Nos trechos “Dona Didi estava parada em frente ao portão.” ...
Medo de ensinar
Publicado em 26/09/2023 Paulo Pestana - Crônica
Dona Didi estava parada em frente ao portão. Todo dia era assim: ela recebia os alunos no pequeno alpendre do externato; mas alguma coisa estava errada. Eu mesmo vi quando começou o trabalho de demolição da ampla casa amarela que abrigava a escola; vi quando o muro baixo foi substituído por um tapume. Também vi um prédio pronto no mesmo lugar, ao lado da Catedral, naquela rua íngreme que nos fazia chegar arfando [ ] aula.
Mas ela estava lá. Não chegava a ser gorda, mas era corpulenta, tinha o cenho sempre decidido e fechado, com sorrisos reservados apenas aos pais. E trazia permanentemente uma ameaçadora régua numa das mãos, batendo-a na palma da outra mão; corria entre os alunos[ ] lenda que ela guardava uma palmatória, na esperança de que seu uso fosse novamente autorizado para punir os maus alunos.
Mas eu sabia que Dona Didi havia morrido. Foi este o motivo de a escola ter fechado. Ainda assim ela estava ali. Ao lado dela, como sempre, a mais bela professora do mundo, a minha professora – como era mesmo o nome dela? Não conseguia lembrar.
É por essas e outras que eu ainda acho que o medo é uma força maior que o amor – como é que eu lembro o nome da mulher que mais me meteu medo na vida e não lembro como se chamava a dona do sorriso mais doce, que guiava minha mão sobre a pauta de caligrafia?
A sensação era estranha – eu ainda não tinha consciência de que era um sonho, até porque, no meu caso, eles são quase sempre misteriosos, fragmentados, desconexos. Jung ensinou que o sonho é uma força da natureza, não depende de nada para aparecer, mas pode ser uma reação [ ] uma situação de consciência. Parece que era o caso.
Há alguns dias eu tivera uma conversa com uma amiga professora em escola pública de uma cidade satélite que renovou a minha inabalável crença no fracasso da raça humana. Narrou casos cada vez mais frequentes de agressões verbais, de intimidações e até de violência física contra colegas.
Ela está para desistir. Nem a Lei que garante ao professor autoridade para retirar um aluno da sala de aula – o que, por si só, mostra o tamanho do absurdo vivido pelos mestres – serve de paliativo. “A gente entra na sala com os nervos[ ] flor da pele, sem saber o que esperar”, me disse, enquanto eu me lembrava do dia, décadas atrás, que Ambrósio fez xixi nas calças durante uma bronca, em que ficou o tempo todo de cabeça baixa.
Não sei o que aconteceu com o conceito de autoridade, que vem sendo corroído em nome de uma liberdade que não respeita ninguém e que, portanto, não é liberdade. Nos últimos anos, tem assumido ares de epidemia, já que ninguém quer se submeter a nada, mas, quando um professor tem medo de ensinar, é sinal de que a picada está no fim.
E ainda tem gente que acha que vamos começar resolvendo os problemas brasileiros obrigando motorista [ ] acender o farol durante o dia ou adoçando palavras para disfarçar o amargor do preconceito.
PESTANA, Paulo. Medo de ensinar. Correio Braziliense, 18 de setembro de 2023. Disponível em: https://blogs.correiobraziliense.com.br//medo-deensinar/. Acesso em: 29 set. 2023. Adaptado.
Gabarito comentado
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Tema central da questão: Morfologia – Classificação dos verbos quanto à predicação.
O conhecimento exigido é a identificação e classificação de verbos de ligação, tema recorrente em provas de concursos, sobretudo para o cargo de Assistente Social.
Justificativa da alternativa correta (A): Os verbos “estava” (em “Dona Didi estava parada...”) e “era” (em “mas era corpulenta...”) são verbos de ligação. Estes verbos não indicam ação, mas sim estado ou característica do sujeito, preparando o predicativo (“parada”, “corpulenta”) que atribui estado ou qualidade ao sujeito.
Pela norma-padrão (Cunha & Cintra, Bechara), verbos de ligação conectam o sujeito ao predicativo, nunca a objetos — sua função é relacional, e não ativa. Por exemplo: “Ela está triste”, “Ele ficou animado”. Sempre que o verbo tem essa função, não é transitivo, mas de ligação.
Análise das alternativas incorretas:
B) Verbos transitivos diretos: Errada. O verbo transitivo direto exige objeto direto, ou seja, um termo que sofre a ação verbal. Nos exemplos dados, não há ação nem objeto, pois “parada” e “corpulenta” caracterizam o sujeito.
C) Verbos transitivos indiretos: Errada. Esses verbos exigem complemento com preposição (objeto indireto). Novamente, não ocorre ação nem há complemento preposicionado nos trechos.
D) Verbos transitivos diretos e indiretos: Errada. Conhecidos como bitransitivos, requerem ambos os objetos (ex: “oferecer algo a alguém”). Não é o caso aqui.
Dica para prova: Sempre que “ser”, “estar”, “ficar”, “parecer”, “tornar-se”, “andar”, entre outros forem usados para expressar estado ou qualidade do sujeito, classifique como verbo de ligação.
Referências: Celso Cunha e Lindley Cintra (“Nova Gramática do Português Contemporâneo”, p. 482-483); Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”, p. 286-288).
Resumo: Os verbos destacados são de ligação porque transmitem estado/qualidade do sujeito, sem exigir objetos diretos ou indiretos. Aprenda a reconhecer essa função para ganhar agilidade em questões de morfologia!
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