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Q2720536 Português

Da ação dos justos

Em recente entrevista na TV, uma conhecida e combativa juíza brasileira citou esta frase de Disraeli*: “É preciso que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas”. Para a juíza, o sentido da frase é atualíssimo: diz respeito à freqüente omissão das pessoas justas e honestas diante das manifestações de violência e de corrupção que se multiplicam em nossos dias e que, felizmente, têm chegado ao conhecimento público e vêm sendo investigadas e punidas. A frase propõe uma ética atuante, cujos valores se materializem em reação efetiva, em gestos de repúdio e medidas de combate à barbárie moral. Em outras palavras: que a desesperança e o silêncio não tomem conta daqueles que pautam sua vida por princípios de dignidade.
Como não concordar com a oportunidade da frase? Normalmente, a indignação se reduz a conversas privadas, a comentários pessoais, não indo além de um mero discurso ético. Se não transpõe o limite da queixa, a indignação é impotente, e seu efeito é nenhum; mas se ela se converte em gesto público, objetivamente dirigido contra a arrogância acanalhada, alcança a dimensão da prática social e política, e gera conseqüências
A frase lembra-nos que não costuma haver qualquer hesitação entre aqueles que se decidem pela desonestidade e pelo egoísmo. Seus atos revelam iniciativa e astúcia, facilitadas pela total ausência de compromisso com o interesse público. Realmente, a falta de escrúpulo aplaina o caminho de quem não confronta o justo e o injusto; por outro lado, muitas vezes faltam coragem e iniciativa aos homens que conhecem e mantêm viva a diferença entre um e outro. Pois que estes a deixem clara, e não abram mão de reagir contra quem a ignore.
A inação dos justos é tudo o que os contraventores e criminosos precisam para continuar operando. A cada vez que se propagam frases como “Os políticos são todos iguais”, “Brasileiro é assim mesmo” ou “Este país não tem jeito”, promove-se a resignação diante dos descalabros. Quem vê a barbárie como uma fatalidade torna-se, ainda que não o queira, seu cúmplice silencioso.


* Benjamin Disraeli, escritor e político britânico do século XIX.


(Aristides Villamar) 

Os segmentos destacados constituem, respectivamente, uma causa e sua conseqüência em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto – relação de causa e consequência.

O objetivo desta questão é identificar, no texto, quais segmentos apresentam uma relação causal, ou seja, em que um fato é a causa e outro é sua consequência. Esse tipo de análise é essencial em provas, pois exige leitura atenta e compreensão dos nexos relacionais, muito explorados em concursos para Analista Judiciário.

Segundo Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), orações subordinadas adverbiais causais expressam o motivo de uma ação, enquanto a oração consequente apresenta o resultado desse motivo. A correta identificação desses conceitos é crucial para o domínio da interpretação textual.

Análise da alternativa correta – Letra E:
“Quem vê a barbárie como uma fatalidade” (causa) → “torna-se (...) seu cúmplice silencioso.” (consequência).
O texto explicita: considerar a barbárie inevitável leva à inação, tornando o sujeito “cúmplice silencioso”. Ou seja, a visão passiva da realidade causa a cumplicidade, estabelecendo clara relação de causa (visão fatalista) e consequência (cumplicidade).

Análise das alternativas incorretas:

A) “Para a juíza, / o sentido da frase é atualíssimo.”
Aqui há apenas uma opinião atribuída à juíza, sem nexo causal.

B) “Pois que estes a deixem clara / e não abram mão de reagir contra quem a ignore.”
O “pois que” traz sentido de explicação ou justificativa, não propriamente de consequência direta.

C) “Normalmente, a indignação se reduz / a conversas privadas (...).”
O segmento 2 apenas detalha o 1, sem haver ação que decorre de outra, ou seja, sem relação causal explícita.

D) “A frase lembra-nos / que não costuma haver qualquer hesitação (...).”
O segundo segmento é o conteúdo do que é lembrado, atuando como objeto direto, sem estabelecer relação de causa e consequência.

Orientação Estratégica: Em questões desse tipo, identifique termos explicativos (“porque”, “já que”, “visto que”, equivalentes à causa) e efeitos claros (“por isso”, “logo”, “assim”, sinais de consequência). Leia atentamente as relações lógicas entre as partes do período.

Conclusão: A alternativa E foi a única que apresentou verdadeira relação de causa e consequência, conforme a norma-padrão e os conceitos gramaticais clássicos.

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