“‘Em muitos lares, os bebês passavam mais tempo confinados ...

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TEXTO: BEBÊS EXPOSTOS À POBREZA APRESENTAM ATRASOS NO DESENVOLVIMENTO MOTOR JÁ AOS SEIS MESES

Maria Fernanda Ziegler

        A pobreza pode afetar o desenvolvimento motor dos bebês já aos seis meses de idade. Essa é a conclusão do primeiro estudo brasileiro que investigou mês a mês a quantidade e a qualidade do desenvolvimento motor e sua relação com a vulnerabilidade socioeconômica nos primeiros meses de vida.

        Conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o trabalho acompanhou 88 bebês dos 3 aos 8 meses, sendo 50 deles em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Os resultados foram publicados na revista Acta Psychologica.

        “Além desses bebês alcançarem marcos motores [como agarrar objetos, virar e sentar] mais tarde que os não expostos à pobreza, eles apresentavam menor diversidade de movimentos, repetindo sempre a mesma estratégia para pegar um brinquedo, por exemplo”, explica Carolina Fioroni Ribeiro da Silva, bolsista da Fapesp cujo estudo foi objeto de seu doutorado.

      Para Eloisa Tudella, professora da UFSCar e orientadora da pesquisa, esses atrasos sutis em lactentes expostos à pobreza podem ter impactos importantes mais adiante, nos períodos pré-escolar e escolar. 

        “Embora não tenha sido o foco direto da pesquisa, evidências indicam que atrasos motores leves no primeiro ano de vida podem influenciar o desenvolvimento global e se associar a problemas comportamentais na idade escolar, incluindo transtorno do déficit de atenção com hiperatividade [TDAH] e transtornos da coordenação”, afirma.

        O estudo mostrou ainda que há espaço para reversão já que, aos oito meses, os atrasos já não eram mais significativos. Essa possibilidade de melhora é atribuída ao engajamento das mães, que passaram a reproduzir em casa as orientações dadas durante as visitas (nenhum pai se apresentou como responsável para receber as pesquisadoras).

        “A maioria das mães expostas à pobreza era adolescente e não sabia como estimular os bebês após o nascimento. Durante as visitas, nós ensinávamos práticas simples, como colocar a criança de barriga para baixo, usar papel amassado como brinquedo ou conversar e cantar para o bebê. Todas as mães se mostraram muito receptivas, copiavam as ações durante as avaliações e passaram a interagir mais com os filhos, favorecendo seu desenvolvimento motor”, conta Silva, atualmente em pós-doutorado na Heinrich Heine University, na Alemanha.

        Conhecidos como “tummy time”, os períodos curtos em que o bebê fica de bruços sobre um tapete, acordado e supervisionado, são indicados para fortalecer cabeça, pescoço, ombros, costas e braços, contribuindo para a preparação da musculatura e a coordenação necessárias para que o bebê seja capaz de rolar, sentar, engatinhar e ficar de pé.

        “Em muitos lares, os bebês passavam mais tempo confinados em carrinhos, com poucas oportunidades para explorar o ambiente, fortalecer os músculos e experimentar diferentes formas de se mover, pois não havia espaço para isso”, afirma Silva.  

        O trabalho utilizou pela primeira vez no Brasil o Infant Motor Profile (IMP), instrumento desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Groningen, na Holanda. Diferente de escalas que avaliam apenas se o bebê atingiu determinado marco motor, o IMP analisa também a qualidade dos movimentos – variação, fluidez, simetria e desempenho. Isso permite identificar precocemente riscos neuromotores, planejar intervenções mais precisas e acompanhar a evolução das crianças ao longo do tempo.

        Segundo Tudella, outra vantagem do instrumento é reduzir a necessidade de avaliações mais caras e complexas, como ressonância magnética em bebês, que em geral exige sedação.

Fonte:
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/02 /bebes-expostos-a-pobreza-apresentam-atrasos-nodesenvolvimento-motor-ja-aos-seis-meses.shtml. Acesso em 12/02/2026. 
“‘Em muitos lares, os bebês passavam mais tempo confinados em carrinhos, com poucas oportunidades para explorar o ambiente, fortalecer os músculos e experimentar diferentes formas de se mover, pois não havia espaço para isso’, afirma Silva” (9º parágrafo). Esse parágrafo do texto cumpre a função discursiva de:
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A identificação da função discursiva depende do conteúdo semântico e do papel do 9º parágrafo na progressão textual. O trecho “Em muitos lares, os bebês passavam mais tempo confinados em carrinhos, com poucas oportunidades para explorar o ambiente, fortalecer os músculos e experimentar diferentes formas de se mover, pois não havia espaço para isso”, afirma Silva, apresenta um quadro concreto de privação e, por isso, tem valor exemplificativo de uma situação desfavorável.

Tema central: função discursiva
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o parágrafo não descreve método, procedimento, etapa de pesquisa ou técnica aplicada. Ele não explica como o estudo foi feito nem como uma intervenção foi executada; apenas retrata uma condição de vida dos bebês em certos lares. A descrição de práticas orientadas aparece em outro trecho: “Durante as visitas, nós ensinávamos práticas simples...”.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o parágrafo retrata concretamente um contexto desfavorável ao desenvolvimento motor: confinamento, poucas oportunidades de exploração e falta de espaço. Essas marcas constroem um quadro negativo e têm valor exemplificativo-explicativo dentro do texto, pois mostram como a vulnerabilidade social pode se manifestar na rotina dos bebês e ajudar a explicar os atrasos mencionados.
C
Errada
Está errada porque não há estrutura de refutação no parágrafo. O trecho não contesta a eficácia de nenhum procedimento; ao contrário, ao mostrar a carência de oportunidades para explorar o ambiente e fortalecer os músculos, ele reforça a importância de estímulos e práticas de desenvolvimento já valorizadas no texto, como o “tummy time”.
D
Errada
Está errada porque o parágrafo seguinte não contradiz o 9º; ele apenas muda o foco para o instrumento de avaliação usado na pesquisa: “O trabalho utilizou pela primeira vez no Brasil o Infant Motor Profile (IMP)...”. Há progressão temática e coerência textual, não oposição de sentido entre os parágrafos.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre descrever uma situação concreta e descrever um método: como o trecho é explicativo, pode parecer procedural, mas seu conteúdo é de exemplificação de um cenário adverso, marcado por expressões negativas como “confinados em carrinhos”, “poucas oportunidades” e “não havia espaço”.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique a função do parágrafo pelo que ele faz no texto: aqui, ele ilustra uma condição concreta, não apresenta procedimento.
  • Observe as marcas semânticas do trecho; expressões de privação e prejuízo indicam quadro negativo, não neutralidade descritiva.
  • Não confunda mudança de assunto no parágrafo seguinte com contradição; verifique se há incoerência real ou apenas progressão temática.

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