A partir das características textuais identificadas em “Lágr...

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Q3128873 Português
Texto para responder à questão.

Lágrimas e testosterona

    Ele vivia furioso com a mulher. Por, achava ele, boas razões. Ela era relaxada com a casa, deixava faltar comida na geladeira, não cuidava bem das crianças, gastava demais. Cada vez, porém, que queria repreendê-la por uma dessas coisas, ela começava a chorar. E aí, pronto: ele simplesmente perdia o ânimo, derretia. Acabava desistindo da briga, o que o deixava furioso: afinal, se ele não chamasse a mulher à razão, quem o faria? Mais que isso, não entendia o seu próprio comportamento. Considerava-se um cara durão, detestava gente chorona.
    Por que o pranto da mulher o comovia tanto? E comovia-o à distância, inclusive. Muitas vezes ela se trancava no quarto para chorar sozinha, longe dele. E mesmo assim ele se comovia de uma maneira absurda.
   Foi então que leu sobre a relação entre lágrimas de mulher e a testosterona, o hormônio masculino. Foi uma verdadeira revelação. Finalmente tinha uma explicação lógica, científica, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas diminuíam a testosterona em seu organismo, privando-o da natural agressividade do sexo masculino, transformando-o num cordeirinho. Uma ideia lhe ocorreu: e se tomasse injeções de testosterona? Era o que o seu irmão mais velho fazia, mas por carência do hormônio.
    Com ele conseguiu duas ampolas do hormônio. Seu plano era muito simples: fazer a injeção, esperar alguns dias para que o nível da substância aumentasse em seu organismo e então chamar a esposa à razão.
   Decidido, foi à farmácia e pediu ao encarregado que lhe aplicasse a testosterona, mentindo que depois traria a receita. Enquanto isso era feito, ele, de repente, caiu no choro, um choro tão convulso que o homem se assustou: alguma coisa estava acontecendo?
   É que eu tenho medo de injeção, ele disse, entre soluços. Pediu desculpas e saiu precipitadamente. Estava voltando para casa. Para a esposa e suas lágrimas.

(SCLIAR, Moacyr. Folha de S. Paulo, São Paulo. Em fevereiro de 2011. Cotidiano, C2. Fragmento.)
A partir das características textuais identificadas em “Lágrimas e testosterona”, pode-se afirmar que:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Funções da linguagem e interpretação de texto são o eixo da questão. Aqui, é pedido que se reconheça, pelo estilo e construção do texto, qual função da linguagem predomina – um conteúdo clássico e recorrente em provas de Professor de Língua Portuguesa.

Justificativa da alternativa correta (B):

O texto de Moacyr Scliar explora elementos estéticos e sensíveis, construídos cuidadosamente para provocar impacto emocional e reflexivo no leitor – características próprias da função poética ou estética da linguagem. Nessa função, segundo Celso Cunha & Cintra, “o emissor busca destacar a mensagem utilizando recursos de estilo, como figuras de linguagem, ritmo, ironia e subjetividade.”

Em “Lágrimas e testosterona”, a história é narrada de maneira envolvente, com descrições minuciosas de sentimentos (“caiu no choro, um choro tão convulso que o homem se assustou”) e ironia sutil, típica de textos literários. Não se visa informar de forma objetiva, mas sim expressar e provocar reflexão estética – daí a correta marcação da função poética.

Análise das alternativas incorretas:

A) Função utilitária (referencial): Incorreta. Essa função privilegia a transmissão de informações objetivas e claras, típica de textos científicos ou jornalísticos. No texto, a forma é tão – ou mais – importante que o conteúdo, afastando-o desse perfil.

C) Clareza e objetividade: Incorreta. O texto, ainda que de fácil compreensão, recorre a subjetividade e recursos de estilo, afastando-se do padrão de textos objetivos, que privilegiam precisão acima de qualquer traço estilístico.

D) Ênfase no conteúdo: Incorreta. A organização do texto demonstra atenção à estética e à forma. O próprio enredo, as ironias e o tratamento emocional do tema demonstram que há busca por mais do que mera transmissão de conteúdo.

Estratégias de prova: Em questões desse tipo, atente-se para a intenção comunicativa do autor. Quando o texto provoca emoção, utiliza ironia, metáforas ou um jogo estilístico, a função poética predomina. Evite confundir textos literários (função poética) com textos estritamente informativos (função referencial).

Segundo Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), “a função poética caracteriza-se pela preocupação com o como se diz, e não apenas com o o que se diz.”

Gabarito: B) A função estética do texto pode ser identificada.

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