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Q680217 Português

TEXTO 1 - O oceano recebe todo rio

A batida ritual ainda toca em mim. Foi na festa da primavera que ouvi a canção pela primeira vez, na escola das meninas, que fica na Nova Zelândia, onde estamos aportados. Nela, os versos sufis (uma tradição de iluminação que leva adiante a verdade essencial através do tempo) eram feitos apenas para mim. A água é paciente, o regato segue. Já em casa, o verso escapa como um sussurro da minha filha caçula: “The ocean refuses no river, no river” (o oceano não recusa nenhum rio, em tradução livre). No chão de tábuas largas, de um para outro ponto do crochê, minha menina tece. Tece presentes, que é seu jeito de estar perto da família aqui de longe. A água em mim devagar gira, com esforço no início, até que o vórtice roda por si. A epifania vem fluida em forma de versos: “O oceano não recusa o Rio Doce, rio algum / Não recusa as águas radioativas de Fukushima / O oceano não recusa nem a Vale, nem o Rio Doce, rio algum. A água une e dissolve, é a sua natureza. Não há esta e aquela água, só água. Um par de gotas mal se encontra e já são uma só, nem se viu e são o oceano. O oceano recebe terroristas / Recebe fabricantes de armas / Refugiados / O oceano recebe exércitos, todo rio”. A água tem uma qualidade intransitiva. Chove! Neva! Nada mais. Sem julgamento, cor ou gênero, a água é. Boa parte de nós é água e somos também intransitivos. Existimos antes de assumir qualidades, de sermos isso ou aquilo. A existência em si carrega todo o valor que um ser vivo precisa para ser honrado. Cada um é o veículo de uma história, um dom, um caminhar. Os rótulos diminuem as pessoas, a vida, são muros, condenações. Muros separam gotas, impedem oceanos. Quando reduzo alguém a um rótulo, não honro a água que nos une. Sem respeito não se vai a lugar algum, não há mesmo por que seguir. Muros formam barragens. A água quer ser rio mesmo que seja de lama, mesmo que seja radioativa, quer ir para o mar, quer ser um só. Rótulos e muros isolam, fortalecem o fundamentalismo. A infantilidade do radical ganha fundamento no confronto. Quando isolo alguém em um rótulo, o amarro ao outro radical, o único par que lhe resta. Na oposição aos muros, radicais fantasiam-se de mártires. Como elefantes na savana, nos cobrimos de lama para suportar o sol quente. Assim faz a manada. De novo, como paquidermes não esquecemos e a culpa nos consome. Uns definham, outros escolhem a culpa fácil e reducionista no outro. Optam pelo conforto feio das respostas fáceis, dos dedos em riste. Fingimos dormir para suportar a vergonha de não nos lavarmos. Não se acorda quem finge dormir. O oceano, entretanto, recebe todo rio / Mesmo morto o rio é recebido / Com a lama tóxica e a radiação morre o mar / Podemos tingir o oceano da consciência ou honrar os elementos. A água é lenta, quer ser plácida, quando, entretanto, de pingo em gota a onda levanta, tem a força de dilúvio. Que a água lave e nos faça um. A esperança sobe com a fragilidade e o fascínio de uma bolha de sabão.

Texto de LUCAS TAUIL DE FREITAS disponível em http://vidasimples.uol.com.br/noticias/pensar/o-oceanorecebe-todo-rio.phtml#.V1dJy773gUo acesso 07 de junho de 2016.

Pode-se inferir que, de acordo com as intenções comunicativas desse gênero em análise, oceano e rio corroboram a ideia de que:
Alternativas

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Comentário sobre a questão – Interpretação de Texto e Metáfora

Tema central: A questão exige interpretação de texto, com atenção especial ao uso de metáfora para transmitir ideias sobre convivência e aceitação humana.

Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra, a metáfora ocorre quando um termo é aplicado a outro graças a uma semelhança subentendida. No texto, “oceano” e “rio” não são apenas elementos naturais: representam, metaforicamente, a humanidade (oceano) e cada indivíduo (rio), destacando a importância da união e da aceitação das diferenças.

Análise da alternativa correta:

C) Os aprendizados que vêm da natureza são simples, poderosos e nos dão bons exemplos todos os dias.

A alternativa C sintetiza a intenção do texto: mostrar como as lições da natureza (metáfora do oceano e dos rios) ofertam ensinamentos simples e valiosos sobre aceitação, humildade e empatia. Assim, ela reflete perfeitamente a mensagem comunicativa da metáfora, conforme a norma-padrão e os autores citados.

Análise das alternativas incorretas:

A) Foca em mudança, limpeza e renovação das águas, mas o texto fala, sobretudo, em união e aceitação, não transformação física ou purificação literal dos rios e oceanos.

B) Menciona “muros erguidos”, mas a metáfora central é sobre a superação de muros e rótulos; o texto critica, não ignora, tais obstáculos.

D) Generaliza “coisas naturais e ensinamentos”, mas é genérica, pois a metáfora dos rios e oceanos não aparece de forma explícita aí, tornando-se uma alternativa vaga.

E) Sugere que exemplos “promovem forte mudança no pensamento coletivo”, fugindo do cerne da metáfora (união e aceitação), e há ambiguidade ao falar em “corrente para o bem ou mal”, o que o texto não propõe.

Dica do professor: Ao lidar com metáforas em textos, identifique os elementos centrais comparados e reflita sobre o que eles simbolizam além do sentido literal. Atenção: alternativas que focam em aspectos secundários geralmente são distractores.

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Comentários

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Gab: C

Não entendi nada. Essa seria no chute sem o mínimo de noção.

Fui no chute também.

que banca! nem no chute consegui fazer! uma questão extremamente PUNK.

Eita... pega leve com a gente, legatus.

Nem li, nem lerei

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