A utilização de “embora”, no terceiro parágrafo, indica uma ...

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Q3409708 Português
Atenção: Leia atentamente o texto a seguir e responda questão:

Baleia sim, mas eu prefiro gente

    Não sei se me comove (mas me inquieta) ver pessoas acorrendo, torcendo, chorando porque uma baleia está encalhada e ameaçada de morrer nas areias de qualquer lugar do mundo.
    Sinto pena pelo sofrimento do bicho, mas sempre imagino se fariam tanto alarido caso houvesse em seu lugar um ser humano.
    Lamento toda a ameaça a qualquer espécie em extinção, embora, olhando a história das espécies, me pareça natural que algumas desapareçam e outras surjam. Se cometo um pecado maior de ignorância, sou afinal apenas uma escritora.
    Sei que não vão me achar muito simpática, mas eu não sou sempre simpática. Aliás, se não gosto de grosseria nem de vulgaridade, também desconfio dos politicamente corretos. Todo fanatismo me assusta.
    Não posso ver bicho sofrendo: sempre curti animais, fui criada com eles. Na casa onde nasci e cresci, em certo momento, na minha remota infância, tive até uma coruja, chamada, sabe Deus por quê, Sebastião: quase branca, aquele olho revirando. Fugiu da enorme gaiola especialmente construída para ela quando apareceu por ali com uma asa quebrada. Assim que ficou curada e conseguiu uma frestinha, escapou. Por muitos dias eu a procurei no topo das árvores, doída de saudade.
    Na ilhota no mínimo lago no fundo do terreno, viveu a certa altura um casal de veadinhos, presente de um fazendeiro amigo de meu pai. (Os fanáticos vão considerar isso grande crueldade.) Um dos bichinhos também fugiu, o outro morreu pouco depois. Segundo o jardineiro, morreu de saudade do fujão: primeira visão infantil de um amor romeu-e-julieta.
    Tive uma gata chamada Adelaide, nome da sofredora personagem de uma novela de rádio que fazia suspirar minha avó, e que meu irmão pequeno matou (a gata), nunca entendi como: uma das primeiras tragédias de que tive conhecimento.
    De modo que animais fazem parte de minha história, com muitas aventuras, divertimento, e alguma emoção.
    Mas vamos às baleias e golfinhos encalhados: pessoas torcem as mãos, chegam máquinas variadas para içar os bichos, aplicam-se lençóis molhados, abrem-se manchetes em jornais, televisões comentam tudo em horário nobre. O público, presente ou em casa, acompanha como se fosse alguém da família, e quando o fim chega, é lamentado quase com pêsames e oração.
    Confesso que não consigo me comover da mesma forma: pouca sensibilidade? Não creiam, mesmo os que não me apreciam, não creiam nisso.
    Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais nenhuma criança sofrendo, abandonada ou explorada, enfiando a cara no vidro de meu carro para pedir dinheiro, nenhum adolescente morrendo drogado na calçada, uma família morando embaixo da ponte no inverno aqui do Sul.
        [...]

Autora: Lya Luft (adaptado).
A utilização de “embora”, no terceiro parágrafo, indica uma ideia de: 
Alternativas

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Tema central: A questão trata do valor semântico e sintático da conjunção "embora", exigindo o reconhecimento de suas funções na norma-padrão da Língua Portuguesa. Isso envolve o conhecimento de orações subordinadas adverbiais concessionais, essenciais para a coesão textual e interpretação precisa.

Justificativa da alternativa correta:
A conjunção embora é, por definição gramatical, uma conjunção subordinativa concessiva. Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, no capítulo sobre Orações Subordinadas Adverbiais Concessivas, “essas orações exprimem uma ideia de concessão, isto é, um fato contrário ao da oração principal, mas que não impede sua realização”. No trecho: “Lamento toda a ameaça a qualquer espécie em extinção, embora, olhando a história das espécies, me pareça natural que algumas desapareçam (...).” — o que se vê é uma opinião contrária (parece natural o desaparecimento), que não impede o lamento já expresso. Portanto, a resposta correta é a alternativa D) Concessão.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Adição: Esse sentido ocorre com conjunções como “e”, “nem”, “bem como”. “Embora” não adiciona, mas contrapõe ideias.
  • B) Consequência: A ideia de consequência é expressa por “logo”, “portanto”, “assim” etc., indicando resultado. “Embora” não dá ideia de resultado ou efeito.
  • C) Adversidade: Conjunções adversativas, como “mas”, “porém”, ligam duas orações coordenadas e não subordinadas. “Embora” subordina sua oração, estabelecendo concessão, não simples oposição.

Estratégia para provas:
Sempre identifique o papel dos conectivos no texto. Cuidado com pegadinhas: concessão ≠ simples adversidade. “Embora” introduz ideia de concessão (algo contrário ao esperado, mas que não impede o fato principal). Relembre exemplos: “Embora cansado, fui trabalhar.” (Reconhecimento do cansaço, mas não impede a ação principal.)

Resumo da Regra: Conjunções concessivas (ex: embora, ainda que, mesmo que) admitem uma condição contrária, sem impedir o acontecimento da oração principal.

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