A narradora é de opinião de que
Leia o texto para responder à questão.
Tempo do castigo
Quando eu era criança, ficava de castigo e ia para o quarto pensar. Perguntava quanto tempo e contava os segundos para sair. Até hoje acho essa punição interessante: “Pense no que você fez para conversarmos”. Mas, para ser boa, essa punição precisa ter um tempo combinado. O tempo, na época, me parecia justo por ser proporcional ao erro e ao amor de minha mãe por mim. Eu sabia que ela me amava, sabia que ia ficar um tempo ali e sabia que ia sair e poder falar com ela. Era um acordo.
Hoje temos um jeito adulto de punir: bloquear a pessoa no WhatsApp. Bloquear alguém que se ama é como colocar de castigo. “Você fez algo que não gostei, preciso de um tempo.” E aí vem o importante: quanto tempo é esse tempo? O tempo que pode ser o remédio que cura a relação ou o remédio que vira veneno.
O tempo de castigo era válido quando não trazia mágoa. Quando servia apenas para acalmar os ânimos. Quando era um tempo com a intenção velada da paz.
Quando se diz o que se quer nessa nova interação virtual e se bloqueia sem deixar que o outro responda, coloca-se o outro em um castigo cheio de angústia. E, na espera sem saber o tempo, a mágoa cresce, os argumentos perdem sentido.
Bloquear pode ser usado como um respiro para avançarmos, mas nunca como forma de evitar conversas difíceis, que são justamente as que permitem o amadurecimento que vem dos relacionamentos. As relações avançam nas discussões. O castigo da minha mãe sempre me trouxe uma oportunidade de uma relação mais próxima com ela, entendendo meus erros, e isso me trazia um profundo alívio.
(Alice Ferraz. O Estado de S. Paulo, 6 de dezembro de 2025. Adaptado)
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Gabarito comentado
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Gabarito: E
Fundamento decisivo: A oposição entre pausa com duração conhecida e espera indefinida é decisiva: “Mas, para ser boa, essa punição precisa ter um tempo combinado.” Em conjunto com a rejeição do bloqueio como fuga das conversas difíceis, esse critério favorece E.
- Reúna as condições distribuídas pelo texto: aqui, a duração combinada e a discussão das divergências precisam ser consideradas juntas.
- Observe restrições como “mas nunca”: elas delimitam o que a narradora aceita e o que rejeita.
- Confira se a alternativa preserva as relações de sentido: o crescimento da mágoa prejudica a relação; sua ausência não é apresentada como destrutiva.
- Distinga possibilidade de garantia: admitir que conflitos podem ser superados não significa assegurar a preservação de qualquer relacionamento.
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Comentários
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A alternativa correta é a E: os desentendimentos dos adultos podem ser superados, desde que se saiba o tempo de castigo e que as divergências sejam discutidas.
- A (Incorreta): A narradora aproxima e compara as duas formas de castigo (infantil e adulto/virtual), mostrando que ambas têm a função de "dar um tempo" ou esfriar os ânimos, dependendo diretamente da definição prévia do tempo e da intenção de buscar a paz/diálogo.
- B (Incorreta): Pelo contrário, o texto afirma no 1º parágrafo: "O tempo, na época, me parecia justo por ser proporcional ao erro e ao amor de minha mãe por mim."
- C (Incorreta): No 5º parágrafo, a autora enfatiza que bloquear não deve ser usado como forma de "evitar conversas difíceis, que são justamente as que permitem o amadurecimento que vem dos relacionamentos." As conversas/discussões são cruciais para que o relacionamento avance.
- D (Incorreta): O texto mostra que a mágoa cresce quando o tempo é indefinido e quando não há diálogo, e não quando a mágoa é deixada de lado.
- E (Correta): Sintetiza a tese central do texto: o tempo de afastamento precisa ter um prazo conhecido/combinado para não virar veneno ou gerar mágoa (2º e 4º parágrafos), e as divergências/conversas difíceis precisam ser discutidas para permitir o avanço e amadurecimento da relação (5º parágrafo).
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