Com referência às ideias do Texto I, é correto afirmar que:

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Q1636042 Português

Texto I 


Os protestos da melhora

    As manifestações que presenciamos, promovidas por universitários em cidades grandes, não ocorrem quando a vida piora – mas quando fica melhor.

    A forma como as pessoas veem o mundo não é estática, ela muda com o passar do tempo. Anos atrás, no Brasil, muitos pobres, provavelmente, acreditavam que seriam pobres a vida inteira. A mobilidade geográfica era pequena, a crença no progresso como um valor positivo e altamente desejável era fraca, o desejo de comprar era quase inexistente. Ficar sempre próximo da família, do local de nascimento foi por muito tempo mais importante que buscar empregos melhores.

    A modernização social e econômica faz, lentamente, com que as pessoas mudem sua maneira de ver o mundo. No que se refere à mentalidade, nada muda da noite para o dia. Leva décadas. A geração de mais empregos urbanos que rurais arranca as pessoas do campo e as joga na cidade. Retira as pessoas do braço de sua família estendida.

    A primeira geração que chega às cidades mantém-se fiel a seus valores rurais originários. Ainda mais quando é incapaz de melhorar seu nível escolar de maneira significativa. O mesmo ocorre com seus filhos. Ainda que nascidos e criados em cidades, eles, por causa da baixa escolaridade, continuam extremamente apegados a suas famílias e bastante assíduos a serviços religiosos.

    A mudança mais abrupta ocorre quando os netos daqueles que saíram do campo para a cidade têm a oportunidade de frequentar a universidade. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. O ensino superior faz com que eles mudem seu sistema de crenças. Eles passam a acreditar mais no indivíduo do que na comunidade, passam a valorizar mais seu empenho pessoal como maneira de melhorar de vida do que uma eventual ajuda do governo, passam a acreditar que seu destino está mais nas suas mãos que nas mãos de Deus.

    Para alguém que cursa ou completa o ensino superior, uma das mais formidáveis mudanças na forma de ver o mundo diz respeito a sua visão acerca das relações entre os indivíduos. O aumento da escolaridade, algo mais do que provado em meu livro ‘A cabeça do brasileiro’, faz com que as pessoas passem a ver o mundo de modo mais igualitário.

    O Brasil é um dos poucos países do mundo em que o elevador de serviço não é um elevador de carga e transporte, mas um meio de locomoção de pessoas da parte de baixo da pirâmide social. Até hoje, os prédios residenciais no Brasil têm dois elevadores: o social, para os patrões e aqueles no topo da hierarquia social, e o elevador de serviço, apropriado para empregados e pobres. Alguém que não tenha cursado a faculdade aceita facilmente essa visão de mundo, concorda que pessoas diferentes têm direito a espaços físicos diferentes.

    Mais que isso, alguém com escolaridade baixa aceita que o tratamento conferido a um pobre possa e deva ser diferente de um rico. As coisas mudam quando se trata de alguém que cursa a faculdade ou completa o ensino superior. Ele é treinado nos bancos universitários a ver o mundo de modo mais igualitário. Sabe que existe elevador social e de serviço, mas isso não combina com seu sistema mental, com sua maneira de ver o mundo – isso é estranho. Só alguém com escolaridade baixa aceita que um pobre possa ser tratado de modo diferente de um rico.

    É igualmente estranho, para alguém que cursa uma faculdade, que os políticos cobrem impostos e não devolvam em serviços, proporcionalmente, o que foi cobrado. Para um pobre, mal escolarizado, do interior do Brasil, a desproporção entre impostos cobrados e serviços prestados é menos grave. Esse pobre acha que os políticos são superiores a ele, por isso devem ter direitos que ele próprio não tem. Para um não pobre, com curso superior completo, de uma cidade grande, isso é inaceitável. Foi exatamente isso que motivou a recente onda de manifestações.

    As principais manifestações ocorreram em cidades grandes e foram promovidas por estudantes universitários. Eles querem mais igualdade. No outro extremo, o mundo rural e das cidades pequenas, habitadas por pessoas pouco escolarizadas, a forma de ver o mundo é diferente. Em muitos locais, os protestos e as manifestações são até mesmo malvistos e rejeitados.

