Segundo Maria da Costa Val, “antes de mais nada, um texto é ...

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É tempo de pós-amor


       Cansei de amor! Quantos filmes, entrevistas, artigos, livros sobre amor cruzaram seu caminho ultimamente? Em uma semana, assisti a um vídeo, vi um filme, li meio livro e participei de um debate na televisão. Tudo sobre amor. E ouvi as pessoas – provavelmente também eu própria – dizerem coisas pertinentes e bem ditas que, de tão pertinentes e repetidas, já se tornaram chavões comportamentais, e parecem fichas de computador dissecadas de qualquer verdade emocional. E de repente está me dando uma urticária na alma, um desconforto interno que em tudo se assemelha à indigestão.
        Estamos fazendo com o amor o que já fizemos com o sexo. Na década passada parecia que tínhamos reinventado o sexo. Não se pensava, não se falava, não se praticava outro assunto. Toda a nossa energia pensante, todo o nosso esforço vital pareciam concentrados na imensa cama que erguíamos como única justificativa da existência humana. Transformamos o sexo em verdade. Adoramos um novo bezerro de ouro.
            Mas o ouro dos bezerros modernos é de liga baixa, que logo se consome na voracidade da mass media. O sexo não nos deu tudo o que dele esperávamos, porque dele esperávamos tudo. E logo a sociedade começou a olhar em volta, à procura de um outro objeto de adoração. Destronado o sexo, partiu-se para a grande festa de coroação do amor.
          Agora, aqui estamos nós, falando pelos cotovelos, analisando, procurando, destrinchando. E desgastando. Antes, quando eu pensava numa conversa séria, direita, com a pessoa que se ama, sabia a que me referia. Mas agora, quando ouço dizer que “o diálogo é fundamental para a manutenção dos espaços”, não sei o que isso quer dizer, ou melhor, sei que isso não quer dizer mais nada. Antes, quando eu pensava ou dizia que amor é fundamental, tinha a exata noção da diferença entre o fundamental e o absoluto. Mas agora, quando eu ouço repetido de norte a sul, como num gigantesco eco, que “a vida sem amor não tem sentido”, fico com a impressão de estar ouvindo um slogan publicitário e me retraio porque sei que estão querendo me impor um produto.
         A vida sem amor pode fazer sentido, e muito. É bom que a gente recomece a dizer isso. Mesmo porque há milhões de pessoas sem amor, que viveriam bem mais felizes se de repente a voz geral não lhes buzinasse nos ouvidos que isso é impossível. O mundo só andou geometricamente aos pares na Arca de Noé. Fora disso, anda emparelhado quem pode, quando pode. E o resto espera uma chance, sem nem por isso viver na escuridão.
       Antes que se frustrem as expectativas, como aconteceu com o sexo, seria prudente descarregar o amor, tirar-lhe dos ombros a responsabilidade. Ele não pode nos dar tudo. Nada pode nos dar tudo. Porque o tudo não existe. O que existe são parcelas, que, eternamente somadas e subtraídas, multiplicadas e divididas, nos aproximam e afastam do tudo. E a matemática dessas parcelas pode ser surpreendente: quando, como está acontecendo agora, tentamos agrupá-las todas em cima de uma única parcela – o amor –, elas não se somam, pelo contrário, se fracionam, causando o esfacelamento da parcela-suporte.
        Amor criativo é ótimo, dizem todos. E é verdade. Mas melhor ainda é pegar uma parte da criatividade que está concentrada no amor, e jogá-la na vida. Solta, ela terá possibilidades de contaminar o cotidiano, permear a vida toda e voltar a abastecer o amor, sem deixar-se absorver e esgotar por ele. Dedicar-se à relação é importante, dizem todos. E é verdade. Mas qualquer um de nós tem inúmeras relações, de amizade, vizinhança, sociais, e anda me parecendo que concentrar toda a dedicação na relação amorosa pode custar o empobrecimento das outras.
             Sim, o amor é ótimo. Porém acho que vai ficar muito melhor quando sair do foco dos refletores e passar a ser vivido com mais naturalidade. Quando readquirirmos a noção de que não é mais vital do que comer e banhar o corpo em água fria nem mais tranquilizador do que ter amigos e estar de bem com a própria cara. Quando aceitarmos que não é o sal da terra, simplesmente porque a terra é seu próprio sal, e é ela que dá sabor ao amor.


(COLASANTI, Marina. 1937- Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.)
Segundo Maria da Costa Val, “antes de mais nada, um texto é uma unidade de linguagem em uso, cumprindo uma função identificável num dado jogo de atuação sociocomunicativa”. Sobre as ideias evidenciadas ao longo do texto, é possível concluir que: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto e análise da tipologia textual dissertativo-argumentativa, com ênfase em estratégias de argumentação e subjetividade.

Análise da alternativa correta:

A alternativa C é a correta, pois reconhece que a autora defende seu ponto de vista de forma subjetiva ("eu", "meu", "me parece"), categórica e convincente, utilizando experiências pessoais e reflexões para persuadir o leitor. Observe expressões como “cansei de amor” e “está me dando uma urticária na alma”, que reforçam sentimentos próprios.
Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra: “O texto argumentativo objetiva convencer o leitor, valendo-se de justificativas pessoais, dados e exemplos.”
É esse conjunto de opiniões pessoais e tentativas de modificação da percepção do leitor que estrutura todo o texto, reforçando o caráter subjetivo e persuasivo.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta. O texto não afirma que é esperado “tudo do amor”; ao contrário, a autora critica a idealização excessiva e alerta que o amor não pode carregar todas as nossas expectativas (“Ele não pode nos dar tudo. Nada pode nos dar tudo.”).

B) Incorreta. Não há “impossível ser feliz sozinho”; Marina afirma que a vida sem amor pode sim ter sentido e discorda da pressão social sobre a necessidade obrigatória do amor: “A vida sem amor pode fazer sentido, e muito.”
Evite sempre alternativas que causem generalizações excessivas ou contradição explícita ao texto.

D) Incorreta. Embora sugira mudança de atitude, as palavras “indignação, revolta e desprezo” não caracterizam o tom da autora, que é crítico, mas não agressivo. Atenção a alternativas que empregam termos mais fortes do que o texto realmente sugere. Conforme Bechara, coerência consiste em manter fidelidade ao sentido global do texto.

Estratégias de interpretação:

Procure identificar como o autor estrutura seus argumentos, quem fala (primeira ou terceira pessoa), e qual é a intenção comunicativa (convencer, informar, emocionar). Fique atento a palavras que indicam sentimentos e opinião. Em provas, desconfie de alternativas que distorcem ou exageram o tom do texto.

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Comentários

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✔️ PARA AJUDAR A FIXAR

Marina Colasanti utiliza argumentos categóricos, convincentes e subjetivos para defender seu ponto de vista e, assim, persuadir o leitor.

Um texto persuasivo é aquele que se utiliza de verbos no imperativo. Uma linguagem conativa. Atenção! CONATIVA e não conotativa. Cuidado!!

Trechos:

Estamos fazendo com o amor o que já fizemos com o sex8(...)

(...)Adoramos um novo bezerro de ouro.

(...) ou melhor, sei que isso não quer dizer mais nada.

São vários trechos. O último parágrafo deixa ainda mais claro.

Bons estudos

Vamos juntos!!

✍ GABARITO: C

TEXTO ARGUMENTATIVO

"Subjetivos" ?? PQ ??

pq a D está errada?

Subjetivo: " Porém acho que..."

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