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Ano: 2026
Banca:
Nosso Rumo
Órgão:
Prefeitura de Itanhaém - SP
Prova:
Nosso Rumo - 2026 - Prefeitura de Itanhaém - SP - Professor Substituto I - Creche |
Q4382959
Português
Texto associado
Leia o texto abaixo para responder à questão.
A escrava
Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas
distintas, e bem colocadas na sociedade, e depois de versar a
conversação sobre diversos assuntos mais ou menos
interessantes, recaiu sobre o elemento servil.
O assunto era por sem dúvida de alta importância. A
conversação era geral; as opiniões, porém, divergiam. Começou
a discussão.
— Admira-me — disse uma senhora de sentimentos
sinceramente abolicionistas —, faz-me até pasmar como se
possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no
presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral
cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que
envenena a família no mais sagrado santuário seu, e
desmoraliza, e avilta a nação inteira!
Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da
sociedade, e dizei-me:
— Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali
exalou seu derradeiro alento? Ah! Então não é verdade que seu
sangue era o resgate do homem! É então uma mentira
abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois,
olhai a sociedade... Não vedes o abutre que a corrói
constantemente!... Não sentis a desmoralização que a enerva, o
cancro que a destrói?
Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e
será sempre um grande mal. Dela a decadência do comércio;
porque o comércio e a lavoura caminham de mãos dadas, e o
escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho
é forçado. Ele não tem futuro; o seu trabalho não é indenizado;
ainda dela nos vem o opróbrio, a vergonha; porque de fronte
altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres;
por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das
raças, estampa-se na fronte de todos nós. Embalde procurará um
dentre nós, convencer ao estrangeiro que em suas veias não gira
uma só gota de sangue escravo...
E depois, o caráter que nos imprime e nos envergonha!
O escravo é olhado por todos como vítima — e o é.
O senhor, que papel representa na opinião social?
O senhor é o verdugo — e esta qualificação é hedionda.
Eu vou narrar-vos, se me quiserdes prestar atenção, um
fato que ultimamente se deu. Poderia citar-vos uma infinidade
deles; mas este basta, para provar o que acabo de dizer sobre o
algoz e a vítima.
E ela começou:
— Era uma tarde de agosto, bela como um ideal de mulher,
poética como um suspiro de virgem, melancólica e suave como
sons longínquos de um alaúde misterioso.
Eu cismava, embevecida na beleza natural das alterosas
palmeiras que se curvaram gemebundas, ao sopro do vento, que
gemia na costa.
E o sol, dardejando seus raios multicores, pendia para o
ocaso em rápida carreira.
Não sei que sensações desconhecidas me agitavam, não
sei!... Mas sentia-me com disposições para o pranto.
De repente uns gritos lastimosos, uns soluços angustiados
feriram-me os ouvidos, e uma mulher correndo, e em completo
desalinho, passou por diante de mim, e como uma sombra
desapareceu.
Segui-a com a vista. Ela espavorida, e trêmula, deu volta
em torno de uma grande moita de murta, e colando-se no chão
nela se ocultou.
Surpresa com a aparição daquela mulher, que parecia
foragida, daquela mulher que um minuto antes quebrara a solidão
com seus ais lamentosos, com gemidos magoados, com gritos
de suprema angústia, permaneci com a vista alongada e o olhar
fixo, no lugar que a vi ocultar-se.
Ela muda, e imóvel, ali quedou-se.
Eu então a mim mesma, interroguei:
— Quem será a desditosa?
Ia procurá-la — coitada! Uma palavra de animação, um
socorro, algum serviço, lembrei-me, poderia prestar-lhe. Erguime.
Mas, no momento mesmo em que este pensamento, que
acode a todo homem em idênticas circunstâncias, se me
despertava, um homem apareceu no extremo oposto do
caminho.
Era ele de cor parda, de estatura elevada, largas espáduas,
cabelos negros, e anelados.
Fisionomia sinistra era a desse homem, que brandia,
brutalmente, na mão direita um azorrague repugnante; e da
esquerda deixava pender uma delgada corda de linho.
— Inferno! Maldição! — bradara ele com voz rouca. —
Onde estará ela? — e perscrutava com a vista por entre os
arvoredos desiguais que desfilavam à margem da estrada.
— Tu me pagarás — resmungava ele. — E aproximando-se de mim:
Não viu, minha senhora — interrogou com acento, cuja
dureza procurava reprimir —, não viu por aqui passar uma negra,
que me fugiu das mãos ainda há pouco? Uma negra que se finge doida... Tenho as calças rotas de correr atrás dela por estas
brenhas. Já não tenho fôlego.
Aquele homem de aspecto feroz era o algoz daquela pobre
vítima, compreendi com horror. De pronto, tive um expediente:
— Vi-a — tornei-lhe com a naturalidade que o caso exigia
—, vi-a, e ela também me viu, corria em direção a este lugar; mas,
parecendo intimidar-se com minha presença, tomou direção
oposta, volvendo-se repentinamente sobre seus passos. Por fim,
vi-a desaparecer, internando-se na espessura, muito além da
senda que ali se abre.
E, dizendo isto, indiquei-lhe com um aceno a senda que
ficava a mais de cem passos de distância, aquém do morro em
que me achava.
Minhas palavras inexatas, o ardiu de que me servi, visavam
a fazê-lo retroceder: logrei o meu intento.
REIS, Maria Firmina dos. A escrava. 2. ed. Brasília: Edições Câmara, 2019.
Adaptado.
Leia o trecho abaixo, retirado do texto, para responder à questão.
“E depois, olhai a sociedade... Não vedes o abutre que a corrói constantemente!...”
De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa e considerando o contexto do excerto, os verbos em destaque estão conjugados, respectivamente, no
“E depois, olhai a sociedade... Não vedes o abutre que a corrói constantemente!...”
De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa e considerando o contexto do excerto, os verbos em destaque estão conjugados, respectivamente, no