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Q3106614 Português
Dom Quixote



       Com suas voltas e reviravoltas, as aventuras de Dom Quixote traçam o limite: nelas terminam os jogos antigos da semelhança e dos signos; nelas já se travam novas relações. Dom Quixote não é o homem da extravagância, mas antes o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude. Ele é o herói do Mesmo. Assim como de sua estreita província, não chega a afastar-se da planície familiar que se estende em torno do Análogo. Percorre-a indefinidamente, sem transpor jamais as fronteiras nítidas da diferença, nem alcançar o coração da identidade. Ora, ele próprio é semelhante a signos. Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros.

       Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. É feito de palavras entrecruzadas; é escrita errante no mundo em meio à semelhança das coisas. Não porém inteiramente: pois, em sua realidade de pobre fidalgo, só pode tornar-se cavaleiro, escutando de longe a epopeia secular que formula a Lei.

      O livro é menos sua existência que seu dever. Deve incessantemente consultá-lo, a fim de saber o que fazer e dizer, e quais signos dar a si próprio e aos outros para mostrar que ele é realmente da mesma natureza que o texto donde saiu. Os romances de cavalaria escreveram de uma vez por todas a prescrição de sua aventura. E cada episódio, cada decisão, cada façanha serão signos de que Dom Quixote é de fato semelhante a todos esses signos que ele decalcou.

     Mas se ele quer ser-lhes semelhante é porque deve prová-los, é porque os signos (legíveis) já não são semelhantes a seres (visíveis). Todos esses textos escritos, todos esses romances extravagantes são justamente incomparáveis: nada no mundo jamais se lhes assemelhou; sua linguagem infinita fica em suspenso, sem que qualquer similitude venha jamais preenchê-la; podem ser queimados todos e inteiramente, mas a figura do mundo não será por isso alterada.

     Assemelhando-se aos textos de que é o testemunho, o representante, o real análogo, Dom Quixote deve fornecer a demonstração e trazer a marca indubitável de que eles dizem a verdade, de que são realmente a linguagem do mundo. Compete-lhe preencher a promessa dos livros. Cabe-lhes refazer a epopeia, mas em sentido inverso: esta narrava (pretendia narrar) façanhas reais prometidas à memória; já Dom Quixote deve preencher com realidade os signos sem conteúdo da narrativa.

        Sua aventura será uma decifração do mundo: um percurso minucioso para recolher em toda a superfície da terra as figuras que mostram que os livros dizem a verdade.

      A façanha deve ser prova: consiste não em triunfar realmente - é por isso que a vitória não importa no fundo -, mas em transformar a realidade em signo. Em signo de que os signos da linguagem são realmente conformes às próprias coisas.

      Dom Quixote lê o mundo para demonstrar os livros. E não concede a si outras provas senão o espelhamento das semelhanças. Seu caminho todo é uma busca das similitudes: as menores analogias são solicitadas como signos adormecidos que cumprisse despertar para que se pusessem de novo a falar. Os rebanhos, as criadas, as estalagens tornam a ser a linguagem dos livros, na medida imperceptível em que se assemelham aos castelos, às damas e aos exércitos. Semelhança sempre frustrada, que transforma a prova buscada em irrisão e deixa indefinidamente vazia a palavra dos livros. Mas a própria não-similitude tem seu modelo que ela imita servilmente: encontra-o na metamorfose dos encantadores.

      De sorte que todos os indícios da não-semelhança, todos os signos que mostram que os textos escritos não dizem a verdade assemelham-se a esse jogo de enfeitiçamento que introduz, por ardil, a diferença no indubitável da similitude.

     E, como essa magia foi prevista e descrita nos livros, a diferença ilusória que ela introduz nunca será mais que uma similitude encantada. Um signo suplementar, portanto, de que os signos realmente se assemelham à verdade.


Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.
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Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de Texto. Esta questão exige a leitura atenta do texto de Michel Foucault e a compreensão de como se constrói a relação entre Dom Quixote e os signos (especialmente os elementos da linguagem, das letras e dos romances de cavalaria).

Justificativa para a alternativa correta (A):

O texto faz comparação direta entre a figura física de Dom Quixote e os signos escritos, especialmente quando o descreve como: “Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros.” Ou seja, o autor compara explicitamente Dom Quixote a um símbolo, uma letra que compõe a escrita das histórias.

Pela norma-padrão na interpretação de texto, buscamos palavras-chave e relações explícitas. Aqui, o termo “comparação” se materializa pela utilização da própria metáfora visual e descritiva (conforme orienta Celso Cunha & Lindley Cintra, a metáfora cria um elo semântico de sentido).

Por que as demais alternativas estão incorretas?

  • B: Foucault não aborda nem insinua questões clínicas/mentais (como “esquizofrenia”). Ele discute a relação com os signos, não a saúde mental do personagem.
  • C: Embora haja uso de metáfora, o texto não transforma Dom Quixote em metáfora do signo linguístico; ele compara e associa, mas não “prova” isso de modo literal.
  • D: O texto mostra, ao contrário, que as viagens de Dom Quixote são impulsionadas justamente pelo livro de cavalaria, não são criações isoladas de sua imaginação.
  • E: O contrário do que diz: Foucault faz sim essa comparação entre a figura magra de Dom Quixote e as letras/signos.

Estratégias importantes para novas questões:

1. Fique atento a termos como “comparar”, “provar”, “demonstrar”, pois exigem identificação de relações explícitas ou implícitas no texto.

2. Procure sempre por trechos que literalmente sustentam a alternativa, principalmente em questões de interpretação.

Resumo Final: A alternativa A é a correta porque se fundamenta em trecho explícito do texto que compara Dom Quixote aos signos e à própria escrita dos romances de cavalaria, alinhando-se à coerência textual exigida nas provas.

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