    Uma mentalidade mais igualitária, uma nova forma de ver o mundo, confrontou uma maneira antiga de definir o papel dos políticos. Nossa simbologia do mundo político diz tudo. Nossos políticos moram e trabalham em palácios. Há palácios para todos os gostos: Palácio do Planalto, Palácio da Alvorada, Palácio Guanabara, Palácio das Laranjeiras, Palácio dos Bandeirantes, Palácio da Liberdade, Palácio das Mangabeiras. Paradoxalmente, quanto mais gente mora em casebres, mais os palácios são aceitáveis. Quando as pessoas passam a morar em apartamentos de classe média, os palácios se tornam incompreensíveis.

    A nova forma de ver o mundo não aceita que os políticos escapem da condenação em casos de corrupção, que tenham foro privilegiado quando processados, que gastem demais quando viajam para o exterior, que não deem transparência a seus atos. Se os políticos não atendem a essas demandas, o povo vai para as ruas. Foi o que aconteceu – e ocorrerá novamente, caso os políticos não sejam permeáveis às demandas.

    Há uma clara inadequação entre a nova mentalidade, mais igualitária, e a antiga forma de os políticos proverem serviços públicos para a população. As manifestações foram motivadas por essa inadequação. Hoje, na sociedade brasileira, está consolidado o sentimento de que os políticos exploram a população e recebem em troca mais do que dão à sociedade.

(Alberto Carlos Almeida. Revista Época, 17/07/2013-adaptado)

Com referência às ideias do Texto I, é correto afirmar que:
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o confronto literal entre alternativa e texto-base: “A mudança mais abrupta ocorre quando os netos daqueles que saíram do campo para a cidade têm a oportunidade de frequentar a universidade.” Como a questão cobra identificação de informação explicitamente afirmada, esse trecho confirma diretamente a alternativa C e exclui opções que acrescentam conteúdo não dito pelo autor.

Tema central: mudança de mentalidade
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não estabelece comparação entre universitários dos anos 60 e os atuais. O que há é a afirmação de que “As principais manifestações ocorreram em cidades grandes e foram promovidas por estudantes universitários.” Inserir os anos 60 é trazer informação externa, não autorizada pelo texto.
B
Errada
Está errada por dois motivos textuais. Primeiro, o texto não fala em dependência dos corruptos. Segundo, a alternativa usa generalização absoluta em “sempre”, sem base textual. O autor apenas afirma: “Para um pobre, mal escolarizado, do interior do Brasil, a desproporção entre impostos cobrados e serviços prestados é menos grave.” Isso trata de percepção da desigualdade e dos políticos, não de dependência dos corruptos.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reproduz com fidelidade a afirmação expressa do texto sobre o ponto de virada geracional da mentalidade: a mudança mais forte ocorre na geração dos netos, vinculada ao acesso à universidade. O apoio para isso aparece também em “O ensino superior faz com que eles mudem seu sistema de crenças.” Portanto, a alternativa não interpreta além do texto: ela retoma a informação central explicitada pelo autor.
D
Errada
Está errada porque substitui o recorte do texto por outro. O autor organiza sua argumentação por escolaridade, urbanização e progressão geracional, não por “insensibilidade dos mais velhos”. Não há afirmação explícita atribuindo aos mais velhos essa reação diante das manifestações; essa leitura é inferência indevida.
E
Errada
Está errada por contradição direta com o texto. O autor afirma: “Ficar sempre próximo da família, do local de nascimento foi por muito tempo mais importante que buscar empregos melhores.” Logo, é falso dizer que a busca por melhores empregos “sempre” foi prioridade.
Pegadinha da questão
A banca mistura uma alternativa literalmente sustentada pelo texto com outras que parecem plausíveis por conhecimento de mundo ou por inferência solta. O erro mais comum é aceitar acréscimos não ditos pelo autor, como comparação histórica, juízo sobre os mais velhos ou generalizações com “sempre”.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão pedir ideias do texto, procure a alternativa que repete com fidelidade uma afirmação explícita do autor.
  • Desconfie de palavras absolutas como “sempre” quando o texto não universaliza a afirmação.
  • Não troque o recorte do texto por outro: aqui, o eixo é escolarização e geração, não idade isoladamente.
  • Elimine alternativas que acrescentem conteúdo histórico, causal ou valorativo ausente do texto.

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Letra C

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