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Q2369224 Português
O homem que espalhou o deserto


          Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jabuticabeiras. Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas. A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram imensas e o menino pequeno. O seu trabalho rendia pouco, apesar do dia a dia, constante, de manhã à noite.

        Mas o menino cresceu, ganhou tesouras maiores. Parecia determinado, à medida que o tempo passava, a acabar com as folhas todas. Dominado por uma estranha impulsão, ele não queria ir à escola, não queria ir ao cinema, não tinha namoradas ou amigos. Apenas tesouras, das mais diversas qualidades e tipos. Dormia com elas no quarto. À noite, com uma pedra de amolar, afiava bem os cortes, preparando-as para as tarefas do dia seguinte. Às vezes, deixava aberta a janela, para que o luar brilhasse nas tesouras polidas.

       A mãe, muito contente, apesar de o filho detestar a escola e ir mal nas letras. Todavia, era um menino comportado, não saía de casa, não andava em más companhias, não se embriagava aos sábados como os outros meninos do quarteirão, não frequentava ruas suspeitas onde mulheres pintadas exageradamente se postavam às janelas, chamando os incautos. Seu único prazer eram as tesouras e o corte das folhas.

        Só que, agora, ele era maior e as árvores começaram a perder. Ele demorou apenas uma semana para limpar a jabuticabeira. Quinze dias para a mangueira menor e vinte e cinco para a maior. Quarenta dias para o abacateiro que era imenso, tinha mais de cinquenta anos. E seis meses depois, quando concluiu, já a jabuticabeira tinha novas folhas e ele precisou recomeçar.

        Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as folhas. Elas se recomporiam sempre. É uma capacidade da natureza, morrer e reviver. Como o seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado.

         Numa terça-feira, bem cedo, que não era de perder tempo, começou a derrubada do abacateiro. Levou dez dias, porque não estava habituado a manejar machados, as mãos calejaram, sangraram. Adquirida a prática, limpou o quintal e descansou aliviado.

         Mas insatisfeito, porque agora passava os dias a olhar aquela desolação, ele saiu de machado em punho, para os arredores da cidade. Onde encontrava árvore, capões, matos atacava, limpava, deixava os montes de lenhas arrumadinhos para quem quisesse se servir. Os donos dos terrenos não se importavam, estavam em vias de vendê-los para fábricas ou imobiliárias e precisavam de tudo limpo mesmo.

          E o homem do machado descobriu que podia ganhar a vida com o seu instrumento. Onde quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado. Não parava. Contratou uma secretária para organizar uma agenda. Depois, auxiliares. Montou uma companhia, construiu edifícios para guardar machados, abrigar seus operários devastadores. Importou tratores e máquinas especializadas do estrangeiro. Mandou assistentes fazerem cursos nos Estados Unidos e Europa. Eles voltaram peritos de primeira linha. E trabalhavam, derrubavam. Foram do sul ao norte, não deixando nada em pé. Onde quer que houvesse uma folha verde, lá estava uma tesoura, um machado, um aparelho eletrônico para arrasar.

       E enquanto ele ficava milionário, o país se transformava num deserto, terra calcinada. E então, o governo, para remediar, mandou buscar em Israel técnicos especializados em tornar férteis as terras do deserto. E os homens mandaram plantar árvores. E enquanto as árvores eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão.


(BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O homem que espalhou o deserto. In: Cadeiras proibidas. 2.ed. Rio de Janeiro, Codecri, 1979. p. 78-80.)
Em relação ao significado das palavras empregadas no texto, apenas uma não está correta; assinale-a.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Semântica e interpretação de vocabulário em contexto. O candidato deve identificar se a definição apresentada para cada palavra sublinhada realmente corresponde ao seu significado no contexto do texto.

Análise da alternativa A (correta):

O termo diminuto significa, segundo os principais dicionários e gramáticas (Bechara; Cunha & Cintra): "muito pequeno, minúsculo, de pouca importância". No texto, “Como o seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado”, fica evidente que a ideia é de pequenez do cérebro, ou seja, capacidade intelectual reduzida.
A definição da alternativa ("lento; indolente") está errada. Lento implica demora; indolente, preguiça, o que não surge na palavra “diminuto”, que não se refere a ritmo ou disposição.

Análise das demais alternativas:

B) Calcinada“Queimada; transformada em cinzas” corresponde exatamente ao significado da palavra. O texto reforça a ideia de destruição extrema, típica de “calcinada”.

C) Incautos“Inocentes; ingênuos” é uma equivalência precisa. No contexto, refere-se a pessoas facilmente enganadas, sem malícia ou suspeita das intenções das mulheres retratadas no texto.

D) Desolação“Destruição; devastação” também está correto. “Desolação” sugere abandono, devastação ou grande tristeza, coerente com o cenário vazio e destruído narrado.

Estratégia para este tipo de questão: Sempre que a questão tratar de significado de palavras, procure localizar o termo no texto e reconstituir a frase mentalmente. Compare com o significado real do vocábulo, lembrando-se de buscar sua acepção principal, e não sentidos figurados ou próximos. Segundo Cunha & Cintra, em provas de concursos é frequente que bancas troquem por sinônimos imprecisos, ou que generalizem indevidamente sentidos.

Resumo: Só a alternativa A apresenta definição incorreta. O ponto central é a atenção ao significado estrito de cada palavra. Isso não só evita erros, mas aprimora sua capacidade de leitura crítica em provas.

Gabarito: A

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Comentários

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LETRA A

diminuto=pequenas dimensões, reduzido

diminuto: tamanho muito pequeno

Diminuto - De tamanho reduzido, reduzido, escasso, insuficiente.

Indolente - Que não sente dor, insensível à dor, incapaz de sentir dor.

Fonte: Dicio.com

A minha pergunta é: Como conseguir responder sinônimos na hora da prova, são tantas palavras para descobrir.

A palavra "diminuto" é um adjetivo que se refere a algo muito pequeno em tamanho, minúsculo ou extremamente pequeno em comparação com o usual. É comumente usado para descrever objetos, seres vivos ou qualquer coisa que seja notavelmente pequena.



só conhecia o acorde diminuto mesmo.

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