No parágrafo final do texto, a atitude do cliente ao voltar ...
Leia o texto para responder às questões de 1 a 05.
O olhar da truta
O homem pediu truta e o garçom perguntou se ele não gostaria de escolher uma pessoalmente.
— Como, escolher?
— No nosso viveiro. O senhor pode escolher a truta que quiser.
Ele não tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrás do garçom. As trutas davam voltas e voltas dentro do aquário, como num cortejo. Algumas paravam por um instante e ficavam olhando através do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada no vidro à sua frente.
— Essa está bonita... — disse o garçom.
— Eu não sabia que se podia escolher. Pensei que elas já estivessem mortas.
— Não, nossas trutas são mortas na hora. Da água direto para a panela.
A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem.
— Vai essa, doutor? Ela parece que está pedindo...
Mas o olhar da truta não era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um diálogo. Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma decisão assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos e a responsabilidade não era sua — pelo menos não diretamente. Você podia comê-los sem remorso. (...) Claro, era com sua aprovação tácita que bovinos, ovinos, suínos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas você não estava presente no ato, não escolhia a vítima, não dava a ordem. (...) De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as vítimas. Mas agora era preciso escolher.
— Vai essa, doutor? — insistiu o garçom.
— Não sei. Eu...
— Acho que foi ela que escolheu o senhor. Olha aí, ficou paradinha. Só faltando dizer “Me come”.
O homem desejou que a truta deixasse de encará-lo e voltasse ao carrossel junto com as outras. Ou que pelo menos desviasse o olhar. Mas a truta continuava a fitá-lo.
— Vamos — estava dizendo a truta. — Pelo menos uma vez na vida, seja decidido. Me escolha e me condene à morte, ou me deixe viver. (...) Não posso decidir a minha vida, ou a de ninguém. Mas você pode. (...) Até agora foi um protegido, um desobrigado, um isento da vida. Mas chegou a hora de se comprometer. (...)
— Vai essa mesmo, doutor? — quis saber o garçom, já com a rede na mão para pegar a truta.
— Não — disse o homem. — Mudei de ideia. Vou pedir outra coisa.
E de volta na mesa, depois de reexaminar o cardápio, perguntou:
— Esses camarões estão vivos?
— Não, doutor. Os camarões estão mortos.
— Pode trazer.
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
No parágrafo final do texto, a atitude do cliente ao voltar à mesa e optar por camarões permite concluir que:
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema central da questão: Interpretação de texto, com foco em coerência textual e a compreensão de informações implícitas. O objetivo é analisar o comportamento do personagem e sua escolha ao final do texto.
Justificativa da alternativa correta (B):
A alternativa B — "ele não queria sentir remorso pela morte da truta que seria sua refeição" — está correta porque representa a principal motivação do personagem ao decidir não comer a truta. O texto mostra que, ao encarar ‘olho no olho’ a truta viva, o personagem experiencia desconforto e se recusa a assumir o papel direto de quem escolhe o animal a ser morto. Optar pelos camarões, já mortos, é uma forma de evitar o sentimento de culpa e remorso, conforme destacado em trechos como: “Não era como no supermercado, em que os bichos já estavam mortos e a responsabilidade não era sua”. Assim, a resposta depende da capacidade de leitura inferencial, isto é, interpretar aquilo que está sugerido, mas não declarado explicitamente.
Análise das alternativas incorretas:
A) Supõe que ele se sentia menos desconfortável ao matar camarões, mas o texto não indica que ele participou da morte dos camarões; pelo contrário, escolheu-os porque já estavam mortos — há confusão de fatos.
C) Sugere que o critério de escolha foi sabor, porém não há, no texto, qualquer inferência sobre preferência gustativa.
D) Atribui a decisão ao gosto pessoal, mas tal elemento não aparece nas ações ou falas do personagem — trata-se de dedução indevida.
E) Fala em participação na captura dos camarões, fato inexistente no texto.
Estratégia de resolução: Atenção às palavras e expressões que revelam os sentimentos do personagem e à diferença entre ação direta e indireta. Nas questões interpretativas, evite deduções que não estejam amparadas por trechos do texto — recomendação presente em Koch & Travaglia (A Coerência Textual).
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