"O mais gritante para mim é a forma como o racismo afeta a ...
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Ano: 2026
Banca:
IGEDUC
Órgão:
Prefeitura de Teotônio Vilela - AL
Prova:
IGEDUC - 2026 - Prefeitura de Teotônio Vilela - AL - Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I |
Q4428940
Português
Texto associado
Os impactos do racismo na educação infantil
Assisti recentemente a "Nosso Segredo", o longa dirigido
e roteirizado por Grace Passô, que estreou em setembro
nos cinemas e usa o realismo fantástico para falar de
temas espinhosos, como o racismo. Uma das cenas
mais tocantes do filme é um diálogo de Sidney (Juan
Queiroz) com Tutu (Efraim Santos), um menino de 7
anos. Na conversa, Sidney, que namora a irmã do
menino, fala sobre o bullying que sofria na escola e
como isso afetou sua autoestima, ao perceber que a
criança poderia estar passando por uma situação
semelhante. Sem didatismos desnecessários, o
bate-papo entre eles expõe de forma sensível e delicada
os efeitos dolorosos que o racismo pode ter na
construção da identidade de crianças negras.
O longa é um dos pré-selecionados para representar o
Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no
Oscar 2027. Independentemente do resultado, ele acerta
ao abordar na ficção um assunto que precisa ser
discutido com urgência na vida real.
Segundo a pesquisa Panorama da Primeira Infância - O
Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha e pela
Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal no final de 2025,
16% dos cuidadores relatam que suas crianças de 0 a 6
anos já sofreram racismo. Os casos são mais comuns
entre as de 4 a 6 anos (21%) do que entre as de 0 a 3
anos (10%), possivelmente porque as menores ainda
não reconhecem ou verbalizam a discriminação. A
prevalência também é maior em famílias de baixa renda.
Creches e pré-escolas são os ambientes mais citados
em que a criança já sofreu racismo, mencionados por
mais da metade (54%) dos cuidadores.
Assim como sugere a ficção, na infância o racismo
impacta a saúde física e socioemocional, a
autopercepção, a socialização e o acesso a direitos e a
oportunidades de aprendizagem, comprometendo o
desenvolvimento integral das crianças.
"Marcadores raciais, como cabelo e cor de pele,
atravessam as infâncias negras", diz a pedagoga Lavínia
Brasilino de Moraes, em entrevista à coluna.
Mestra em Educação, Lavínia estuda o racismo na
infância e sua pesquisa foi uma das vencedoras da
última edição do Prêmio Ciência pela Primeira Infância,
promovido pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).
A análise de campo, realizada a partir de diálogos com
crianças pretas, pardas e brancas numa escola de
Educação Infantil do Campo, no sul da Bahia, em Ilhéus,
mostrou, entre outras coisas, que o racismo se manifesta
de forma sutil e cotidiana no ambiente escolar.
"As crianças acabam reproduzindo o racismo no brincar,
principalmente segregando bonecas negras que estavam
na sala", diz a pedagoga. "Muitas vezes, elas se recusavam até a tocar na boneca. Quando tocavam, era
para arremessá-la. Ao criar personagens, a boneca
negra também era sempre a má", conta.
Segundo Lavínia Moraes, o racismo interfere de formas
diferentes em meninos e meninas negras. Em relação às
meninas, o que aparece como mais evidente é a
negação do cabelo crespo e cacheado. "As meninas
ficavam com o cabelo muito preso. Uma das crianças se
referia ao próprio cabelo como um cabelo duro quando
solto. Isso é muito impactante porque estamos falando
de crianças de 5 anos", lamenta.
Nas interações livres, havia brinquedos como prancha e
secador de cabelo e as meninas acabavam reproduzindo
no brincar o desejo de ter um cabelo alisado.
Em relação aos meninos, o cabelo também aparece
como forte marcador racial. "Eles usavam o cabelo muito
curto, quase raspado, numa tentativa de contê-lo",
observa, acrescentando que eles não sabiam sequer
dizer se o cabelo era crespo, cacheado ou ondulado.
Outro fator que apareceu na pesquisa é a negação em
relação ao próprio tom da pele. "O racismo na infância
faz com que as crianças neguem a própria tonalidade da
pele", diz Lavínia. Ela observou que havia crianças
negras se autodeclarando como brancas ou usando
outras nomenclaturas como "marrom", "moreno claro" ou
"um pouco branca".
