Por que o quarto assaltante “deu no pé” no final do conto?

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Q1311761 Português

Leia o texto e responda a questão.


Coleguismo

      Dois assaltantes assaltaram-se mutuamente e foram separados por um terceiro assaltante, que exigiu deles o produto dos dois assaltos. Como eram dois contra um, acabaram subjugando o terceiro e reclamaram não só a devolução do que lhe haviam cedido como ainda o que ele já trazia no bolso.

       Foram atendidos, mas continuou a pendência, pois o assaltante nº 1 queria de volta o que perdera e o que ganhara, o nº 2 pretendia o mesmo, e o nº 3 tentou acalmá-los, ao mesmo tempo que pleiteava a devolução do seu e mais cinquenta por cento do que pertencia a cada. Esclareceu que, desistindo do total, contribuía para a união e harmonia da classe.

          Os outros não se mostraram persuadidos e, à falta de tribunal especializado que dirimisse a questão, acordaram em submetê-la ao julgamento de um passante que, pelo aspecto, merecesse fé. O senhor bem vestido, de roupa escura, que se aproximou e ouviu a exposição do caso, abanou a cabeça lamentando:

          – Não posso decidir contra colegas. Também sou assaltante.

          E deu no pé, antes que os três lhe reclamassem o dele.


(ANDRADE, Carlos Drummond. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: J. Olympio Editora, 1985.) 

Por que o quarto assaltante “deu no pé” no final do conto?
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Gabarito comentado – Questão de Interpretação de Texto: “Coleguismo” (Carlos Drummond de Andrade)

Tema central: Interpretação de Texto, com foco na compreensão de implícitos e inferências. O candidato precisava identificar a intenção do personagem e estabelecer conexões que não estavam ditas de forma explícita.

De acordo com a norma-padrão e obras como Cunha & Cintra (2013), interpretar exige captar tanto o explícito quanto o implícito: ou seja, decifrar o que está dito e o que está sugerido no contexto.

Justificativa da alternativa correta (C):
A frase “deu no pé” é uma expressão idiomática que, conforme Bechara (2009), significa "fugiu rapidamente". O texto constrói um ambiente em que o quarto assaltante, chamado a decidir uma disputa, apropria-se do termo “colega”, sugere associação e, prevendo que poderia se tornar alvo das pretensões dos outros três assaltantes, escolhe não se envolver com a partilha dos bens, fugindo. Ou seja, não queria participar do acordo de divisão.

Análise das alternativas incorretas:

A) Não há qualquer menção a um quinto assaltante que pudesse ameaçar o quarto personagem. É um elemento totalmente fora do contexto apresentado.
B) O texto não sugere em momento algum que o quarto assaltante tenha subtraído bens dos demais – apenas se identificou como colega e se retirou.
D) O “aspecto” do homem foi apenas o critério para escolhê-lo como julgador, e não fundamento para fuga. A suposição de superioridade, portanto, não se aplica.

Estratégia de interpretação: O segredo nesta questão estava em captar o implícito nas falas e atitudes – típica habilidade cobrada em concursos. Destaco a importância de atenção a expressões idiomáticas (“deu no pé”) e raciocínio sobre motivações subentendidas.

Dica: Sempre localize palavras-chave e avalie o contexto geral para evitar armadilhas interpretativas. Lembre-se do conceito de inferência: interpretação além do que está dito literalmente (Cunha & Cintra, 2013). Isso diferencia o candidato bem preparado!

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