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Q1730709 Português
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O GIGOLÔ DAS PALAVRAS

  Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra Iíngua.
  Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!’). 
  Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
  Respondí que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.
  Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo?
  O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)
  A Gramática é o esqueleto da Iíngua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro.
   As múmias conversam entre si em Gramática pura.
  Claro que eu não disse tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria.
  Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
  Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantei. Acabaria tratandoas com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiría em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.
   A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
Luís Fernando Verissmo
Para exemplificar a seus entrevistadores de maneira didática e clara o autor se valeu de algumas metáforas para compor o seu argumento. Assinale a alternativa que se utilize desse recurso:
Alternativas

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Gabarito: A

Tema central: A questão exige do candidato a identificação da metáfora, uma figura de linguagem que consiste em atribuir a um termo características de outro por meio de uma comparação implícita, sem a presença de conectivos explícitos, como “como” ou “tal qual”. É um recurso essencial para análises textuais e aparece frequentemente em provas de concursos para o magistério.

Justificativa da alternativa correta:

Alternativa A: “Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas.”

Nesse trecho, há uma metáfora clara: o autor se compara a um "gigolô", estabelecendo relação figurada entre ele e as palavras, sugerindo que as explora para benefício próprio, sem uso de conectivo comparativo. Tal construção caracteriza perfeitamente o conceito tradicional de metáfora, conforme Bechara e Cunha & Cintra.

Análise das alternativas incorretas:

B) “As múmias conversam entre si em Gramática pura.” – Aqui há uma personificação (atribuir ações humanas a seres inanimados), não uma metáfora no sentido estrito.

C) “Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação...” – A frase é literal, sem figura de linguagem.

D) “Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro.” – Apesar da linguagem criativa, há uma descrição de ação, não configuração metafórica evidente.

E) “Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.” – Expressa julgamento sobre palavras, sem construção metafórica.

Estratégia para provas: Sempre procure relações de comparação implícita sem conectivos quando a questão pedir metáfora. Cuidado para não confundir com personificação ou hipérbole.

Segundo Cunha & Cintra, na metáfora há “transposição de sentido com base em semelhança oculta”. Já Bechara reforça que a metáfora é uma comparação latente, seu sentido requer interpretação.

Assim, A está correta ao representar, de modo didático e figurado, o papel do autor diante do uso das palavras. Treine reconhecer as figuras para não confundir seus conceitos em outros contextos de prova!

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Comentários

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Gab. A.

A metáfora é uma figura de linguagem que traz um sentido de comparação implícita, e não utiliza conectivos comparativos.

Ex: Esta garota é uma rosa.

Bons estudos!

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