Segundo o texto, o que a autora deseja ao expressar a vonta...

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Q3295057 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. 

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.
(Pertencer, Clarice Lispector)

Segundo o texto, o que a autora deseja ao expressar a vontade de pertencer?
Alternativas

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Tema central: Esta questão avalia interpretação de texto, especialmente a capacidade de compreender o sentido global e as intenções da autora ao empregar a palavra "pertencer". O candidato deve identificar, sem confundir, o objetivo existencial e afetivo presente no texto, distinguindo-o de interpretações literais e superficiais.

Justificativa da alternativa correta – C) Doar-se a algo ou alguém:

Clarice Lispector constrói seu texto partindo de uma sensação de "fome de pertencer", expressando o desejo de entregar-se verdadeiramente, de doar-se àquilo que dá sentido à sua existência. O domínio semântico do verbo "pertencer" no texto não se restringe à ideia de participação formal em comunidades, clubes ou relações; antes, está associado a uma entrega profunda e essencial. Observe o trecho: “...tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço.” Isso confirma o sentido da alternativa C.

Análise das alternativas incorretas:

A) Fazer parte de um clube ou associação. – Incorreta, pois a autora diz explicitamente que “não é isso que eu chamo de pertencer”, descartando o pertencimento meramente institucional.

B) Encontrar um parceiro amoroso. – Apesar de possível associação afetiva, o texto apresenta o desejo de pertencer como algo mais amplo, não restrito a relações amorosas.

D) Ter mais amigos. – Incorreta, pois a vontade expressa é existencial, e amigos não resumem o “pertencer” profundo defendido pela autora.

Dicas para interpretação em provas: Ao ler textos literários, busque o sentido profundo das palavras-chave, avaliando se representam um conceito literal ou metafórico. Atenção ao contexto e à oposição feita pela autora a certos tipos de pertencimento. Use sempre a estratégia de sublinhar ou destacar as frases essenciais na hora da leitura, como ensinam Bechara e Cunha & Cintra.

Conclusão: O correto entendimento do texto evidencia que pertencer, para a autora, significa doar-se profundamente, indo além de rótulos ou relações convencionais.

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Gabarito C

Segue passagem no texto:

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

"Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre."

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