se aplica a quem lida com a linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc. Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.

   Na "escritor" e escrita criativa não se tem a mesma sorte. A insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo, "escrever". É provável que exista um núcleo disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar. Qualquer que seja о fenômeno psíquico que leva alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas irrelevante para quem lê.

   O propósito terapêutico que possa ser extraído do conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do texto. O propósito estético da escrita literária não é apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das palavras. Então os escritores são todos uns neuróticos? O romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela. Como metáfora, a coisa tem sua utilidade -quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da cabeça. Contudo, deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos, heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca torta do cachimbo. Embora possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura. Escrever é só um oficio entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a nenhum outro - o que é natural.


(RODRIGUES, Sérgio. "llustrada". Folha de S. Paulo. 20 agosto de 2025)
Em nova redação, a frase do texto que mantém adequada correlação entre os tempos e modos verbais é:
Alternativas

Comentários

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A letra D está correta porque preserva a correlação entre modos e tempos de forma lógica e natural:

  • “O raciocínio não haverá de ser aplicado” usa a locução verbal “haver de” no futuro do presente com valor de obrigação/expectativa — marco temporal claro (futuro).
  • “a quem venha a lidar com a linguagem como mero instrumento” emprega o presente do subjuntivo “venha” + a locução infinitiva “a lidar” para indicar hipótese ou eventualidade futura.

Há, portanto, concordância entre a noção de futuro/expectativa da oração principal e a oração subordinada que expressa possibilidade futura.

Resposta: D

Por que as outras estão incorretas:

A — Incompatibilidade de tempos: "tivesse existido" (pretérito do subjuntivo) contrasta com "botará" (futuro do indicativo).

B — Falta de correlação modal/temporal: "fosse" (pretérito do subjuntivo) não concorda com "virá a levar" (futuro do indicativo); o correto seria "venha a levar".

C — Sequência verbal incoerente: combinação estranha entre condicional ("criaria"), subjuntivo composto ("tenha sido escrita") e pretérito do subjuntivo ("exigira"), sem correlação clara.

E — Incompatibilidade de modos/tempos: "mirariam" (condicional) não se harmoniza com "poderão" (futuro do indicativo).

Gramática FCC

É provável que tivesse existido um núcleo disfuncional em tudo aquilo, algo que botará o motor para rodar.

Há quebra de correlação: “tivesse existido” (pretérito do subjuntivo) não harmoniza com “botará” (futuro do indicativo). O correto seria: “É provável que tenha existido um núcleo disfuncional em tudo aquilo, algo que botará o motor para rodar.”

Qualquer que fosse o fenômeno psíquico que virá a levar alguém à escrita, é informação de interesse.

Há incompatibilidade entre “fosse” (pretérito do subjuntivo) e “virá a levar” (futuro do indicativo). O correto seria: “Qualquer que seja o fenômeno psíquico que venha a levar alguém à escrita, é informação de interesse.”

A literatura criaria, à medida que tenha sido escrita, as regras pelas quais exigira ser lida.

A sequência verbal está incoerente: “criaria” (futuro do pretérito), “tenha sido escrita” (subjuntivo composto) e “exigira” (pretérito mais-que-perfeito) não se harmonizam. O correto seria: “A literatura cria, à medida que é escrita, as regras pelas quais exige ser lida.”

O raciocínio não haverá de ser aplicado a quem venha a lidar com a linguagem como mero instrumento.

Há adequada correlação, pois “haverá de ser aplicado” (futuro com valor de expectativa) harmoniza-se com “venha a lidar” (subjuntivo com valor de possibilidade futura).

"Profissionais do texto" que mirariam um objeto fora do mundo da linguagem poderão se sentir plenos.

Há quebra de correlação entre “mirariam” (futuro do pretérito) e “poderão” (futuro do presente). O correto seria: “"Profissionais do texto" que mirarem um objeto fora do mundo da linguagem poderão se sentir plenos.”

A alternativa correta é a D. Existe uma correlação perfeita entre o Futuro do Presente (haverá) e o Presente do Subjuntivo (venha). O fato futuro depende de uma condição ou hipótese atual/futura.

Para resolver questões de correlação verbal, é necessário observar a harmonia entre as orações, garantindo que o tempo e o modo do verbo principal façam sentido com o verbo subordinado.

Alternativa A:

  • Erro: O uso do pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo (tivesse existido) indica uma hipótese no passado. O verbo seguinte no futuro do presente (botará) rompe essa linha temporal.
  • Correção: "...que tenha existido... algo que ponha/ponha" ou "...que tivesse existido... algo que pusesse".

Alternativa B:

Erro: Fosse está no pretérito imperfeito do subjuntivo (hipótese no passado), enquanto virá está no futuro do presente (certeza no futuro).

Correção: "Qualquer que seja... que venha a levar" ou "Qualquer que fosse... que viria a levar".

Alternativa C:

Erro: Criaria (futuro do pretérito) não correlaciona bem com tenha sido (pretérito perfeito do subjuntivo). Além disso, exigira (mais-que-perfeito) está deslocado.

Correção: "A literatura criaria... à medida que fosse escrita... exigiria ser lida."

Alternativa E: Erro: Mirariam (futuro do pretérito - hipótese) não se ajusta a poderão (futuro do presente - certeza).

Correção: "...que mirarem (futuro subj.) ... poderão se sentir" ou "...que mirariam ... poderiam se sentir".

Jesus, só cai esse tipo de questão na FCC, é? aff

D

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