A autora discorda da afirmação de que boa parte da humanidad...

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Q39579 Português
A arte de não fazer nada

Dizem-me que mais da metade da humanidade se
dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e
provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco
dessa afirmativa. Não existe tal quantidade de gente
completamente inativa: o que acontece é estar essa gente
interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem
consequências úteis para o resto do mundo.

Aqui me encontro num excelente posto de observação: o
lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes
vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece
não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está
acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode
estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer
alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.

E não posso dizer que não estejam fazendo nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.

Há homens longamente parados a olhar os patos na
água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixam
ficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidos
àquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estão
recebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino de
navegar com remos próprios, dessa obediência de seguirem
todos juntos, enfileirados, para a noite que conhecem, no
pequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalho
interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados,
à beira de um lago tranquilo. De muitas experiências
contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não
sabemos ? nem eles mesmos sabem ? se este homem não vai
aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto,
como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada.

(Cecília Meireles, O que se diz e o que se entende)

A autora discorda da afirmação de que boa parte da humanidade pratica a arte de não fazer nada porque julga que
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-textual: a autora nega que a aparente inatividade signifique ausência real de ação. Isso está explicitado em: “Não existe tal quantidade de gente completamente inativa: o que acontece é estar essa gente interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem consequências úteis para o resto do mundo.” Assim, o gabarito é C, porque a alternativa parafraseia a ideia de que há formas de fazer algo que não se mostram como consequências úteis ou visíveis para terceiros.

Tema central: aparência de inatividade
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque o texto não trata de “trabalho convencional” nem de falta de reconhecimento desse tipo de trabalho. O foco recai sobre atividades pessoais, interiores ou contemplativas. Trocar “fazer alguma coisa” por “trabalho convencional” é extrapolar o sentido do texto.
B
Errada
Incorreta porque contradiz a tese textual. A autora não diz que o trabalho só deve ser avaliado pela utilidade social; ao contrário, ela mostra que pode haver atividade significativa mesmo “sem consequências úteis para o resto do mundo”. O advérbio “só” torna a alternativa incompatível com o texto.
C
Certa
A alternativa C está correta porque traduz fielmente a tese do texto: há modos de fazer algo que não se mostram exteriormente como ações produtivas ou socialmente consequentes. A autora afirma que quem parece não estar fazendo nada pode estar “vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer alguma coisa” e pode realizar “um grande trabalho interior”. Portanto, o ponto não é ausência de ação, mas ação sem consequência útil ou visível para o resto do mundo.
D
Errada
Incorreta porque introduz uma relação causal inexistente no texto: repouso máximo gerando produtividade máxima. O texto valoriza contemplação e atividade interior, mas não formula nenhuma tese sobre produtividade.
E
Errada
Incorreta porque atribui ao texto uma discussão histórica ou sociológica que ele não faz. Não há referência a vida moderna nem a mudança do conceito de trabalho; há apenas a distinção entre inatividade aparente e atividade interior real.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre “fazer alguma coisa” e trabalho produtivo ou socialmente útil. O texto separa utilidade externa de existência real de atividade.
Dica para questões semelhantes
  • Localize a frase em que o autor enuncia a própria tese e procure a alternativa que a parafraseia sem ampliar o tema.
  • Desconfie de opções que trocam atividade interior ou pessoal por trabalho profissional, produtividade ou reconhecimento social.
  • Quando o texto opõe aparência e realidade, elimine alternativas que se baseiam apenas no que parece ocorrer externamente.

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