O narrador faz uma referência a Hamlet, de William Shakespe...
Leia o texto e responda a questão.
Óbito do autor
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia — peneirava — uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferiu à beira de minha cova: ''Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado.''
Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei. E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, a filha, — um lírio do vale, — e... Tenham paciência! Daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa. Nem o meu óbito era coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. E, dado que sim, o que menos convinha a essa anônima era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crer na minha extinção.
— Morto! Morto! dizia consigo.
E a imaginação dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vôo desde o Ilisso às ribas africanas, sem embargo das ruínas e dos tempos, a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros anos. Agora, quero morrer tranqüilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.
Morri de uma pneumonia; mas, se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.
(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo:
Editora Moderna, 1994)
Gabarito comentado
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Tema central da questão: Interpretação de texto, com foco em intertextualidade e semântica.
O texto apresenta referência explícita à peça “Hamlet”, de Shakespeare, quando o narrador cita o “undiscovered country”. Para resolver a questão, é essencial associar o sentido original dessa expressão – o “país desconhecido” do famoso monólogo “Ser ou não ser”, o qual representa a morte, ou seja, o mundo dos mortos (“de cujos confins nenhum viajante retorna”, conforme Shakespeare).
Pela norma-padrão e segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, interpretar um texto pressupõe captar relações de sentido e identificar referências externas (intertextualidade), como ocorre aqui.
Alternativa correta: D) Ao mundo dos mortos.
Justificativa: O “undiscovered country” corresponde claramente à morte em sentido metafórico. O narrador não se refere a itens materiais ou a um local físico de sepultamento, mas ao destino final, inexplorado, comum a todos – o mundo dos mortos. É uma metáfora, conforme analisa Rocha Lima, de que o texto literário pode extrapolar o sentido denotativo e trabalhar com o conotativo.
Análise das alternativas incorretas:
A) Ao caixão. — O caixão é um objeto físico. Não há no texto ou em Hamlet qualquer alusão ao caixão como país desconhecido.
B) Ao cemitério. — O cemitério é o local do sepultamento, mas não equivale ao destino metafísico a que se refere o narrador; há separação entre local concreto e ideia abstrata.
C) À cova. — Também físico e limitado, não corresponde à amplitude metafórica do termo.
Palavras-chave para chegar à resposta: “undiscovered country”, referência a “Hamlet”, destino ao qual todos vão após a morte, além de elementos de intertextualidade.
Dica para evitar pegadinhas: Sempre observe se o enunciado faz referência a uma metáfora ou contexto literário amplo, e não apenas ao sentido material, evitando assim escolhas precipitadas.
Referências: BECHARA, Evanildo; KOCH, Ingedore Villaça; CUNHA & CINTRA.
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