Considere o enunciado “Por isso, por mais que um momento co...

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Q2449197 Português
O Brasil que queremos
Vladimir Safatle

            Queria começar saudando, do mais fundo do meu espírito, uma Revista como a Cult, cuja função única de conservar espaços abertos para a vida intelectual, mesmo em momentos sombrios, é um ato maior de coragem e bravura. Um ato raro, difícil de sustentar, ainda mais por 25 anos. Por isso, um ato que merece a nossa mais profunda admiração e reconhecimento.
          Diante da pergunta sobre o Brasil que queremos talvez fosse o caso de começar dizendo que o Brasil que queremos nunca existiu. Nos últimos anos, não perdemos nada, porque não se pode perder o que nunca se teve. Perdemos apenas uma ilusão: a ilusão de termos um país. Por isso, para conseguir o que queremos, seria o caso de partir da análise de nossas próprias ilusões, seria o caso de nunca mais se deixar enganar dessa forma, por tanto tempo.
        Primeiro, criamos a ilusão de habitar um país capaz de suspender contradições, de criar pactos antropofágicos onde tensões se dissolviam e integrações improváveis se construíam. Um país singular em sua pretensa miscigenação e misturas. Essa foi uma forma astuta de apagar de nossos olhos o preço dessa integração. Um preço impagável, feito de violência brutal de estado, de desaparecimento de corpos, de preservação da lógica colonial que determina uma parcela da população com matável sem dolo, sem lágrimas. Afinal, “o show deve continuar”, “o engenho não pode parar”.
           Como dizia Celso Furtado, alguém que sabia como poucos como o Brasil era assentado em ilusões sobre si mesmo, esse país foi um experimento econômico, antes de ser uma sociedade. Ele foi o maior empreendimento mundial do latifúndio escravocrata primário exportador. Essa foi sua certidão de nascimento. E mesmo depois do ocaso econômico desse experimento, ele continuou fantasmagoricamente entre nós, fornecendo as divisões entre sujeitos, organizando a lógica brutal da espoliação econômica, apertando o gatilho de suas polícias. Uma fantasmagoria é muito mais real do que aquilo que contamos por realidade. O concreto é feito de fantasmagorias que tem a capacidade de atravessar séculos, encarnar-se em múltiplas figuras, fazer CEOs (diretores executivos) falarem como senhores de engenho, empresários falarem como patiães do mato.
        Mas esse país também foi construído a partir de outros apagamentos, como esse que permitiu a preservação das estruturas da ditadura militar, seus criminosos, o lugar de exceção das forças armadas, mesmo em período dito de “redemocratização”. Uma redemocratização infinita, que nunca se realizava integralmente porque fora feita para nunca se realizar de fato. Até o momento em que os mesmos militares voltaram, fantasiados em outros corpos, mas os mesmos militares (e há de se ouvir a compulsão de repetição que nos compõe), com os mesmos discursos, o mesmo cinismo e a mesma violência.
      Por isso, por mais que um momento como esse possa nos encher de melancolia, há de se compreender a função estrutural das ilusões perdidas. O Brasil que queremos exige a destruição do Brasil que existe. E podemos destruí-lo com a força de nossa imaginação. Com a capacidade de dizer que queremos muito mais do que nos oferecem hoje. No mundo todo, vemos populações que colocam em marcha sua imaginação social para lutar por outros estados, outras instituições, outros modos de produção e outra soberania popular. No Brasil que necessita morrer, nada disso é possível. E nunca será. Mas no Brasil que nascerá desse que teima em não morrer nossa imaginação nunca mais será a expressão de nossa própria angústia. Ela será o elemento concreto das transformações em direção ao que ainda não tem forma.

Vladimir Safatle é filósofo, professor livre docente da USP, autor de Só mais um esforço (Três Estrelas, 2017), “O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo” (Cosac Naify, 2015), “A esquerda que não teme dizer o seu nome” (Três estrelas, 2012), entre outros.

Link: esse país foi um experimento econômico, antes de ser uma sociedade.
Considere o enunciado “Por isso, por mais que um momento como esse possa nos encher de melancolia, há de se compreender a função estrutural das ilusões perdidas” e assinale a alternativa que recupera o pronome ESSE, sublinhado no enunciado:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito comentado — Interpretação de Texto: Pronomes Demonstrativos e Coesão Referencial

Tema central: A questão avalia a correta identificação do referente do pronome demonstrativo “esse” dentro de um contexto textual, o que exige compreensão do mecanismo de coesão textual. Esse é um ponto fundamental em provas de Oficial Administrativo, pois evidencia a habilidade do candidato em conectar ideias e seguir a lógica interna do texto.

Regra gramatical envolvida: Conforme as gramáticas de Bechara e Celso Cunha & Lindley Cintra, o pronome demonstrativo “esse” é utilizado para retomar, de forma anafórica, um trecho ou ideia recém mencionada no texto (ou seja, algo já dito anteriormente).

Justificativa da alternativa correta (B):
O pronome “esse”, em “Por isso, por mais que um momento como esse possa nos encher de melancolia…”, refere-se a “o momento em que os mesmos militares voltaram...”. Observe que o termo-chave é “momento”: ao utilizar “esse”, o autor retoma de maneira coesa a situação específica da volta dos militares, o que pode de fato causar a melancolia mencionada. Trata-se da aplicação da função anafórica do pronome.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Não faz menção a “momento”, mas sim a características (discursos, cinismo, violência).
  • C) Refere-se a uma condição (“redemocratização infinita”), não a um ponto temporal específico.
  • D) “Essa foi uma forma...” – “forma” não é “momento”. O referente não se conecta semanticamente ao termo “esse” pedido pela questão.
  • E) Apesar de utilizar “esse” para referir-se a “apagamento”, isto não corresponde a um “momento” concreto, mas sim a um processo ou atitude.

Estratégia para questões semelhantes: Sempre ao identificar um pronome demonstrativo (“este”, “esse”, “aquele”), volte algumas linhas e procure o substantivo ou fato mais próximo (geralmente no parágrafo anterior) que tenha relação semântica direta com o termo usado. Atenção à pegadinha: o enunciado muitas vezes pede a resposta “exata” – aqui, só a alternativa B menciona explicitamente um momento.

Dominar o uso dos pronomes demonstrativos é fundamental para garantir a correta interpretação, conforme a norma culta apontada por nossos maiores gramáticos.

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