A própria pesquisadora, que é negra, foi retratada num
desenho por uma das crianças com a pele clara, pintada
com lápis salmão. Ao ser questionada pelo erro, a
menina retrucou: "Você vai querer mesmo que eu pinte
dessa cor? Marrom? Vai ficar feio!".
"O mais gritante para mim é a forma como o racismo
afeta a identidade dessas crianças em relação às suas
próprias características físicas, aos seus fenótipos, como
traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do
cabelo", afirma a pedagoga.
Dados do Estudo Internacional das Aprendizagens e do
Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, sigla em inglês),
da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE), divulgados neste ano, mostram que
as desigualdades educacionais aparecem antes mesmo
do ingresso no ensino fundamental e são fortemente
influenciadas por cor/raça e nível socioeconômico.
Os resultados indicam que crianças brancas apresentam,
em média, níveis mais elevados em aprendizagem de
linguagem e matemática do que crianças pretas e
pardas. As desigualdades mais pronunciadas aparecem
na comparação entre crianças brancas e pretas: cerca
de 17 pontos a menos em linguagem e 40 pontos a
menos em matemática. O estudo foi conduzido com
crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três
estados: Ceará, Pará e São Paulo.
Em relação às interações das crianças entre elas e com
a equipe escolar, um ponto considerado fundamental na
educação infantil, a pedagoga observa que as de pele
mais escura (preta retinta) tinham comportamento de
maior isolamento.
"Na hora de participar, elas eram mais tímidas e caladas,
menos expressivas nas brincadeiras", diz, reforçando
que isso acaba afetando o desenvolvimento das
habilidades nessa etapa da educação básica.
Educar, cuidar e brincar são pilares fundamentais da
educação infantil. "Interações e brincadeiras devem
orientar a prática pedagógica e os professores precisam
estar atentos a elas", diz Lavínia Moraes.
Também é necessário ter acervos e materiais didáticos
comprometidos com a diversidade. Isso inclui, segundo a
pedagoga, desde livros infantis com representações
positivas de crianças negras e brinquedos que
contemplem a pluralidade dos corpos, até materiais de
colorir com variedade de tons de pele, bonecas e
bonecos com traços diversos. "Quando há um trabalho
realmente intencional para as questões étnico-raciais, as
crianças se transformam", diz.
Embora a Lei n° 10.639/03 não cite explicitamente a
obrigatoriedade dessa temática na educação infantil, as
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das
Relações Étnico-Raciais, que orientam as práticas para o
seu cumprimento, incluem todas as etapas educacionais.
Segundo a pedagoga, é urgente a adequação das
políticas educacionais.
Isso implica estratégias de efetivação contínua, recursos
financeiros para aquisição de materiais que tragam a
diversidade para dentro da sala de aula e formação
continuada dos professores.
"Existe a lei, mas é preciso que os professores recebam
a formação que os qualifique para trabalhar com essa
questão e que também haja uma adequação dos
currículos. Não adianta ter a lei se o currículo ainda está
distante do que ela preconiza", critica a pedagoga.
Em janeiro de 2027, a lei completa 24 anos. Apesar do
avanço que representa, infelizmente, não há muito o que
comemorar. Depois de tanto tempo, ainda falta o
principal: implementá-la na sala de aula, desde a
educação infantil.
Texto adaptado de: PERES, Andréia. Os impactos do racismo na
educação infantil. Veja, 15 set. 2026. Disponível em:
https://veja.abril.com.br/coluna/balanco-social/os-impactos-do-racismona-educacao-infantil/. Acesso em: 24 set. 2026.
"O mais gritante para mim é a forma como o racismo
afeta a identidade dessas crianças em relação às suas
próprias características físicas, aos seus fenótipos, como
traços do nariz mais largo, da boca, do tom de pele, do
cabelo", afirma a pedagoga."
Assinale a alternativa em que o acento indicativo de crase está empregado de acordo com a norma-padrão e, assim como ocorre em 'em relação às suas próprias características', poderia ser suprimido sem prejuízo da correção gramatical.
Assinale a alternativa em que o acento indicativo de crase está empregado de acordo com a norma-padrão e, assim como ocorre em 'em relação às suas próprias características', poderia ser suprimido sem prejuízo da correção gramatical.