No trecho “As de Paris passeiam, de manhã, em Auteuil, compr...
Uma velhinha é uma velhinha
Não sei se os outros pensam assim, mas, quando vejo uma velhinha e procuro imaginar que ela já tenha sido jovem, e tido um namorado, e feito todas as coisas a que o amor obriga, por mais que eu queira, não acredito. Ou, se acredito, não entendo. Porque uma velhinha é uma velhinha, tal qual uma rosa, que é uma rosa. Dá-me uma ideia do ser humano eterno, que sempre houve e não deixará de haver, com sua golinha de rendas, seu chapéu com aplicação de jasmins, seu guarda-chuva, seus sapatos de fivelas. As de Paris passeiam, de manhã, em Auteuil, comprando carne para os gatos, queijos e legumes para si. Passeiam seus cães, à tardinha, no bois e, enquanto dão-lhes folga, discutem, umas com as outras, sobre a última e a próxima guerra. Queixam-se do frio, da bruma constante e, se um sinal de luz aponta para os lados de Versailles, dizem todas, ao mesmo tempo, numa felicíssima esperança: “Il va faire beau!” Adoram o sol. Que engraçado vê-las ao sol! Ficam mexeriqueiras, rigorosas e bisbilhotam a vida de todas as velhinhas ausentes. Voltam à humildade de antes, quando o sol se cobre e a praça esfria outra vez, mandando-as para casa. Passava horas vendo as velhinhas de Paris. Na Ferme d'Auteuil, entre cinco e seis da tarde, tomavam seu chá, lentamente, e era uma delícia ouvi-las conversar. Mas nunca me consenti acreditar que houvessem sido mocinhas, ou que houvessem tirado aquela espécie de farda, um dia sequer, em suas vidas.
Há pouco tempo, em um café de Friburgo, sentou-se uma velhinha para conversar. Precisava de um dinheiro, para caiar a casa e ajudar no casamento de uma neta. Aceitou uma xícara, beliscou de uns doces, e foram tantas as perguntas, que acabou contando sua vida. Tivera um namorado, andara fazendo suas facilidades com ele. Depois, casou com outro. Por fim, morreu-lhe o marido e, na campanha por um novo casamento, dera-se a duas ou três fantasias pouco recomendáveis, em senhoras viúvas. Isso representou para mim um choque muito grande. De repente, as velhinhas de Auteuil deixaram de ser os seres eternos que eu, sabiamente, imaginara. Todas se transformaram, violentamente, em gente igual a mim, que comete dos meus erros e, como eu, de felicidade em felicidade, de abraço em abraço, de ilusão em ilusão, inebriadamente, envelhece...
(MARIA, Antônio. Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.)
Gabarito comentado
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Tema central da questão: A questão aborda a interpretação de texto aliada ao conhecimento gramatical sobre o uso dos pronomes oblíquos átonos e à regência do verbo "dar".
Justificativa da alternativa correta (A - Cães):
O pronome “lhes” é um pronome oblíquo átono de terceira pessoa do plural, utilizado para indicar objeto indireto (“a eles” ou “a elas”). Segundo a norma-padrão (Bechara, Cunha & Cintra), o verbo “dar” pede um objeto direto (o que se dá) e um indireto (a quem se dá). No trecho, “enquanto dão-lhes folga”, o que é dado é “folga” (objeto direto), e “lhes” indica a quem se dá folga.
Para saber a quem o pronome se refere, volte uma frase: “Passeiam seus cães, à tardinha, no bois”. Logo, ao dar folga, são os cães que recebem folga, ou seja, “folga para os cães”. Assim, a alternativa A) Cães é a correta.
Análise das alternativas incorretas:
B) Gatos: São citados como recipientes de carne (“comprando carne para os gatos”), mas não é dito que recebem “folga”. Portanto, incorreta.
C) Queijos e D) Legumes: São alimentos comprados para as próprias velhinhas, sem relação com o ato de dar folga. Portanto, também incorretas.
Estratégias para evitar pegadinhas:
Observe sempre o termo imediatamente anterior ao pronome, buscando o referente mais próximo e coerente no contexto. Pronomes como “lhes” nunca substituem objetos inanimados (como “queijos” ou “legumes”) nesse tipo de construção, pois expressam ideia de destinatário.
Gramáticas como a de Celso Cunha & Lindley Cintra e Evanildo Bechara reforçam: “lhes” substitui apenas termos de natureza animada e plural quando se refere a pessoas ou animais.
Resumo: Decifre o pronome, veja a quem ele se refere no contexto, identifique a lógica interna do texto e aplique a regra de regência verbal. Assim, você se fortalece para questões similares!
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Comentários
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questão de guarda mirim
Gab letra A
esse tipo de questão me deixa com o pé atrás, slk
Cães.
PC
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