No escritor romano Tácito, nós encontramos a possível origem de uma ideia que seria repetida por muitos pensadores moralistas
e pessimistas: Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança,
um prazer. Ofensas perdoadas (como em Os Miseráveis, de Victor Hugo) ou causadoras de toda a trama (como na telenovela
Avenida Brasil) trazem à tona nosso melhor e nosso pior. Em qualquer enredo, o momento em que a sofrida mocinha, que vinha
suportando barbaridades desde o primeiro capítulo da novela, finalmente ergue um olhar de rebeldia e esbofeteia a vilã registra
pico máximo de audiência. Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser
envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais
edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça. A lei de Talião está nas fibras
profundas da nossa existência. A vendeta épica, como no filme argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan Jose Campanella, 2009),
é pouco acessível aos mortais como nós. O custo de uma vingança tão extraordinária como a descrita no filme é o uso de todo o
tempo de vida. Tal obsessão implica um ódio e uma memória muito especiais. Poucas pessoas querem pagar o preço enorme da
vingança total. Quando conseguem, formam a narrativa de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Como não somos santos generosos e extraordinários com o poder de perdão do Monsenhor Bienvenu da já citada obra
romântica francesa, também não teremos vinganças dignas de enredos comoventes. Quase todos somos medíocres no amor e
nos ódios. Restam-nos as pequenas vinganças... Não tendo acesso ao elenco principal, nosso papel coadjuvante tem sido bem
elaborado. Nosso dia a dia é tomado por microprazeres do “olho por olho e dente por dente”.
Recordo-me de uma história narrada por uma grande amiga. Casada com um homem muito incisivo (amo eufemismos),
descreveu um episódio de vida turística com o consorte. Estando em Nova York, ela presenciou a compra, e como ele pagou in cash.
A responsável, zelosa e cumpridora de uma norma superior, pegou cada nota e a examinou com um pudor único. Olhou contra a luz
uma a uma, apalpou, passou o dedo exigente sobre as microrranhuras do meio circulante para, enfim, encerrar o ritual da probidade
com uma caneta capaz de eliminar as últimas dúvidas.
O marido em questão, em vez de reclamar imediatamente como estava habituado, assumiu uma posição cordata e silenciosa
que trouxe estranheza à esposa, sabedora do seu gênio querelante. Ele sorria. Por que um homem demarcador rígido de espaços
sorria diante da desconfiança indireta que lhe era imputada? Obviamente porque já antecipava sua vingança, sua pequena guerrilha
de contra-ataque ao ato indigno de pública dúvida sobre sua honestidade.
A quantidade de fregueses à espera era grande na loja no coração de Manhattan. A fila, como muitos sabem, é um valor
superior a Deus e à pátria nos Estados Unidos. Terminado o exame inquisitivo, aprovadas todas as cédulas entregues, a mulher
deu a ele algumas pequenas notas de dólar como troco. Ele agradeceu, educado como uma moça pudica do velho Sacré-Coeur,
e, de maneira teatral, passou a realizar exames no troco que excediam, largamente, o procedimento da funcionária. Cada nota foi
apalpada, cheirada e sentida como se nelas residissem as verdades mais sublimes do Altíssimo. Depois, com o ar tranquilo de um
monge do Himalaia, pediu a caneta verificadora e passou dezenas de traços em cada nota, exarando com vagar o veredicto final
sobre a reta procedência do valor. Checou as imagens, colocou contra a luz e olhou com ponderação minuciosa.
Durante o angustiante procedimento, ele ficava elogiando o cuidado da caixa, dizendo que, de fato, nunca se pode confiar, que
ela fazia bem, que era assim mesmo que se evitavam fraudes. Falava em voz alta e louvava a atenção extrema do estabelecimento,
paralisando uma possível reação dela com profusos elogios. Finda a liturgia da vingança, agradeceu, bradou mais uma vez para
toda a loja que a ação dela era exemplar e que ela e todos da fila deveriam continuar fazendo isso, com arengas contra o estelionato
insidioso. Retirou-se, sorridente. A ação tivera efeito similar ao já indicado tapa no rosto da vilã no último capítulo. Catarse completa.
Vingança, a doce figura de Tácito, estava impetrada!
Já foi dito que somos bons quando somos bons e somos ainda melhores quando somos maus. Mesmo os mais abnegados
professores ocultam pouco um sorriso interno quando o aluno que atenazou sua vida o ano inteiro fica retido no conselho de
classe. A mais zelosa das mães que adverte com insistência um filho que leve casaco e recebe um muxoxo em troca talvez exulte
internamente quando o birrento reclama que passou muito frio. O castigo é a alma da lei e do sistema da autoridade. Tudo em pais,
policiais e professores indica que nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em
desastres aos que fazem ouvidos de mercador.
Saramago, no diálogo do barco em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, coloca na boca de Deus-Pai que o demônio é
fundamental para a obra celestial. Sem o risco da punição, toda regra amorosa ficaria vazia. E se os fumantes morressem com
pulmões de crianças no bosque? E se o consumo de gorduras e doces emagrecesse? E se os medíocres triunfassem? Se os
adúlteros tivessem prazeres multiplicados e nenhum ônus decorrente do seu gesto infrator? O que seria da virtude sem o inferno ou
o colesterol? Para isso existe a vingança, quero dizer, a justiça... Uma semana amorosa para todos nós, incapazes de pequenas ou
de grandes maldades.
KARNAL, Leandro. O Coração das Coisas. São Paulo: Contexto, 2019.
“[...] nossos valorosos conselhos só se tornam importantes quando, ignorados, se transformam em desastres aos que fazem
ouvidos de mercador.”
A oração destacada é tipificada como:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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