Uma importância fulcral da obra literária em sala de aula é...
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Ano: 2026
Banca:
ISET
Órgão:
Prefeitura de Lajedinho - BA
Prova:
ISET - 2026 - Prefeitura de Lajedinho - BA - Professor de Ensino Fundamental II - Língua Portuguesa e Literatura |
Q4339107
Literatura
Texto associado
O texto I abaixo serve de base de análise para a questão.
TEXTO I
Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus
irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frangod'Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas,
em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covoão em trecho de matas, terra preta, pé de serra.
Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído
dali, pela primeira vez: o Tio Terêz levou-o a cavalo, à frente da
sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava.
Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças,
embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se
esquecer: alguém, que já estivera no Mutum, tinha dito: "É um
lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito
mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre..."
Mas sua mãe, que era linda e com cabelos pretos e
compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se,
principalmente nos demorados meses chuvosos, quando
carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era
mais escuro; ou, mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha,
na hora do sol entrar. — "Oê, ah, o triste recanto..." — ela
exclamava. Mesmo assim, enquanto esteve fora, só com o tio
Terêz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que
às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado.
Quando voltou para casa, seu maior pensamento era que
tinha a boa notícia para dar à mãe: o que o homem tinha falado
— que o Mutum era lugar bonito... A mãe, quando ouvisse essa
certeza, havia de se alegrar, ficava consolada. Era um presente;
e a ideia de poder trazê-lo desse jeito de cor, como uma
salvação, deixava-o febril até nas pernas. Tão grave, grande,
que nem o quis dizer à mãe na presença dos outros, mas
insofria por ter de esperar; e, assim que pôde estar com ela só,
abraçou-se a seu pescoço e contou-lhe, estremecido, aquela
revelação. A mãe não lhe deu valor nenhum, mas mirou triste e
apontou o morro; dizia:
— Estou sempre pensando que lá por detrás dele acontecem
outras coisas, que o morro está tapando de mim, e que eu
nunca hei de poder ver...
Era a primeira vez que a mãe falava com ele um assunto todo
sério. No fundo de seu coração, ele não podia, porém,
concordar, por mais que gostasse dela: e achava que o moço
que tinha falado aquilo era que estava com a razão. [...]
De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um
senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a
bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de
óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
— Deus te abençoe, pequenino. Como é teu nome?
— Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
— E seu irmão Dito é o dono daqui?
— Não, meu senhor. O Ditinho está em glória. O homem
esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo,
formoso como nenhum outro. Redizia:
— Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas,
que é que há, Miguilim?
Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para
ele, por isso é que o encarava.
— Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de
vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
— É Mãe, e os meninos...
Estava Mãe, estava Tio Terêz, estavam todos. O senhor alto
e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada.
O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois
perguntava a ele mesmo:
— Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está
enxergando? E agora?
Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam.
Tomezinho tinha ido se esconder.
— Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí,
Miguilim...
E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo
o jeito.
— Olha, agora!
Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma
claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores,
as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da
terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no
chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta
coisa, tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim
ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha
visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que
aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de
usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era
o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de
Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar
à Rosa, à Maria Pretinha, a Mãitina. A Chica veio correndo
atrás, mexeu:
— Miguilim, você é piticego... E ele respondeu:
— Donazinha... Quando voltou, o doutor José Lourenço já
tinha ido embora. [...]
Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas
reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes
demais.
— Pra onde ele foi?
— A foi p´ra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas
amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s´embora para a
cidade. Disse que, você querendo. Miguilim, ele junto te leva...
O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele
comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois
aprendia ofício. Você mesmo quer ir?
Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma,
até ao fundo, se esfriava. Mas Mãe disse:
— Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve
poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem
também. Um dia todos se encontram...
E Mãe foi arrumar a roupinha dele. A Rosa matava galinha,
para pôr na capanga, com farofa. Miguilim ia no cavalo
Diamante — depois era vendido lá na cidade, o dinheiro ficava
pra ele.
— Mãe, é o mar? Ou é para a banda do Pau-Roxo, Mãe? É
muito longe?
— Mais longe é, meu filhinho. Mas é do lado do Pau-Roxo
não. É o contrário... A Mãe suspirava suave.
— Mãe, mas por que é, então, para que é, que aconteceu
tudo?!
— Miguilim, me abraça, meu filhinho, que eu tenho tanto
amor... [...] O doutor chegou.
— Miguilim, você está aprontado? Está animoso? Miguilim
abraçava todos, um por um, dizia adeus até aos cachorros, ao
Papaco-o-Paco, ao gato Sossõe que lambia as mãozinhas se
asseando. Beijou a mão da mãe do Grivo.
— Dá lembrança a seo Aristeu... Dá lembrança a seo
Deográcias... Estava abraçado com Mãe. Podiam sair. Mas,
então, de repente, Miguilim parou em frente do doutor. Todo
tremia, quase sem coragem de dizer o que tinha vontade. Por
fim, disse. Pediu. O doutor entendeu e achou graça. Tirou os
óculos, pôs na cara de Miguilim. E Miguilim olhou para todos,
com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima
do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o
céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da
manhã. Olhou, mais longe, o gado pastando perto do brejo,
florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis, na
primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia. Olhou
Mãitina, que gostava de o ver de óculos, batia palmas-de-mão
e gritava:
— Cena, Corinta!... Olhou o redondo de pedrinhas, debaixo
do jenipapeiro. Olhava mais era para Mãe. Drelina era bonita, a
Chica, Tomezinho. Sorriu para Tio Terêz:
— Tio Terêz, o senhor parece com o Pai... Todos choravam.
O doutor limpou a goela, disse:
— Não sei, quando eu tiro esses óculos, tão fortes, até meus
olhos se enchem d´água...
Miguilim entregou a ele os óculos outra vez. Um soluçozinho
veio. Sempre alegre, Miguilim... Sempre alegre, Miguilim... Nem
sabia o que era alegria e tristeza. Mãe o beijava. A Rosa punhalhe doces-de-leite nas algibeiras, para a viagem. Papaco-oPaco falava, alto, falava.
ROSA, Guimarães. Campo Geral. Adaptado.
Uma importância fulcral da obra literária em sala de aula
é a observação de modelos sociais às vezes compatíveis
com a realidade dos alunos a fim de despertar nestes a
curiosidade linguística e criativa para a importância da
leitura nas suas vidas. Sobre isso, pode-se constatar que a
obra Campo Geral, de Guimarães Rosa, serve como
exemplo de um certo contexto ao evidenciar: