Assinale a alternativa correta quanto à figura de linguagem:

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Q3770513 Português
Texto 5


A menina que falava internetês


A mãe gostava de acreditar-se moderna. Do figurino à linguagem, esforçava-se para estar sempre up-to-date com as últimas tendências da moda. Seus objetivos eram claros: criar uma imagem de mulher mais jovem e fazer bonito para os filhos, os reis da tecnologia doméstica, que dominavam tudo na casa, dos controles remotos dos aparelhos eletrônicos aos computadores e laptops. Foi o propósito de não perder o bonde da história que levou Wanda a comprar um computador pessoal, assinar um provedor de acesso e começar a navegar pela internet. Nada poderia detê-la rumo à modernidade!

Depois de alguns dias, navegando em seu trabalho, encontrou sua filha pré-adolescente on-line. Não resistiu à tentação e iniciou uma conversa através de um programa de mensagens instantâneas. 

— Olá, filha, aqui é a sua mãe, navegando pela internet… Tudo bem com você, querida?

— blz.

— Como? Não entendi, filhinha. Seu teclado está com algum problema nas vogais?

— naum.

— Vejo que não é este o problema, já que você digitou duas vogais agora mesmo! Mas pode ser um defeito nas teclas de acentuação. Por favor, filha, teste o ‘til’.

— q tio?

— Não, não o tio, o til. O til é o irmão do papai, o tio Bruno. O til é aquele acento do não, do anão, da mamãe… Lembra quando a mamãe ensinou a você que o til parecia uma minhoquinha?

— nem

— Nem? Como assim, ‘nem’? Nem no sentido de conjunção coordenativa aditiva como “não lembro nem quero lembrar”? Ou seria “nem” como conjunção coordenativa alternativa, como em “não me lembro e nem parece uma minhoquinha”?

— ;-(

— Que foi isso, filhota?

— naum quero + tc com vc

— Você… não quer mais tecer comigo?

— teclar

— Assim mamãe fica triste, lindinha. Eu só queria conversar, puxar algum assunto. Mas está difícil. Eu não entendo o que você escreve e você não se interessa pelo que eu digito. Realmente, meu bem, parece que não é possível estabelecer um diálogo com você. Tudo bem, se eu tiver incomodando, eu paro agora mesmo.

— tá

— Antes de ir pra casa eu vou passar no supermercado. O que você quer que eu compre para… para… para vc? É assim que se diz em internetês?

— refri e bisc8

— Refrigerante e biscoito? Biscoito? Filha, francamente, que linguagem é essa? Você estuda no melhor colégio, seu pai paga uma mensalidade altíssima e você escreve assim na internet? Sem vogais, sem acentos, sem completar as palavras, sem usar maiúsculas no início de uma frase, com orações sem nexo e ainda por cima usando números no lugar das sílabas? Isso é inadmissível, Maria Eugênia!

— Xau, mãe, c ta xata.

— Maria Eugênia! Chata é com ch!

— Maria Eugênia?

— Desligou. Bem, pelo menos a tecla til está em ordem.


HERMANN, Rosana. A menina que falava internetês. In: CAMPOS, Carmen Lúcia da Silva; SILVA, Nilson Joaquim da. Lições de gramática para quem gosta de literatura. São Paulo: Panda Books, 2007.
Assinale a alternativa correta quanto à figura de linguagem:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Figuras de linguagem, mais especificamente identificação e compreensão da ironia em contextos textuais, além da análise crítica de outras figuras como hipérbole, antítese, metonímia e pleonasmo. O domínio dessas categorias é essencial para interpretar textos literários e não literários com profundidade, competência cobrada para cargos de Professor.

Justificativa da alternativa correta (D): A ironia ocorre quando se exprime o oposto do que se quer comunicar, geralmente com sarcasmo ou crítica. No trecho “Bem, pelo menos a tecla til está em ordem”, a mãe usa a ironia para relativizar uma situação problemática (a dificuldade de comunicação com a filha devido ao “internetês”) ao destacar algo insignificante (o funcionamento do til). Pelo contexto, entende-se que o funcionamento da tecla é irrelevante diante do impasse comunicativo, caracterizando ironia, conforme explicitado em Bechara (Moderna Gramática Portuguesa): “A ironia manifesta-se quando o texto diz o contrário do que realmente se quer comunicar”.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Navegando pela internet” – Não é hipérbole: trata-se de expressão figurada comum (“navegar” = acessar), sem exagero ou intensificação.

B) “Os reis da tecnologia doméstica” – Não é antítese: aqui temos uma metáfora, pois “reis” indica domínio, e não oposição de ideias.

C) “Eu não entendo o que você escreve e você não se interessa pelo que eu digito” – Não há metonímia: não ocorre troca de termos por relação de proximidade; o trecho apenas representa sentimentos de incompreensão.

E) “Nada poderia detê-la rumo à modernidade” – Não há pleonasmo: não existe redundância linguística para reforço de significado.

Estratégia para provas: Leia os enunciados atentamente, buscando compreendê-los no contexto! Identifique sempre a intenção do autor: ironias geralmente se revelam por meio de contrastes entre o dito e o subentendido. Pegadinhas comuns: confundir metáforas com outras figuras; atenção aos verbos e relações semânticas! Segundo Cunha & Cintra, “figuras de linguagem exigem interpretação crítica e contextualizada”.

Resumo: Alternativa correta: D) Ironia. O domínio da compreensão de figuras de linguagem é fundamental para o sucesso na prova e para a análise crítica de textos em contextos pedagógicos.

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A alternativa correta é a D

D. "Bem, pelo menos a tecla til está em ordem" – ironia.

Explicação:

A ironia ocorre quando se expressa uma ideia com palavras que, na verdade, pretendem dizer o contrário do que significam literalmente, geralmente com um tom de sarcasmo ou humor. No contexto de uma comunicação que provavelmente tem vários problemas ou ruídos (como sugere a menção a "internetês" no texto original da questão), dizer que "pelo menos a tecla til está em ordem" minimiza sarcasticamente os problemas ou destaca um detalhe trivial em meio a falhas maiores, criando o efeito irônico.

Análise das outras alternativas:

A. "Navegando pela internet" – hipérbole: Incorreto. "Navegando pela internet" é uma expressão comum, um tipo de metáfora de uso corrente (um jargão), não um exagero (hipérbole).

B. "Os reis da tecnologia doméstica" – antítese: Incorreto. A frase é uma metáfora (ou comparação implícita) que atribui grande domínio aos indivíduos sobre a tecnologia, não a justaposição de termos de sentidos opostos (antítese).

C. "Eu não entendo o que você escreve e você não se interessa pelo que eu digito" – metonímia: Incorreto. A frase descreve um problema de comunicação e desinteresse mútuo, não a substituição de um termo por outro (metonímia).

E. "Nada poderia detê-la rumo à modernidade" – pleonasmo: Incorreto. Não há repetição de ideias na frase. A frase é uma afirmação que usa uma hipérbole (exagero) para enfatizar o avanço.

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