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Q3410589 Português
Entenda o que é mitomania, a compulsão pela mentira 


            Quem nunca mentiu que atire a primeira pedra. Em muitas ocasiões, a mentira é uma ferramenta para não magoar os outros ou não entrar em conflito. Segundo Leila Cury Tardivo, professora do IP/USP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo), a mentira tem graus e não apresenta, necessariamente, uma conotação grave. “Mas, quando a mentira consciente é compulsiva, se transforma em um falseamento da realidade e aí pode representar algo mais sério, caracterizando a mitomania”, explica a professora. Abaixo, Leila e Hélio Deliberador, professor de psicologia social da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), explicam o que é, quais os sintomas e como tratar a mitomania. 


                O que é mitomania?


             A mitomania é a compulsão pela mentira, contada de forma consciente, que tem por objetivo a autoproteção ou, muitas vezes, o falseamento da realidade, de maneira a fazê-la parecer melhor. “Trata-se de um processo de adoecimento psíquico, onde a pessoa que sofre vive alimentando mentiras. Mentiras que geralmente elevam a importância dela, as realizações e todo esse quadro de poder, vamos dizer assim, que ela cria em função de mentiras que não correspondem exatamente a sua realidade”, explica Hélio Deliberador, professor de psicologia social da PUC-SP.


                Qual a diferença entre a mentira comum e a mitomania?


             A mitomania é o exagero consciente da mentira. “É bastante diferente da mentira social, quando, por exemplo, uma pessoa corta o cabelo e eu não gostei. Eu não vou dizer que acho que a pessoa está feia porque não quero chateá-la. Mas, no caso do mitomaníaco, ele não consegue parar de mentir, e ele mente sobre sua realidade para fazê-la parecer melhor, aparentar mais do que tem ou encobrir algo”, conta Leila Cury Tardivo, professora da USP. Um dos exemplos brasileiros mais famosos de mitomaníaco é Marcelo Nascimento da Rocha, autor do livro “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso”, que se passou por filho do dono da companhia aérea GOL.


                A mitomania está relacionada a outros males?


            A mentira compulsiva está relacionada a outros quadros de doenças psiquiátricas e psicológicas, como transtornos de personalidade antissocial, que, segundo o professor Hélio, podem levar o mitomaníaco a um processo de isolamento para não ser descoberto. “A mitomania está relacionada, em geral, ao transtorno de personalidade antissocial, quando é aquela mentira que tem por finalidade a defesa ou uma ideia de falsear a realidade, porque a pessoa não suporta aquela em que vive e quer se colocar em outro ambiente”, afirma Leila.


              O mitomaníaco mente por má-fé?


            Segundo o professor Hélio, geralmente, o mitomaníaco não age de má-fé porque o comportamento é resultado de um sofrimento, que acaba por levá-lo a um processo de quase semiconsciência: “A pessoa vai se perdendo nisso”. Mas as intenções também dependem do transtorno de personalidade ao qual a mitomania pode estar relacionada, explica a professora Leila: “Se o mitomaníaco tiver um transtorno de personalidade antissocial mais grave, como um sociopata, aí ele pode fazer mal para os outros”.


                Como identificar um mitomaníaco?


         Quando as mentiras são muito discrepantes em relação à realidade, é mais fácil de identificar o comportamento compulsivo. Outro ponto suspeito é que o mitomaníaco pode tentar esconder a família, o emprego ou o lugar onde mora. “Algumas coisas se consegue identificar em mitomaníacos mesmo se você não faz parte do círculo íntimo dele, você vê que aquilo que ele está falando não bate”, diz a professora Leila. Contudo, é mesmo na convivência que se percebem as mentiras constantes e a falta de nexo delas com a realidade.


                O que fazer ao identificar um mitomaníaco?


             O ideal é nunca confrontar, mas acolher o mitomaníaco de forma compreensiva. Em alguns casos, quando ele admite que está mentindo, mas não consegue parar de mentir, fica mais fácil sugerir que procure ajuda. “Agora, se o mitomaníaco não admite que mente, uma das formas de tentar fazer com que ele procure um tratamento é conversar com a família dele para ver se os mais próximos conseguem convencê-lo a procurar ajuda”, diz a professora Leila.


                Como tratar a mitomania?


              Para os professores, a psicoterapia é um dos tratamentos mais indicados para a mitomania. “No processo terapêutico, o mitomaníaco entra em contato com o desejo que não corresponde à realidade dele. Então, devagar, ele vai tomando consciência desse processo e analisando a quais experiências a compulsão pela mentira está relacionada”, esclarece Hélio. 

Texto originalmente publicado no Portal BOL, Por Celina Cardoso. Disponível em https://www.ip.usp.br/site/noticia/entenda-o-que-e mitomania-a-compulsao-pela-mentira/)
De acordo com o texto, qual é o atributo preponderante que singulariza a mitomania frente à mera prática da mentira cotidiana? 
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Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de textos e semântica. Aqui, o objetivo é identificar, a partir da leitura atenta, qual característica da mitomania se sobrepõe à da mentira comum, analisando o significado exato das palavras de cada alternativa, como orienta a norma-padrão e os principais gramáticos.

Justificativa para a alternativa correta (C):

A alternativa C) "A inobservância do próprio indivíduo acerca de suas invencionices" destaca a ideia de que o mitomaníaco gradualmente perde a consciência clara sobre suas mentiras. No texto, afirma-se: “O comportamento é resultado de um sofrimento, que acaba por levá-lo a um processo de quase semiconsciência: ‘A pessoa vai se perdendo nisso.’” Isso sinaliza, de modo explícito, que um atributo central da mitomania é a perda de percepção das próprias invencionices—a diferença fundamental para a mentira cotidiana, que normalmente é criada de modo consciente e controlado.

Como ensinam autores como Celso Cunha & Lindley Cintra, interpretação de textos exige que se priorizem as informações explícitas e núcleos semânticos presentes no texto. A alternativa C dialoga precisamente com essa essência.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Exagero consciente na engenhosidade das falácias”: Embora exista exagero, o texto não enfatiza “engenhosidade” como ponto central; o atributo essencial não é a astúcia, mas a compulsão e a falta de percepção.

B) “Exacerbada recorrência das fabulações”: Embora a recorrência seja típica, não é o que singulariza a mitomania frente à mentira comum, pois uma pessoa pode mentir com frequência sem ser mitomaníaca.

D) “Intenção maligna de lesar terceiros”: O texto afasta a ideia de má-fé como regra da mitomania, relacionando-a mais a sofrimento psíquico.

E) “Mórbida ambição”: A mitomania não aparece no texto como consequência de ambição, mas de compulsão psicológica, o que a despersonaliza desse tipo de motivação.

Estratégia de resolução: Nas questões de interpretação, busque sempre os termos-chave do texto. Note as expressões que descrevem efeitos psicológicos (“quase semiconsciência”) e evite respostas genéricas ou exageradas (como atribuir sempre má-fé ou ambição mórbida aos quadros descritos).

Resumo: Ao optar pela alternativa C, você demonstra atenção à diferença entre perda de consciência e o mero ato consciente de mentir, exatamente como cobram concursos sérios e está explicitado nas gramáticas referenciais.

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