No sexto parágrafo, a analogia com o jogo de xadrez remete

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Q2465999 Português
A questão refere-se ao texto a seguir.

A fisiologia do corpo desempregado

Veny Santos

           Ao receber a notícia, colocou as mãos diante dos olhos, não tão próximas ao rosto, e esperou. Aos poucos, cobriu-se o corpo com a dormência da aurora no amanhecer de um dia já perdido. Estavam ambas petrificadas. As mãos, por anos encarregadas de trabalhar, agora eram observadas como se função não mais tivessem. Perderam o emprego. Anatomicamente as mesmas. Fisiologicamente desconhecidas.
         Quando passa muitos dos anos vividos em um trabalho, dedicando-se não apenas à sobrevivência mas também ao ofício que confere sentido às habilidades adquiridas, o corpo pode se confundir com o cargo. O conjunto de partes que monta o ser passa a estabelecer uma relação funcionalista com o cotidiano e seus vínculos empregatícios. Opera-se uma máquina, uma tecnologia, uma série de processos administrativos, um comércio, no intuito de sentir que ainda se está funcionando. Que ainda há alguma função. Que presta para algo —ou alguém— o funcionário.
         O desemprego vem, então, como a descaracterização do personagem trabalhador, aquele necessário de ser encenado todos os dias para que seja possível cultivar uma real vida fora da esfera profissional. Tal ruptura, para além das suas supostas bases técnicas e pragmáticas, como justificativas clichês para se dispensar alguém sem justa causa, quebra também o corpo, não só em partes, mas nas funções que cada uma delas parece ter para existir. Quebra-o por inteiro e o faz desconhecer a si enquanto capaz de manter o sustento no dia seguinte. Um corpo desconhecido. É o fim da sensação de utilidade e a causa de seu medo quase paralisante. Uma justa causa para tamanho temor, compreendemos.
        Começou ele pelas mãos, mas a tudo sentiu tremer. Os olhos tentavam enxergar saídas de emergência para a situação financeira. A boca seca não dizia, os ouvidos zuniam e voz nenhuma vinha para lhe confortar —o que ecoava em sua mente era a pergunta repetitiva, mania anunciada na mesma velocidade que o desligamento: "Como vou contar para a família e pagar as contas?". Peito mais subia que descia, e no descompasso do respiro, nenhum alívio. Crise disso, crise daquilo, ansiedade e angústia já não mais se distinguiam uma da outra. Acharam um ponto de convergência: a paúra. As pernas inquietas a balançar não sabiam para onde ir, por onde começar a procurar outro carreiro para recolocar o corpo nas trilhas de suas funções que garantiam o sustento.
       De que servia a língua agora? E os argumentos? De que servia sua realidade concreta, uma vez que era no abismo da abstração onde se findava o mais sólido dos fatos: sem dinheiro não se dura e duro não se vive. Ainda assim, é com a carne do pescoço rija que ele mira o nada e desenha no horizonte a imaginária linha reta que ilude ao promoter alguma direção e estabilidade. O zunido diminui. Passa a ganhar um ritmo lento, primeiro opressivo, depois desolador, triste. A cor escurecida de sua pele parece ser a única a não ter perdido a função junto com a demissão. Ao encobri-lo, cantou um blues.
       A depender das posições no tabuleiro do serviço, há quem jogue —por prazer ou horror— com os peões para não comprometer reis e rainhas. Pelas bordas, esmagam feito as torres, condenam como os bispos ou simplesmente saltam de oportunidade em oportunidade montados nos alazões a pisotear o que lhes obriga a fazer curva. Os peões, como se sabe, não jogam, de fato. Os peões são jogados.
        Em 2023, o Instituto Cactus lançou o iCASM (Índice Instituto Cactus — Atlas de Saúde Mental) no intuito de levantar dados sobre os diferentes aspectos da vida social que impactam na psique da população brasileira. Destacou-se um alerta sobre a condição das pessoas desempregadas. Estão elas entre as mais abaladas psicologicamente e, com isso, pode-se supor, suscetíveis às psicopatologias que crescem a cada ano no país.
      As mãos, ainda diante dos olhos, seguram-se. No toque, parecem lembrar para que servem. Recobram a função. As mãos servem para carregar o recomeço.

Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/>. Acesso em: 08 mar. 2024

No sexto parágrafo, a analogia com o jogo de xadrez remete


Alternativas

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Assunto central: Interpretação de Texto
No sexto parágrafo do texto, a questão cobra compreensão da analogia, uma figura de linguagem que, segundo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), estabelece uma relação de semelhança entre dois elementos distintos para facilitar a compreensão. Aqui, o autor compara trabalhadores desempregados a peões de xadrez.

Justificativa da alternativa correta (D): A alternativa D está certa porque o trecho “Os peões, como se sabe, não jogam, de fato. Os peões são jogados.” reforça a fragilidade dos peões (trabalhadores), que não decidem seus destinos, apenas são movidos e sacrificados no “tabuleiro” social. Portanto, a analogia destaca como a fragilidade social dos desempregados acentua os efeitos do desemprego, tornando-os vulneráveis e facilmente descartados. Este é o sentido global da analogia.

Análise das alternativas incorretas:

A) à rígida hierarquia social dominante nas relações de poder.
Embora haja hierarquia no xadrez, o texto não enfatiza a estrutura social rígida, mas a situação vulnerável dos peões.

B) à frieza que caracteriza as relações de poder na sociedade.
A frieza não é o foco do texto, que trata do sentimento de ser jogado, descartado e vulnerável, não da “frieza” nas relações de poder.

C) à racionalidade que envolve as pessoas afetadas pelo desemprego.
O texto não remete à racionalidade, mas expõe emoções e dificuldades dos trabalhadores, indicando desequilíbrio e angústia, não lógica racional.

Estrategicamente, para questões de interpretação onde há figuras de linguagem, procure identificar as palavras-chave e o objetivo da comparação. Aqui, “ser jogado” e “peão” sinalizam a falta de poder de decisão e a vulnerabilidade social. Fique atento a alternativas que desviam do foco emocional ou do contexto do trecho.

Conforme orienta Celso Cunha & Lindley Cintra, compreender bem figuras de linguagem é fundamental para a interpretação de textos, especialmente quando o sentido é implícito.

Resumo: No sexto parágrafo, a analogia com xadrez exemplifica a fragilidade social do desempregado, por isso a alternativa D é a correta.

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Comentários

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Eu confesso que fiquei em dúvidas entre a A e a D, e errei, mas, se eu olhasse para o texto no geral, corretamente marcaria a D. Porém, ele especificou o sexto parágrafo em si. A alternativa A é a que melhor se adequa ao foco principal do parágrafo em questão.

O sexto parágrafo do texto se concentra principalmente em descrever as relações de poder e hierarquia presentes no ambiente de trabalho e na sociedade, utilizando a analogia com o jogo de xadrez. O autor destaca como os diferentes cargos e posições sociais se relacionam e afetam uns aos outros, com ênfase na vulnerabilidade dos trabalhadores em posições inferiores (representados pelos peões).

Embora a fragilidade social seja um aspecto que pode ser inferido a partir da analogia, o foco principal do parágrafo está na representação da rígida estrutura hierárquica e nas relações de poder desiguais. O texto enfatiza como aqueles em posições superiores têm a capacidade de controlar e impactar a vida dos trabalhadores em cargos inferiores, retratando uma estrutura social estratificada e assimétrica.

Portanto, considerando o foco específico do sexto parágrafo e a ênfase dada pelo autor à hierarquia e às relações de poder, a alternativa A ("à rígida hierarquia social dominante nas relações de poder") é a que melhor responde à questão proposta, estando mais alinhada com a ideia central apresentada no trecho.

Mas queria ajuda para compreender melhor.

Entendo que a alternativa D extrapola.

A analogia com o jogo de xadrez no sexto parágrafo remete à alternativa (B). à frieza que caracteriza as relações de poder na sociedade.

No contexto do texto, a referência ao jogo de xadrez sugere uma metáfora para as relações de poder e estratégia presentes na sociedade. Assim como no xadrez, onde algumas peças são sacrificadas em prol de outras mais poderosas, o texto sugere que no mundo do trabalho as pessoas podem ser tratadas como peões, jogadas ou sacrificadas em função dos interesses das figuras de maior destaque e poder na hierarquia social. Isso reflete a frieza e a impessoalidade das relações de poder na sociedade contemporânea.

Eu marcaria qualquer outra, exceto a que a banca considerou como correta kkkk

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