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Ano: 2023
Banca:
Instituto UniFil
Órgão:
Prefeitura de Maringá - PR
Provas:
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Q4264015
Português
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Pelé, impossível esquecer
por José Cruz
Em menos de um mês, o Brasil ganhou destacado espaço
na imprensa esportiva internacional. Ironicamente, para
registrar duas tristezas. A eliminação da Seleção Brasileira do
Mundial do Catar e, a mais recente, a morte do Atleta do Século,
Pelé. Entre pódios e alegrias, no futebol e fora dele, o Brasil
esportivo também passa por traumas que entristecem a todos.
Como a morte de Ayrton Senna, por exemplo, em 1994. O
cortejo fúnebre de ontem, em Santos, na despedida de Pelé,
lembrou o choro nacional de quando Senna foi sepultado.
Nunca mais tivemos um piloto com as características do
tricampeão mundial, que nos deixou prematuramente. No
futebol, vibramos com outros craques que nos enchem de
orgulho. Mas nenhum como Pelé. Nem aqui nem em outro lugar
do mundo.
Sobre Pelé já se escreveu tudo, principalmente os que
tiveram o privilégio de com ele conviver, como os cronistas da
velha guarda, por exemplo. Pelé foi o tal! Como era craque e
famoso, podia ousar. E foi assim que arriscou no cinema e na
música. Mas o seu chão, mesmo, era a grama dos estádios onde
ele desfilou com classe e jogadas criativas que hoje ainda nos
deixam babando diante da TV. Porém, Pelé nunca colocou o
seu valorizadíssimo prestígio internacional para combater a
discriminação dos negros no esporte, aqui e mundo afora.
Chegou a ser criticado por essa omissão. Mesmo assim,
raramente falava sobre essa agressão no mais popular dos
esportes.
Quem sintetiza esse tema é a jornalista Angélica Basthi.
Em seu livro Pelé: uma estrela negra em campos verdes ela
escreveu: "Em 2014, ao comentar o racismo sofrido pelo
goleiro Aranha, durante um jogo pelo Santos (time que Pelé
também defendeu), disse que, se tivesse parado toda partida em
que alguém o chamasse de 'macaco' ou 'crioulo', todos os jogos
dos quais participou teriam que ser interrompidos — admitindo,
pela primeira vez, que sofria discriminação racial".
Essa abordagem me lembra de uma entrevista com Pelé,
ao lado do também bicampeão mundial, Nilton Santos. Os dois
moravam em Brasília. Pelé era ministro extraordinário do
Esporte, governo de Fernando Henrique Cardoso. Nilton tinha
uma escolinha de futebol no estádio Mané Garrincha. Por
sugestão do jornalista André Gustavo Stumpf, a editoria de
Esportes do Correio Braziliense reuniu os dois astros numa
conversa de quatro horas. Em volta da mesa estavam craques
da reportagem, como Ricardo Noblat, José Antônio Alves,
Roberto Naves, Ricardo Mendes... A gravação durou quatro
horas e o resultado daquele riquíssimo encontro foi publicado
numa edição de 16 páginas do Correio, em 1994, se não me
engano.
Quando Pelé chegou para a entrevista, Nilton contava
histórias maravilhosas da Seleção Brasileira na Suécia, em
1958, ano da primeira conquista do título mundial. Nilton
tratava Pelé de "Negrão". E lembrou que as loirinhas
escandinavas "nunca tinham visto um crioulo, jovem (tinha 17
anos), pernas de atleta completo, e por ele logo se
apaixonavam". O "Negrão" riu com vontade e confirmou
aquela confidência do amigo. E foi assim durante todo o papo,
sem que ninguém se ofendesse por usar tais expressões que,
hoje, motivam processos e longas reportagens.
Enfim, Pelé o "Atleta do Século" mereceu todas as
homenagens que recebeu "em vida", como sempre desejou.
Lamentavelmente, Brasília não pôde participar dessa
despedida com lembranças que honrem o passado de Pelé por
aqui. Num legítimo trambique que envolveu construtoras, a
Federação Brasiliense de Futebol e a Câmara Legislativa do
Distrito Federal, o Estádio Pelezão, inaugurado em 1966, no
Setor de Oficinas Sul, ao lado do Carrefour, foi demolido. O ato
criminoso para o esporte em geral ocorreu em 2009, sem
qualquer protesto. No lugar estádio, surgiram imponentes
edifícios. E o dinheiro dessa transação perdeu-se em
distribuições suspeitas entre cartolas de então. Enfim, "vida que
segue", como diria João Saldanha, craque do jornalismo
esportivo e que, como treinador, de Pelé, inclusive, classificou
a Seleção Brasileira para a campanha do tricampeonato
mundial, em 1970, no México.
Pelé não foi só o craque que encantou o mundo. Ele foi
mais... Não deixava repórter sem resposta e valorizava o
trabalho da imprensa. Era gentil nas relações, fora de campo,
claro. Como ministro chegou, certa vez, para uma solenidade
no Hotel Nacional, por volta da 19h. A multidão o cercou,
abraços e autógrafos. Ao ver os repórteres num "cercadinho"
(perdão, leitores...) ele levantou os dois braços e, com sua voz
forte e rouca, pediu um pouco de silêncio e lascou: "Vou
atender os repórteres, primeiro. Eles têm hora para fechar os
jornais e nós temos a noite toda para ficar aqui". E assim foi.
Como esquecer de um cara desses?
Disponível em https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2023/01/5063638-
artigo-pele-impossivel-esquecer.html
Assinale a alternativa que explica o uso das aspas no
sexto parágrafo.