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Q1730710 Português
Leia o texto abaixo para responder a próxima questão:

O GIGOLÔ DAS PALAVRAS

  Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra Iíngua.
  Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!’). 
  Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
  Respondí que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.
  Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo?
  O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)
  A Gramática é o esqueleto da Iíngua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro.
   As múmias conversam entre si em Gramática pura.
  Claro que eu não disse tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria.
  Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
  Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantei. Acabaria tratandoas com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiría em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.
   A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
Luís Fernando Verissmo
De maneira geral pela leitura do texto, podemos dizer que a postura do autor em relação ao uso de gramática na escola deve ser:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Interpretação de texto, com enfoque em leitura crítica e análise da postura do autor frente ao ensino de gramática na escola.

Alternativa correta: C) Ressignificado

Justificativa: A compreensão adequada do texto exige que o candidato reconheça a ironia e a crítica presentes na crônica de Luís Fernando Veríssimo. O autor problematiza o ensino tradicional da gramática, sugerindo, com humor e sarcasmo, que a língua não deve ser aprisionada por normas rígidas e descontextualizadas. Observe o trecho: “A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.” — aqui a ironia é explícita, sinalizando que a gramática deve ser repensada, e seu ensino, adaptado à comunicação real.

Veríssimo não prega a abolição ou o desrespeito total à gramática, mas questiona seu predomínio como única via para o domínio da língua. Ao afirmar, por exemplo, que “escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”, defende que o ensino gramatical precisa ser ressignificado, buscando integrá-lo ao uso efetivo da linguagem, conforme defendem autores de referência como Irandé Antunes e Carlos Alberto Faraco.

Análise das alternativas incorretas:

A) Abolido: O texto não propõe abolir o ensino de gramática, pois reconhece sua função estrutural (“A gramática é o esqueleto da língua.”), sugerindo apenas que não seja um fim em si mesma.

B) Mantido: Manter o ensino tradicional, sem críticas, contraria a posição do autor, que aponta a necessidade de mudança.

D) Ampliado: Ampliar nos moldes atuais também não faz sentido, pois a crítica está justamente no modelo vigente.

E) Ironizado: A ironia é um recurso estilístico utilizado para propor reflexão, não um objetivo em si no tratamento do ensino gramatical.

Estratégia de prova: Questões desse tipo costumam exigir atenção à entrelinhas, à linguagem figurada (como ironia) e à percepção dos implícitos. Identifique palavras que indicam opinião e pistas críticas — evite tomar o texto ao pé da letra.

Resumo da regra: A interpretação textual exige, além da leitura literal, a habilidade de perceber críticas, ironias, opiniões e propostas subentendidas, aplicando conceitos de leitura crítica conforme preconizam as gramáticas e autores referência.

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