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Q4231790 Português
TEXTO I

A ilusão do atalho

Não há melhora da qualificação, da infraestrutura, do ambiente jurídico, da concorrência, mas acredita-se que uma canetada vai tornar todo mundo mais rico

Rodrigo Constantino

   “Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las”, disse Thomas Sowell. O grande pensador americano dedicou sua vida a expor falácias econômicas, mas, infelizmente, muitos se recusam a compreender a realidade como ela é. Preferem acreditar em mentiras, em ilusões, e isso é um prato cheio para políticos populistas. O fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho aprovados na Câmara ilustram bem isso.
     Do ponto de vista político, a base governista preparou uma armadilha em ano eleitoral, e boa parte da oposição se viu numa sinuca de bico, votando junto para não ser acusada de “inimiga do trabalhador”. Do ponto de vista econômico, porém, essas mudanças representam uma ameaça concreta ao próprio trabalhador, além da perda da liberdade de escolha.
    O Partido Novo, que votou contra as mudanças, publicou uma justificativa bastante razoável para sua postura: “O Novo é favorável ao fim da escala 6x1 para todo trabalhador que não deseja trabalhar nesse regime. Porém querem proibir a escala 6x1 – mesmo para quem quer trabalhar mais dias na semana. Essa proibição não resolve o problema das nossas leis trabalhistas defasadas. Também não resolve a pobreza e ainda aumenta o preço de tudo. Trata-se de uma medida eleitoreira”.
    Milhares de brasileiros vão para o exterior em busca de oportunidades melhores de trabalho. Nenhum destes países tem leis trabalhistas como a CLT. Dever-se-ia, então, copiar deles o que dá certo lá: liberdade e flexibilidade. Nos Estados Unidos, o trabalhador não goza das “conquistas trabalhistas” existentes no Brasil. Sequer há férias remuneradas, muito menos 13º salário, vale-alimentação ou vale-transporte. Não obstante, o trabalhador americano faz, na média, cinco a seis vezes mais dinheiro do que o brasileiro.
   O segredo está na produtividade, assim como no dinamismo do mercado de trabalho, com mais competição entre as empresas. Se a qualidade de vida do trabalhador dependesse de canetada do Estado, não haveria mais pobres no mundo! Ironicamente, há mais pobreza justamente onde existe mais controle estatal, mais “benesses” decretadas pelo governo com apoio de sindicatos. 
    A proposta de Erika Hilton (PSOL – RJ) sequer teve estudo de impacto econômico. É pura demagogia! Com isso, gerou-se uma espécie de “monopólio das boas intenções”. Quem não fosse favorável aos meios propostos só poderia ser contra os fins, ou seja, dar maior qualidade de vida aos trabalhadores. Mas isso é balela, uma falácia argumentativa de quem prefere fugir da realidade e viver de discursos.
   Se bastasse “vontade política” para resolver os problemas, o governo poderia logo decretar um salário-mínimo de R$ 5 mil, para garantir uma vida digna a todos. Na prática, porém, até economistas ligados ao governo entendem que isso geraria somente mais desemprego e informalidade, um problema enorme no Brasil. Reduzir na marra a quantidade de horas trabalhadas sem mexer no salário produz o mesmo efeito. É uma ilusão que parte da premissa de que o patrão é um explorador e o trabalhador necessita da proteção estatal.
   Em suma, os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas mesmíssimas condições existentes, que ajudam a manter a produtividade do trabalhador em patamar reduzido. Não há melhora da qualificação, da infraestrutura, do ambiente jurídico, da concorrência, mas acredita-se que uma canetada vai tornar todo mundo mais rico da noite para o dia.
  Há quem pense que pode substituir a leitura séria e dedicada por livrinhos de resumos dos pensamentos filosóficos, achando que, assim, terá absorvido de fato o estoque de conhecimento existente no mundo. Há quem acredite que basta tomar anabolizante para ficar forte, dispensando o treino muscular intenso. Existem aqueles que juram que uma canetinha emagrecedora resolve tudo, sem a necessidade de uma reeducação alimentar. Enfim, muitos buscam desesperadamente um atalho, ignorando seus efeitos colaterais, as consequências de longo prazo, a realidade.
    Mas a realidade sempre se impõe. O Brasil não tem um enorme problema de miséria e informalidade, além da dependência de milhões de pessoas das esmolas estatais, por acaso. Isso é obra de décadas de medidas populistas, fruto de uma mentalidade que clama por vantagens estatais. Ver a situação e parte da oposição unidas em prol de mais uma medida populista nos remete ao sombrio diagnóstico de Roberto Campos: “o Brasil não corre o menor risco de dar certo!”


