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Q2465994 Português
A questão refere-se ao texto a seguir.

A fisiologia do corpo desempregado

Veny Santos

           Ao receber a notícia, colocou as mãos diante dos olhos, não tão próximas ao rosto, e esperou. Aos poucos, cobriu-se o corpo com a dormência da aurora no amanhecer de um dia já perdido. Estavam ambas petrificadas. As mãos, por anos encarregadas de trabalhar, agora eram observadas como se função não mais tivessem. Perderam o emprego. Anatomicamente as mesmas. Fisiologicamente desconhecidas.
         Quando passa muitos dos anos vividos em um trabalho, dedicando-se não apenas à sobrevivência mas também ao ofício que confere sentido às habilidades adquiridas, o corpo pode se confundir com o cargo. O conjunto de partes que monta o ser passa a estabelecer uma relação funcionalista com o cotidiano e seus vínculos empregatícios. Opera-se uma máquina, uma tecnologia, uma série de processos administrativos, um comércio, no intuito de sentir que ainda se está funcionando. Que ainda há alguma função. Que presta para algo —ou alguém— o funcionário.
         O desemprego vem, então, como a descaracterização do personagem trabalhador, aquele necessário de ser encenado todos os dias para que seja possível cultivar uma real vida fora da esfera profissional. Tal ruptura, para além das suas supostas bases técnicas e pragmáticas, como justificativas clichês para se dispensar alguém sem justa causa, quebra também o corpo, não só em partes, mas nas funções que cada uma delas parece ter para existir. Quebra-o por inteiro e o faz desconhecer a si enquanto capaz de manter o sustento no dia seguinte. Um corpo desconhecido. É o fim da sensação de utilidade e a causa de seu medo quase paralisante. Uma justa causa para tamanho temor, compreendemos.
        Começou ele pelas mãos, mas a tudo sentiu tremer. Os olhos tentavam enxergar saídas de emergência para a situação financeira. A boca seca não dizia, os ouvidos zuniam e voz nenhuma vinha para lhe confortar —o que ecoava em sua mente era a pergunta repetitiva, mania anunciada na mesma velocidade que o desligamento: "Como vou contar para a família e pagar as contas?". Peito mais subia que descia, e no descompasso do respiro, nenhum alívio. Crise disso, crise daquilo, ansiedade e angústia já não mais se distinguiam uma da outra. Acharam um ponto de convergência: a paúra. As pernas inquietas a balançar não sabiam para onde ir, por onde começar a procurar outro carreiro para recolocar o corpo nas trilhas de suas funções que garantiam o sustento.
       De que servia a língua agora? E os argumentos? De que servia sua realidade concreta, uma vez que era no abismo da abstração onde se findava o mais sólido dos fatos: sem dinheiro não se dura e duro não se vive. Ainda assim, é com a carne do pescoço rija que ele mira o nada e desenha no horizonte a imaginária linha reta que ilude ao promoter alguma direção e estabilidade. O zunido diminui. Passa a ganhar um ritmo lento, primeiro opressivo, depois desolador, triste. A cor escurecida de sua pele parece ser a única a não ter perdido a função junto com a demissão. Ao encobri-lo, cantou um blues.
       A depender das posições no tabuleiro do serviço, há quem jogue —por prazer ou horror— com os peões para não comprometer reis e rainhas. Pelas bordas, esmagam feito as torres, condenam como os bispos ou simplesmente saltam de oportunidade em oportunidade montados nos alazões a pisotear o que lhes obriga a fazer curva. Os peões, como se sabe, não jogam, de fato. Os peões são jogados.
        Em 2023, o Instituto Cactus lançou o iCASM (Índice Instituto Cactus — Atlas de Saúde Mental) no intuito de levantar dados sobre os diferentes aspectos da vida social que impactam na psique da população brasileira. Destacou-se um alerta sobre a condição das pessoas desempregadas. Estão elas entre as mais abaladas psicologicamente e, com isso, pode-se supor, suscetíveis às psicopatologias que crescem a cada ano no país.
      As mãos, ainda diante dos olhos, seguram-se. No toque, parecem lembrar para que servem. Recobram a função. As mãos servem para carregar o recomeço.

Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/>. Acesso em: 08 mar. 2024

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Comentário da Questão – Interpretação de Texto

Tema central: Esta questão avalia interpretação de texto, especificamente a habilidade de identificar a ideia principal e compreender o alcance dos efeitos do desemprego conforme descrito pelo autor.

