Nossa Senhora das cigarras imprevidentes que
morrem de cantar e das formigas previdentes que
morrem sem cantar.
Das abelhas rufionas que vão de flor em flor
segredando de amor e acasalando os polens.
Das cobras e dos tigres que também têm direito à
vida.
Nossa Senhora dos maus e dos bons.
Profundamente minha porque de todos os anônimos bichos e gentes.
Nossa Senhora da custódia das sementes,
lançadas ao léu da vida germinando, crescendo
florescentes ou morrendo perdidas na raleira.
Nossa Senhora das sementes...
Ajudai todas elas – boas e más a bem cumprir seu
destino de sementes, lançando do seu pequenino
coração vital o esporo à raiz fálica que as
confirmarão na terra e na sequência das gerações
através do tempo.
Nossa Senhora das raízes...
Eu sou a raiz ancestral, perdida e desfigurada no
tempo obscura na terra onde lutam, sobrevivem
e desaparecem todas no esquecimento e no
abandono.
Vigia para mim e guarda em vida longa todas as
raízes novas que vivem enleadas às minhas já
gastas e amortecidas.
Abençoai, minha Nossa Senhora, todos aqueles
que se foram e que se desfizeram na obscuridade
e no esquecimento da árvore ingrata que os
alimentou.