A língua não é apenas um código de comunicação: é o território onde se trava a disputa pela própria existência. Quem
detém a palavra e a forma de expressar o mundo possui as ferramentas de sua própria narrativa histórica. É sob essa premissa
de soberania que celebramos, no 05 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A data, estabelecida em 2009 pela
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e reconhecida pela UNESCO em 2019, convida à reflexão sobre como o idioma
expressa a identidade e a memória coletiva de múltiplos povos, estruturando suas relações com a contemporaneidade.
A soberania linguística está ligada à soberania política. Por séculos, o português foi utilizado como vetor de dominação e
colonização, imposto a nações que possuíam suas próprias cosmologias. Contudo, esses mesmos povos não receberam a língua
de forma passiva: eles a transformaram e a ressignificaram. O português falado no Brasil, em Angola, Moçambique, Cabo Verde
ou Timor-Leste carrega as marcas dessa autodeterminação, provando que a unidade de um idioma não reside na uniformidade,
mas na sua capacidade de abrigar a diversidade.
A língua portuguesa é um organismo em constante movimento, que responde às necessidades de seus falantes e incorpora
as mudanças da sociedade. Como ensina Paulo Freire, “linguagem e realidade se prendem dinamicamente”: o mundo muda e,
com ele, a forma como o nomeamos. Essa força se manifesta nas variações regionais que enriquecem o idioma: no mufana
angolano, no morabeza cabo-verdiano, que traduz uma hospitalidade afetuosa sem equivalente direto, ou no mutirão
brasileiro, termo de origem tupi que define uma prática coletiva de trabalho para a qual o português europeu não possui nome
próprio. Cada uma dessas expressões é uma janela para universos distintos construídos sob o mesmo teto linguístico.
Compreender esse dinamismo exige superar a visão purista da linguagem. Enquanto a gramática normativa busca
prescrever regras baseadas na tradição e na autoridade, a perspectiva descritiva observa como a língua é efetivamente utilizada
pelas comunidades. A chamada norma culta, embora possua prestígio social por estar associada aos espaços de poder e à
educação formal, é apenas uma das muitas variedades legítimas, não a medida de todas as outras.
As transformações mais profundas do idioma frequentemente emergem das variações populares, provando que a língua
pertence a quem a fala, não a quem a regula. É nessa pluralidade que se constrói o pertencimento de uma comunidade global
de mais de 260 milhões de pessoas, unidas por um instrumento comum e multifacetado.
Celebrar esta data é reafirmar que a escola deve ser um espaço de valorização da linguagem como prática social e
instrumento de emancipação. Enquanto a língua portuguesa for usada para nomear realidades, expressar desejos e construir
futuros, ela seguirá sendo um instrumento de liberdade. Defender o idioma é enriquecer nossa humanidade comum e garantir
que cada povo possa narrar sua própria experiência, construindo um mundo mais justo e pacífico. Que nenhuma dessas
narrativas precise pedir permissão para existir.
(Por: Antônia Rangel. Disponível em: https://contee.org.br/dia-mundial-da-lingua-portuguesa/. Acesso em: Junho de 2026.)
De acordo com as ideias apresentadas no texto, pode-se afirmar que o trecho atribuído a Paulo Freire – “[...] ‘linguagem e
realidade se prendem dinamicamente’: o mundo muda e, com ele, a forma como o nomeamos.” (3º§) demonstra:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Veja como esse erro impacta seu desempenho geral. Ver estatísticas