Justificativa da alternativa correta:

Alternativa A) o desemprego afeta o ser humano em sua totalidade.

A alternativa A está correta porque, segundo o texto, os efeitos do desemprego transcendem o aspecto financeiro: atingem corpo (mãos, olhos, peito, pernas), mente (ansiedade, medo, angústia) e identidade (perda do personagem trabalhador, sensação de inutilidade). O próprio trecho “quebra também o corpo, não só em partes, mas nas funções que cada uma delas parece ter para existir. Quebra-o por inteiro” demonstra que os impactos são globais e integrados. Segundo Evanildo Bechara, compreender o sentido global do texto é identificar sua proposição maior, não detalhes isolados.

Análise das alternativas incorretas:

B) a sensação de inutilidade social favorece o desemprego.
Falsa relação de causa e efeito. O texto indica que a sensação de inutilidade é consequência, não causa do desemprego. Atenção a esse desvio!

C) o desemprego limita-se a questões técnicas e pragmáticas.
Errada. O texto afirma que o desemprego vai além de razões técnicas (“para além das suas supostas bases técnicas e pragmáticas...”), mostrando efeitos emocionais, físicos e sociais.

D) a fragilidade do corpo é uma consequência do desemprego.
Parcial. O texto menciona abalos físicos, mas ressalta que todo o ser é atingido – corpo, mente, sentimentos. A alternativa limita o escopo e não representa integralmente a mensagem principal.

Estratégias de prova: Busque sempre o sentido central do texto. Evite alternativas que generalizam causas, restringem consequências ou focam só em detalhes isolados. A compreensão global, conforme Bechara e Cunha & Cintra, é essencial para o êxito em provas de interpretação.

Resumo: O desemprego, segundo o texto, afeta o ser humano em sua totalidade, não se limitando a aspectos técnicos, corporais ou de utilidade social. Essa leitura do “todo” é o que garante o acerto na alternativa correta.

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Comentários

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De acordo com o texto, a alternativa correta é a A: o desemprego afeta o ser humano em sua totalidade.

O texto "A fisiologia do corpo desempregado" aborda de forma abrangente os diversos impactos do desemprego no indivíduo, destacando não apenas aspectos financeiros ou práticos, mas também as consequências psicológicas, identitárias e sociais.

Alguns trechos do texto que sustentam essa interpretação:

1. "O conjunto de partes que monta o ser passa a estabelecer uma relação funcionalista com o cotidiano e seus vínculos empregatícios." - Isso sugere que o trabalho se torna parte integrante da identidade do indivíduo.

2. "O desemprego vem, então, como a descaracterização do personagem trabalhador, aquele necessário de ser encenado todos os dias para que seja possível cultivar uma real vida fora da esfera profissional." - A perda do emprego é vista como uma ruptura na identidade do indivíduo.

3. "Tal ruptura, para além das suas supostas bases técnicas e pragmáticas, como justificativas clichês para se dispensar alguém sem justa causa, quebra também o corpo, não só em partes, mas nas funções que cada uma delas parece ter para existir." - O desemprego afeta o indivíduo além das questões práticas, impactando sua percepção de si mesmo e suas funções.

4. "Destacou-se um alerta sobre a condição das pessoas desempregadas. Estão elas entre as mais abaladas psicologicamente e, com isso, pode-se supor, suscetíveis às psicopatologias que crescem a cada ano no país." - O texto ressalta o impacto psicológico do desemprego e sua relação com problemas de saúde mental.

As demais alternativas não encontram respaldo no texto:

- A alternativa B não procede, pois o texto sugere o contrário: é o desemprego que causa a sensação de inutilidade, como pode ser visto no trecho "É o fim da sensação de utilidade e a causa de seu medo quase paralisante."

- A alternativa C é explicitamente refutada pelo texto, que afirma que o desemprego vai além das questões técnicas e pragmáticas.

- A alternativa D, embora encontre algum suporte nos sintomas físicos descritos, não é a mais adequada, pois o texto enfatiza principalmente os aspectos psicológicos, identitários e sociais do desemprego.

Portanto, a alternativa A é a que melhor sintetiza a visão apresentada no texto sobre o impacto global do desemprego no ser humano.

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