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Q4193291 Português
Leia a crônica para responder à questão.

Fiscais de barriga

   Confesso: nos últimos tempos engordei. Não, não virei uma bola de boliche, mas esses últimos quilos se concentraram na barriga. Todos eles. Tornei-me o alvo ideal para um tipo que virou uma praga na vida urbana. É o fiscal de barriga. Trata-se de uma criatura empenhada em contabilizar o peso alheio. Você se encontra com o tipo, ele abre um sorriso até as orelhas e tasca:
    – Engordou, hein?!
  Todo fofo sabe quando e quanto subiu de peso. Quem nunca observou uma pessoa volumosa aferindo os gramas numa balança de farmácia? Primeiro sobe, com expressão de esperança. Ao observar o marcador implacável, o rosto se contorce entre dúvida e desespero. Algumas tiram o casaco, como se um reles objeto pudesse pesar os 5 ou 10 quilos extras apontados. Suspira fundo e olha o marcador novamente. Agora a expressão é de desconfiança, quando não de fúria:
    – Balança de farmácia não presta!!
    E sai à procura de outra.
    O fiscal de barriga só serve para acrescentar fel1 à vida dos outros. Conheço um, diretor de teatro, com a silhueta elegante como um balde. Deveria ficar quieto, mas mede o peso de cada um com olhos argutos2 :
    – Quando fomos almoçar juntos, você estava bem mais magro.
   – Que é isso? Eu já estava gordinho – defendo-me. – Não, não... agora você está pior – contesta satisfeito.
  Na fofura e na magreza, sempre haverá um fiscal para comentar que, depois de se comportar como um inquisidor, dá a estocada final:
    – Só falo porque sou seu amigo.
    Que ninguém acredite na expressão de solidariedade. Torturar o próximo, eis seu maior prazer.

(Walcyr Carrasco. VEJA SP, 06.11.1996. Adaptado)

1     fel: amargura, azedume.
2     argutos: muito atentos.
No terceiro parágrafo, a respeito das pessoas que utilizam balança de farmácia, o autor
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é reconhecer a ação discursiva predominante no recorte: o autor descreve comportamentos e estados emocionais diante de um peso superior ao desejado. Isso se evidencia em “Primeiro sobe, com expressão de esperança. Ao observar o marcador implacável, o rosto se contorce entre dúvida e desespero.” Como se trata de descrição, e não de crítica, advertência ou conselho, sustenta-se a alternativa B.

Tema central: Descrição de reações emocionais
Análise das alternativas
A
Errada
O parágrafo não atribui vaidade excessiva às pessoas nem informa que elas controlem o peso diariamente. A descrição humorística das reações à pesagem não sustenta esse julgamento nem essa frequência.
B
Certa
A alternativa B reúne os dois extremos da sequência descrita: a esperança inicial ao subir na balança e a revolta diante do resultado, expressa em “Agora a expressão é de desconfiança, quando não de fúria:”. Nesse contexto, “não perderam peso” sintetiza a frustração com os quilos extras indicados; não significa que o texto apresente uma comparação entre pesagens anteriores ou informe uma meta de emagrecimento.
C
Errada
A desconfiança na balança é uma reação da pessoa insatisfeita com o resultado, não uma advertência do autor. Além de confundir essas vozes, a alternativa acrescenta a generalização de que seria impossível encontrar balanças confiáveis, sem apoio no texto.
D
Errada
Contradiz diretamente a afirmação “Todo fofo sabe quando e quanto subiu de peso.” A resistência ao resultado da balança não equivale ao desconhecimento do ganho de peso.
E
Errada
O narrador registra a fúria como uma das reações à pesagem, mas não recomenda contê-la. A alternativa transforma uma descrição de comportamento em aconselhamento.
Pegadinha da questão
A banca troca a ação de descrever por criticar, advertir ou aconselhar. Também explora a confusão entre a reclamação da pessoa que se pesa e a posição do narrador sobre a confiabilidade das balanças.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique o que o autor faz no recorte solicitado: relatar emoções não equivale a recomendar como agir.
  • Acompanhe os marcadores de progressão: aqui, “Primeiro”, “Ao observar” e “Agora” organizam a mudança da esperança para a reação negativa.
  • Separe a fala da personagem da posição do narrador antes de atribuir ao autor uma avaliação.
  • Verifique se a alternativa acrescenta julgamentos, frequências ou generalizações sem apoio textual, como vaidade excessiva, controle diário ou impossibilidade.

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Comentários

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A alternativa correta é a B.

O autor descreve as reações das pessoas ao se pesarem:

Primeiro, sobem na balança com “expressão de esperança”.

Ao verem o peso, surge “dúvida e desespero”.

Depois, aparece “desconfiança, quando não de fúria”.

Em seguida, reclamam: “Balança de farmácia não presta!!”

obrigado

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