Considere o emprego de sinais de pontuação no texto. I. e ...

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Q2806930 Português
            Não é usual tratar da política na perspectiva da afirmação da verdade. Platão afirmou, na República, que a verdade merece ser estimada sobre todas as coisas, mas ressalvou que há circunstâncias em que a mentira pode ser útil, e não odiosa. Na política, a derrogação da verdade pela aceitação da mentira muito deve à clássica tradição do realismo que identifica no predomínio do conflito o cerne dos fatos políticos. Esta tradição trabalha a ação política como uma ação estratégica que requer, sem idealismos, uma praxiologia, vendo na realidade resistência e no poder, hostilidade. Neste contexto, política é guerra e, como diz o provérbio, "em tempos de guerra, mentiras por mar, mentiras por terra".
            Recorrendo a metáforas do reino animal, Maquiavel aponta que o príncipe precisa ter, ao mesmo tempo, no exercício realista do poder, a força do leão e a astúcia ardilosa da raposa. Raposa, leão, assim como camaleão, serpente, polvo – metáforas que frequentemente são utilizadas na descrição de políticos – não podem, com propriedade, caracterizar o ser humano moral que obedece aos consagrados preceitos do "não matar" e do "não mentir", como lembra Norberto Bobbio.
            Recorrendo a metáforas do reino animal, Maquiavel aponta que o príncipe precisa ter, ao mesmo tempo, no exercício realista do poder, a força do leão e a astúcia ardilosa da raposa. Raposa, leão, assim como camaleão, serpente, polvo – metáforas que frequentemente são utilizadas na descrição de políticos – não podem, com propriedade, caracterizar o ser humano moral que obedece aos consagrados preceitos do "não matar" e do "não mentir", como lembra Norberto Bobbio.
            Sustentar a simulação e a mentira como expedientes usuais na arena política é desconhecer a importância estratégica que a confiança desempenha na pluralidade da interação humana democrática. A confiança requer a boa-fé que pressupõe a veracidade. O Talmude equipara a mentira à pior forma de roubo: "Existem sete classes de ladrões e a primeira é a daqueles que roubam a mente de seus semelhantes através de palavras mentirosas." O padre Antônio Vieira afirmou que a verdade é filha da justiça, porque a justiça dá a cada um o que é seu, ao contrário da mentira, porque esta "ou vos tira o que tendes ou vos dá o que não tendes". Montaigne observou que somente pela palavra é que somos homens e nos entendemos. Por isso mentir é um vício maldito. Impede o entendimento.

(Celso Lafer. O Estado de S. Paulo, A2, 20 de julho de 2008, com adaptações) 

Considere o emprego de sinais de pontuação no texto.

I. e no poder, hostilidade – a vírgula assinala elipse do verbo.

II. – metáforas que frequentemente são utilizadas na descrição de políticos ? os travessões isolam segmento explicativo.

III. aos consagrados preceitos do "não matar" e do "não mentir" ? as aspas indicam reprodução exata de princípios estabelecidos.

IV. equipara a mentira à pior forma de roubo: ? os doispontos indicam intervenção de novo interlocutor no contexto.

Está correto o que se afirma em

Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A questão pede a identificação da função pontuacional nos trechos do próprio texto, e a base decisiva confirma que a vírgula marca elipse verbal, os travessões isolam segmento explicativo, as aspas reproduzem literalmente preceitos e os dois-pontos introduzem citação. Assim, todas as assertivas I, II, III e IV se sustentam.

Tema central: Função dos sinais de pontuação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque exclui I e II, mas ambas se confirmam no texto. Em I, a vírgula de "e no poder, hostilidade" não é mera pausa: ela marca a elipse do verbo já expresso em "vendo". Em II, os travessões em "– metáforas que frequentemente são utilizadas na descrição de políticos –" isolam um segmento explicativo intercalado.
B
Errada
Está errada porque exclui I e III. O item I se sustenta pelo paralelismo sintático com elipse de "vendo". O item III também se sustenta, pois as aspas em "não matar" e "não mentir" recaem sobre formulações verbais de preceitos consagrados, com valor de reprodução literal destacada.
C
Errada
Está errada porque exclui III e IV. Em III, as aspas não são de ironia nem mero destaque solto; elas marcam a formulação verbal dos preceitos. Em IV, os dois-pontos após "roubo:" introduzem citação direta: "Existem sete classes de ladrões...", o que corresponde à entrada de voz alheia no encadeamento textual.
D
Certa
Está errada porque exclui IV, mas o item IV é compatível com o texto. Após os dois-pontos em "equipara a mentira à pior forma de roubo:", passa-se à reprodução direta de enunciado atribuído ao Talmude. A formulação "novo interlocutor" não é a mais rigorosa tecnicamente, mas, no contexto da questão, vale como introdução de outra voz discursiva.
E
Certa
A alternativa E está correta porque reúne as quatro leituras compatíveis com o funcionamento pontuacional do texto. Em I, há paralelismo em "vendo na realidade resistência e no poder, hostilidade", e a vírgula assinala a omissão de "vendo" no segundo segmento. Em II, o trecho entre travessões é uma intercalação explicativa sobre as metáforas antes listadas. Em III, as aspas em "não matar" e "não mentir" destacam fórmulas verbais apresentadas como preceitos consagrados. Em IV, os dois-pontos introduzem a citação atribuída ao Talmude, isto é, a entrada de outra voz no texto.
Pegadinha da questão
A banca explora sobretudo duas confusões reais: tomar a vírgula de I como simples pausa, sem perceber a elipse de "vendo", e rejeitar IV por causa da expressão "novo interlocutor", embora os dois-pontos introduzam claramente uma citação, isto é, outra voz no texto.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique a função do sinal no trecho exato, não o nome do sinal isoladamente.
  • Em estruturas paralelas, observe se a pontuação marca termo omitido, como verbo já expresso antes.
  • Travessões no meio do período frequentemente isolam intercalação explicativa, não diálogo.
  • Dois-pontos seguidos de enunciado atribuído a alguém indicam citação direta ou entrada de outra voz discursiva.

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