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Q1309514 Português

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A Daslu e o shopping-bunker



      A nova Daslu é o assunto preferido das conversas em São Paulo. Os ricos se entusiasmam com a criação de um local tão exclusivo e cheio de roupas e objetos sofisticados e internacionais. Os pequeno-burgueses praguejam contra a iniciativa, indignados com tanta ostentação.

         Antes instalada num conjunto de casas na Vila Nova Conceição, região de classe alta, a loja que vende as grifes mais famosas e caras do mundo passará agora a funcionar num prédio monumental construído no bairro "nouveau riche" da Vila Olímpia e ao lado do infelizmente pútrido e malcheiroso rio Pinheiros.

       A imprensa aproveita a mudança da Daslu para discorrer sobre as vantagens de uma vida luxuosa e exibir fotos exclusivas do interior da megaloja de quatro andares e seus salões labirínticos, onde praticamente não há corredores, pois, como diz a dona da loja, a ideia é que o consumidor se sinta em sua casa. 

        Estranha casa, deve-se dizer. Para entrar nela é preciso fazer uma carteira de sócio, depois de deixar o carro num estacionamento que custa R$ 30,00 (a primeira hora). Obviamente, tudo isso tem por objetivo selecionar os consumidores e intimidar os pouco afortunados – os mesmos que, ao se aventurar na antiga loja, reclamavam da indiferença das vendedoras, as dasluzetes, muito mais solícitas com aqueles que elas já conheciam ou que demonstravam de cara seu poder de compra.

      As complicações na portaria visam também, embora não se diga com clareza, a proteger o local e dar  segurança aos milionários de todo o país que certamente farão da nova Daslu um de seus "points" durante a estada em São Paulo, como já ocorria com a antiga casa. A segurança é um item cada vez mais prioritário nos negócios hoje em dia – antes mesmo da inauguração, a loja teve um de seus caminhões de mudança roubados.

    As formalidades na entrada levam ainda em conta a privacidade do local de quase 20 mil metros quadrados, não muito longe da favela Coliseu (sic). A reportagem de um site calculou, por falar nisso, que a soma da renda mensal de todas as famílias da favela (R$ 10.725, segundo o IBGE) daria para comprar apenas duas calças Dolce & Gabbana na loja. 

     Tais fatores, digamos assim, sinistros da realidade brasileira é que impulsionam o pioneirismo da nova Daslu. Sim, a loja é uma empreitada verdadeiramente inédita. A Daslu, que desenvolveu no Brasil um certo tipo de atendimento exclusivo e personalizado para ricos, agora introduz, pela primeira vez no mundo, o modelo do shopping-bunker.

      Todos sabem como os shopping-centers floresceram em São Paulo e nas capitais brasileiras, tanto pelas facilidades que propiciam para a gente que vive nos centros urbanos congestionados e tumultuados, quanto pela segurança. Ao longo dos anos, eles foram surgindo aqui e ali, alterando a sociabilidade e a paisagem das cidades. Acabaram se transformando em uma espécie de praça (fechada), onde as classes alta e média podiam circular com tranquilidade, sem serem importunadas pela visão e a presença dos numerosos pobres e miseráveis, que, por sua vez, ocuparam as praças públicas (abertas), como a da República e a da Sé, em São Paulo. Dentro dos shoppings, os brasileiros sonhamos um mundo de riqueza, organização, limpeza, segurança, facilidades e sobretudo de distinção que lá fora, nas ruas, está agora longe de existir.


     Mas talvez os shoppings, mesmo os mais sofisticados, como o Iguatemi, tenham se tornado democráticos demais para o gosto da classe alta paulista. A cada pequeno entusiasmo econômico, logo a alvoraçada classe média da cidade resolve se intrometer aos bandos nas searas exclusivas dos muito ricos. (...)



Disponível em: : https://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult682u123.shtml

O autor apresenta um dado estatístico no 6º parágrafo com o intuito de:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Esta questão envolve interpretação de texto, especificamente o reconhecimento da função de um dado estatístico na argumentação do autor. Aqui, o objetivo é examinar a coerência textual e o uso de elementos que fortalecem a tese do texto.

Alternativa correta — Letra A: "Demonstrar o contraste entre duas realidades sociais."

O autor, ao mencionar que a soma da renda mensal de todas as famílias de uma favela próxima seria suficiente para comprar apenas duas calças de grife na loja Daslu, explicita o abismo econômico entre quem frequenta e quem vive na região. Esse dado não é neutro ou meramente informativo; ele enfatiza a disparidade, reforçando a crítica social presente no texto.

Regra/conceito que resolve: Segundo Evanildo Bechara, evidências estatísticas, quando integradas argumentativamente, servem para dar força e credibilidade à ideia central, configurando um recurso de coesão referencial e semântica.

Como identificar: Ao interpretar a função de dados numéricos no texto, busque palavras-chave e o contexto. Note, neste caso, a intenção crítica do autor ao comparar realidades extremas.

Análise das alternativas incorretas:

B) Ilustrar, com isenção, as duas condições sociais contrastantes.
Erro: O autor não utiliza isenção, pois há crítica evidente — isenção pressupõe neutralidade, o que não ocorre.

C) Informar, com distanciamento investigativo, o problema da diferença de classe no país.
Erro: O texto não possui tom meramente informativo ou investigativo; a escolha das palavras e exemplos revela posicionamento crítico.

D) Nenhuma das alternativas.
Erro: Existe, sim, uma alternativa correta (A).

Estratégia de prova: Quando um texto apresenta comparações numéricas fortes entre grupos sociais, questione o propósito do autor: é informar, criticar, contrastar ou justificar?

Em resumo, a coerência textual, conceito central para Bechara e Cunha & Cintra, depende desses mecanismos de oposição e contraste para fundamentar argumentos e revelar críticas sociais. Aprenda a identificar posicionamentos implícitos para não ser induzido por alternativas que falem em isenção ou distanciamento quando o texto mostra engajamento.

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