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Q1730708 Português
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O GIGOLÔ DAS PALAVRAS

  Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra Iíngua.
  Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!’). 
  Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
  Respondí que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.
  Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo?
  O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)
  A Gramática é o esqueleto da Iíngua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro.
   As múmias conversam entre si em Gramática pura.
  Claro que eu não disse tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria.
  Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
  Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantei. Acabaria tratandoas com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiría em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.
   A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
Luís Fernando Verissmo
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Gabarito Comentado – Interpretação de Texto

Tema central: Interpretação de texto e reconhecimento da ideia central, além da presença de ironia e reflexão sobre o papel da gramática.

A alternativa A é a correta, pois resume fielmente o eixo central da crônica de Luís Fernando Veríssimo: trata-se realmente de um texto reflexivo, assinado por um escritor profissional, que discute de forma crítica (e irônica) a importância (ou não) do ensino da gramática para o aprendizado e o uso eficaz da língua.

Segundo Evanildo Bechara e Celso Cunha & Lindley Cintra, interpretar textos é captar o tema principal e a perspectiva do autor, distinguindo informações literais de opiniões e ironias subentendidas. Observe que Veríssimo utiliza exemplos e metáforas ("A Gramática é o esqueleto da língua") para defender sua opinião – mas, acima de tudo, traz reflexões que podem gerar discussões importantes sobre linguagem e ensino.

Por que as demais alternativas estão incorretas?

B) Incorreta. O autor utiliza a “pouca intimidade com a gramática” de modo confessadamente irônico, não por limitação real, mas como estratégia para reforçar sua argumentação. Alegar que sua visão é "limitada" deturpa a intenção do texto.

C) Equívoco. Embora use elementos ficcionais e humorísticos, a crônica é sim válida para debates sobre linguagem. O autor expõe posicionamento crítico, sendo um texto que provoca reflexão.

D) Generalização indevida. Veríssimo não defende um uso livre e irrestrito da língua. Ele destaca a comunicação e a clareza, porém ressalta que algumas regras são indispensáveis para evitar incompreensões (“para evitar os vexames mais gritantes”).

E) Leitura literal inadequada. A frase sobre a gramática “apanhar todos os dias” é recurso de ironia, e não expressão de postura vingativa. Identificar ironias é fundamental na interpretação atenta de crônicas.

Estratégia para provas: Atente-se sempre ao tom do autor (ironia, metáfora, humor), relacione as informações explícitas e implícitas, e rejeite alternativas que deturpam ou exageram o sentido defendido no texto, conforme preconizam as gramáticas citadas.

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