Fonte: CONSTANTINO, Rodrigo. Experimento Social Fracassado. Ed. 294. Revista Oeste. (adaptado) https://revistaoeste.com/revista/edicao-324/a-ilusao-do-atalho/ 
Analise as afirmações abaixo que fazem análises de construção de cada parágrafo em evidência. Assinale aquela que se encontra correta no contexto.
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a aderência ao 4º parágrafo, cuja formulação textual é: "Dever-se-ia, então, copiar deles o que dá certo lá: liberdade e flexibilidade. Nos Estados Unidos, o trabalhador não goza das “conquistas trabalhistas” existentes no Brasil. Sequer há férias remuneradas, muito menos 13º salário, vale-alimentação ou vale-transporte. Não obstante, o trabalhador americano faz, na média, cinco a seis vezes mais dinheiro do que o brasileiro." Esse trecho serve de parâmetro para verificar se a alternativa preserva, sem inversão, a orientação argumentativa do autor.

Tema central: sentido do parágrafo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por contradição literal com o 2º parágrafo. O texto afirma que "essas mudanças representam uma ameaça concreta ao próprio trabalhador, além da perda da liberdade de escolha." A alternativa inverte esse sentido ao dizer que o trabalhador contará com liberdade de escolha após a mudança.
B
Errada
Está errada porque atribui condenação autoral onde há aprovação explícita. No 3º parágrafo, o articulista escreve: "O Partido Novo, que votou contra as mudanças, publicou uma justificativa bastante razoável para sua postura". Portanto, ele não condena a nota do partido; ao contrário, a qualifica positivamente. Além disso, o caráter "eleitoreiro" é usado na justificativa para criticar a medida debatida, não o partido.
C
Certa
A alternativa C está correta porque preserva a orientação argumentativa do 4º parágrafo. O articulista contrapõe o modelo brasileiro de “conquistas trabalhistas” a países que, segundo ele, oferecem “liberdade e flexibilidade” e apresentam melhores oportunidades e remuneração média. A formulação da alternativa é interpretativa, mas permanece fiel ao contraste central do parágrafo: menos rigidez legal e mais liberdade seriam, na visão do autor, mais vantajosos ao trabalhador do que a manutenção das vantagens trabalhistas citadas.
D
Errada
Está errada porque o 6º parágrafo nega exatamente o que a alternativa afirma. O texto diz: "A proposta de Erika Hilton (PSOL – RJ) sequer teve estudo de impacto econômico. É pura demagogia!" Logo, não há registro favorável ao embasamento da PEC nem menção a estudo detalhado que sustente melhora da qualidade de vida.
E
Errada
Está errada porque o último parágrafo mantém posição desfavorável à mudança. O trecho "Ver a situação e parte da oposição unidas em prol de mais uma medida populista" explicita avaliação negativa. Assim, não existe posicionamento favorável do articulista, nem elogio ao contexto econômico e social brasileiro; há crítica ao populismo e ao quadro nacional.
Pegadinha da questão
A banca explora a inversão da polaridade argumentativa: várias alternativas atribuem ao articulista apoio a medidas que ele rejeita expressamente com marcas avaliativas como "ameaça concreta", "justificativa bastante razoável", "É pura demagogia!" e "medida populista".
Dica para questões semelhantes
  • Confirme sempre se a alternativa preserva o sentido do parágrafo indicado, sem trocar avaliação positiva por negativa ou o contrário.
  • Dê peso decisivo às expressões avaliativas do autor, porque elas revelam seu posicionamento argumentativo.
  • Quando a alternativa for uma paráfrase, aceite-a apenas se ela mantiver o contraste e a direção semântica do texto-base.

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