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Q1621471 Português
Leia o texto abaixo.

Eu, Mwanito, o afinador de silêncios
(Excerto)

A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

— Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:

— Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.

— Você sabe, filho: há a calmaria dos cemitérios. Mas o sossego desta varanda é diferente.

Meu pai. A voz dele era tão discreta que parecia apenas uma outra variedade de silêncio. Tossicava e a tosse rouca dele, essa, era uma oculta fala, sem palavras nem gramática.

Mia Couto, excerto do capítulo “Eu, Mwanito, o afinador de silêncios” | Livro Um – Humanidade, no livro “Antes de Nascer o Mundo“. (romance). São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2009.

Observe a frase destacada:


“E todo o silêncio é música em estado de gravidez.”


Uma outra referência à música do silêncio está presente em:

Alternativas

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Tema central: Esta questão exige interpretação de texto com foco em figuras de linguagem — sobretudo metáfora e comparação —, além de compreensão do sentido simbólico do trecho. Essas figuras de linguagem são ferramentas importantes para entender nuances e associações semânticas, frequentemente cobradas em provas para o cargo de Agente de Fiscalização Ambiental.

Análise da alternativa correta (D):

Em "a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego", temos uma comparação explícita (uso do conectivo "como se"), estabelecendo relação entre o movimento da cabeça e um compasso musical. Aqui, o compasso remete à musicalidade, associando o silêncio e o sossego a um ritmo, ou seja, à música. Isso recupera e reforça a ideia poética do silêncio como elemento musical, citada anteriormente no texto base.

Segundo Bechara (2009), "a comparação é a aproximação de dois termos, feita com elemento comparativo explícito". Assim, a alternativa D está alinhada à norma-padrão e é coerente com a associação proposta na pergunta.

Análise das alternativas incorretas:

A) "Centelha promissora": traz uma metáfora sobre talento, mas não há referência à música ou silêncio.

B) "Desempenhado, de alma e corpo ocupados": expressa dedicação, sem relação com música nem menção a silêncio musical.

C) "Quando me viam... eu não estava pasmado": descreve o comportamento do personagem, sem conexão musical.

E) "Talento para apurar silêncios": enfatiza a aptidão para o silêncio, mas não faz associação direta à música.

Estratégias de Interpretação:

Para questões desse tipo, busque sempre:
- Identificar palavras-chave (como "música", "compasso", "silêncio") no comando da questão;
- Atentar-se a elementos comparativos explícitos ("como", "assim como", etc.), que geralmente indicam relações figuradas;
- Descartar alternativas sem correspondência direta à relação pedida pelo enunciado.

Resumo da regra:
Segundo Cunha e Cintra (2013), a metáfora sugere semelhança implícita, enquanto a comparação faz uma aproximação explícita; neste caso, a alternativa correta evidencia a relação do silêncio com a música por meio de um comparativo diretamente identificado no texto.

Conclusão: Distinguir o uso de metáforas e comparações é fundamental na prova. Atenção a expressões que remetem a outros campos semânticos, como música para silêncio, é um diferencial decisivo!

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Comentários

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GAB.: D

Compasso da música é o intervalo, as pausas... O pai do Mwanito acompanhava o compasso do silêncio

Entendi nada

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