Fim de mistério: livro desvenda quem delatou
Anne Frank aos nazistas
Raquel Carneiro
Data de publicação: 22 de janeiro de 2022.
Aos 15 anos, Anne Frank travava uma luta
entre seus dois lados: a Anne “jovial” e a “quieta”.
Seria uma crise típica da adolescência, não fosse
uma agravante: a garota estava trancada havia
25 meses com seus pais, Otto e Edith, a irmã
Margot e mais quatro pessoas no fundo de um
prédio em Amsterdã — escondidos na tentativa
de escapar das atrocidades nazistas na II Guerra.
O isolamento já lhe dava nos nervos, e seu lado
melancólico vinha vencendo o jovial. Esse foi o
tema do último texto da garota, datado de 1º de
agosto de 1944, no incontornável bestseller O Diário de Anne Frank. Três dias depois,
em 4 de agosto, por volta de 10 horas, um carro
da SS, a polícia nazista, parou diante da empresa
de temperos de Otto, fachada do Anexo — como
o esconderijo era chamado. A invasão foi movida
por um telefonema recebido pelo Alto Comando
alemão. Os presos foram enviados a campos de
concentração. Só Otto sobreviveu. Ao fim da
guerra, ele tinha um objetivo: descobrir a
identidade do delator do Anexo. O mistério, que
passou por duas investigações oficiais na
Holanda, em 1947 e em 1963, nunca fora
resolvido. Até agora.
A reabertura do caso foi uma tarefa
hercúlea, que contou com especialistas de
qualidades e nacionalidades distintas, e ganhou
forma sob a liderança do americano Vince
Pankoke, 64 anos, um ex-agente do FBI. As sete
décadas que os separavam do ocorrido foi um
complicador e tanto. As testemunhas haviam
morrido e a cena do crime, a Casa Anne Frank,
virou um ponto turístico com 1,2 milhão de
visitantes ao ano. Foi essencial, então, a ajuda da
empresa holandesa Xomnia, que desenvolveu
uma plataforma de inteligência artificial e
catalogou 7 500 documentos, criando uma
monumental rede de dados. “Teríamos demorado
mais alguns anos sem programa”, contou
Pankoke a VEJA.
[...]
Ficou sob a responsabilidade da
canadense Rosemary Sullivan, autora do livro,
organizar e dar sentido ao robusto material. O
lançamento do título fora do Brasil nesta semana
foi bombástico, espalhando o resultado da
investigação. Como em muitas outras situações
que envolvem violência e traição, o perigo veio de dentro. Ao que tudo indica, um membro do
conselho judaico holandês, o tabelião Arnold van
den Bergh, entregou o endereço do Anexo para
livrar a própria família da morte (era uma prática
comum na Holanda pressionar judeus bem
relacionados com a cúpula do nazismo para
dedurar pessoas escondidas em troca de
proteção). Há indícios de que, tempos depois,
Otto descobriu seu traidor, mas manteve o
segredo para não fomentar o clima antissemita.
Pankoke diz que não julga Arnold, mas, sim, os
nazistas. Faz sentido. Afinal, são eles os
verdadeiros culpados pela morte de Anne Frank e
de 6 milhões de judeus.
[...]
Adaptado: https://veja.abril.com.br/cultura/fim-de-misterio-livro-desvendaquem-delatou-anne-frank-aos-nazistas/, acesso em 07 de abr. de 2022.
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