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Q4380387 Português

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Tempo do castigo


    Quando eu era criança, ficava de castigo e ia para o quarto pensar. Perguntava quanto tempo e contava os segundos para sair. Até hoje acho essa punição interessante: “Pense no que você fez para conversarmos”. Mas, para ser boa, essa punição precisa ter um tempo combinado. O tempo, na época, me parecia justo por ser proporcional ao erro e ao amor de minha mãe por mim. Eu sabia que ela me amava, sabia que ia ficar um tempo ali e sabia que ia sair e poder falar com ela. Era um acordo.


    Hoje temos um jeito adulto de punir: bloquear a pessoa no WhatsApp. Bloquear alguém que se ama é como colocar de castigo. “Você fez algo que não gostei, preciso de um tempo.” E aí vem o importante: quanto tempo é esse tempo? O tempo que pode ser o remédio que cura a relação ou o remédio que vira veneno.


    O tempo de castigo era válido quando não trazia mágoa. Quando servia apenas para acalmar os ânimos. Quando era um tempo com a intenção velada da paz.


    Quando se diz o que se quer nessa nova interação virtual e se bloqueia sem deixar que o outro responda, coloca-se o outro em um castigo cheio de angústia. E, na espera sem saber o tempo, a mágoa cresce, os argumentos perdem sentido.


    Bloquear pode ser usado como um respiro para avançarmos, mas nunca como forma de evitar conversas difíceis, que são justamente as que permitem o amadurecimento que vem dos relacionamentos. As relações avançam nas discussões. O castigo da minha mãe sempre me trouxe uma oportunidade de uma relação mais próxima com ela, entendendo meus erros, e isso me trazia um profundo alívio.


(Alice Ferraz. O Estado de S. Paulo, 6 de dezembro de 2025. Adaptado)



A narradora é de opinião de que
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A oposição entre pausa com duração conhecida e espera indefinida é decisiva: “Mas, para ser boa, essa punição precisa ter um tempo combinado.” Em conjunto com a rejeição do bloqueio como fuga das conversas difíceis, esse critério favorece E.

Tema central: Pausa e diálogo nos relacionamentos
Análise das alternativas
A
Errada
O texto aproxima as funções das duas práticas ao afirmar: “Bloquear alguém que se ama é como colocar de castigo.” Além disso, a expressão “independentemente do tempo de duração” contraria a exigência de tempo combinado e o alerta de que a espera indefinida aumenta a mágoa.
B
Errada
Inverte a avaliação explícita da narradora: “O tempo, na época, me parecia justo por ser proporcional ao erro e ao amor de minha mãe por mim.” Portanto, o castigo era considerado justo e associado ao afeto, não desmedido nem decorrente de frieza.
C
Errada
Apresenta a interrupção das discussões como condição para salvar a relação, mas o texto rejeita o bloqueio como forma de evitar conversas difíceis. A afirmação “As relações avançam nas discussões.” atribui ao diálogo sobre os conflitos uma função construtiva, não prejudicial.
D
Errada
Inverte o papel da mágoa. O prejuízo está em seu crescimento durante a espera indefinida: “E, na espera sem saber o tempo, a mágoa cresce, os argumentos perdem sentido.” O texto não associa a destruição da relação ao abandono desse sentimento; ao contrário, considera válido o castigo que não trazia mágoa.
E
Certa
A alternativa E integra informações complementares do texto: a espera sem duração conhecida aumenta a mágoa, enquanto as conversas difíceis permitem o amadurecimento da relação. Assim, conhecer o tempo do afastamento e discutir as divergências são condições para que a pausa seja construtiva. A expressão “podem ser superados” indica possibilidade, sem transformar essas condições em garantia de reconciliação.
Pegadinha da questão
Confundir a pausa temporária para acalmar os ânimos com a recusa de discutir os conflitos. A narradora admite o afastamento, mas condiciona sua utilidade ao tempo combinado e à manutenção do diálogo.
Dica para questões semelhantes
  • Reúna as condições distribuídas pelo texto: aqui, a duração combinada e a discussão das divergências precisam ser consideradas juntas.
  • Observe restrições como “mas nunca”: elas delimitam o que a narradora aceita e o que rejeita.
  • Confira se a alternativa preserva as relações de sentido: o crescimento da mágoa prejudica a relação; sua ausência não é apresentada como destrutiva.
  • Distinga possibilidade de garantia: admitir que conflitos podem ser superados não significa assegurar a preservação de qualquer relacionamento.

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Comentários

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A alternativa correta é a E: os desentendimentos dos adultos podem ser superados, desde que se saiba o tempo de castigo e que as divergências sejam discutidas.

  • A (Incorreta): A narradora aproxima e compara as duas formas de castigo (infantil e adulto/virtual), mostrando que ambas têm a função de "dar um tempo" ou esfriar os ânimos, dependendo diretamente da definição prévia do tempo e da intenção de buscar a paz/diálogo.
  • B (Incorreta): Pelo contrário, o texto afirma no 1º parágrafo: "O tempo, na época, me parecia justo por ser proporcional ao erro e ao amor de minha mãe por mim."
  • C (Incorreta): No 5º parágrafo, a autora enfatiza que bloquear não deve ser usado como forma de "evitar conversas difíceis, que são justamente as que permitem o amadurecimento que vem dos relacionamentos." As conversas/discussões são cruciais para que o relacionamento avance.
  • D (Incorreta): O texto mostra que a mágoa cresce quando o tempo é indefinido e quando não há diálogo, e não quando a mágoa é deixada de lado.
  • E (Correta): Sintetiza a tese central do texto: o tempo de afastamento precisa ter um prazo conhecido/combinado para não virar veneno ou gerar mágoa (2º e 4º parágrafos), e as divergências/conversas difíceis precisam ser discutidas para permitir o avanço e amadurecimento da relação (5º parágrafo).

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