No excerto a seguir, observa-se um padrão recomendado pela A...

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Q3503720 Português
TEXTO 1


Educação Integral e ensino de Língua Portuguesa: diálogos necessários

Por Gina Vieira Ponte


A função social da escola é garantir a todas(os) que passam pelos seus portões o acesso ao conhecimento científico poderoso que nos conecta com o que a humanidade foi construindo como saber, como experiência, como conhecimento, como marco civilizatório, ao longo do seu processo evolutivo. Falar de uma educação que se comprometa em olhar para todas as dimensões que constituem as(os) estudantes, falar de uma educação que se ocupe de educá-las(os) para que construam o pensamento crítico e incidam na sociedade buscando transformá-la é, portanto, falar de uma educação que as(os) olhe por inteiro, as(os) perceba em sua inteireza, como sujeitos sócio-históricos que são.

Entendendo que a concepção de Educação Integral deve orientar a organização do trabalho pedagógico em todas as etapas e modalidades e no ensino de todos os componentes curriculares, como incorporar às aulas de Língua Portuguesa os princípios, os pressupostos teóricos e as concepções da Educação Integral? Antes de tudo, é necessário destacar que a base histórica do ensino de Língua Portuguesa no Brasil apoia-se na ideia de transformar as diferenças em deficiências. Por muitos anos, o país construiu uma proposta pedagógica de ensino de Língua Portuguesa muito mais sustentada na ideia de confirmar às(aos) estudantes das camadas populares a sua suposta incompetência em relação a falar e utilizar a própria língua de forma escrita do que para fortalecer, de fato, os seus saberes e conhecimentos sobre ela (Soares, 2002).

A concepção de sociedade, a partir da qual esse ensino de língua foi proposto, anunciava a condição de subordinação das classes populares às classes dominantes. Parte desta proposta pedagógica envolvia estigmatizar as(os) estudantes das camadas mais populares, desqualificando os seus dialetos, os seus registros linguísticos, e apresentando o Português como uma língua dominada apenas por um grupo seleto. Também é importante relacionar essa concepção de ensino de língua com a nossa herança colonial. Sendo o Brasil um país de base histórica escravocrata e racista, muitas das teorias produzidas para pensar a educação brasileira, bem como o ensino de línguas, eram reproduções de ideias europeias que partiam da compreensão de que os grupos sociais miscigenados eram considerados incapazes (Patto, 2015).

A nossa riqueza cultural, a nossa diversidade como país está, em grande medida, materializada na diversidade linguística que nos constitui. Uma vez que a linguagem é o principal produto da cultura e o principal elemento para a sua transmissão, ignorar a diversidade linguística que nos constitui é restringir e aligeirar o trabalho realizado no ensino de línguas [...].

Uma postura de genuíno respeito ao saber linguístico da(o) aluna(o) deve estar intrinsecamente ligada ao compromisso ético de garantir que a(o) estudante compreenda a diversidade linguística que nos constitui, e tenha a oportunidade de ter um ensino de língua de qualidade teórica, pedagógica e humana. Isso significa criar as condições adequadas para que ela(ele) possa pensar, de forma sistematizada, a gramática da própria língua, os gêneros textuais/discursivos, as suas convenções e regras de funcionamento, e possa conhecer, apropriar-se e fazer uso do que alguns autores convencionaram chamar de dialeto-padrão, não como um dialeto superior ao seu, mas como o dialeto necessário ao exercício da cidadania, necessário para que essa(esse) estudante conquiste melhores e mais amplas condições de participação social, política e cultural. Este é um imperativo ético de uma Educação Integral que estabelece um compromisso inegociável com a garantia das aprendizagens (Guedes, 1997; Soares, 2002).

Para garantir esse direito, as(os) profissionais da educação precisam ainda se compreender como intelectuais orgânicas(os) (Giroux, 1997), precisam ter a sua autoria e autonomia respeitadas, devem ter, como elemento norteador do seu fazer pedagógico, a premissa de que “a aula de Português não faz sentido se não for dada para leitoras(es). Só a(o) leitora(or) pode ser chamada(o) a ler melhor o que leu e a escrever melhor o que escreveu” (Guedes, 1997, p.7). O sentido de ler, aqui, precisa também ser reconfigurado, porque não se restringe à concepção de leitura muitas vezes cristalizada na escola, em que se espera que a(o) aluna(o) leia apenas para aceitar ou descobrir os sentidos já constituídos como tradicionais nos textos. O que se deve buscar nessa leitura, como nos adverte o grande mestre Paulo Freire, é “uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo” (Freire, 1989, p. 23).

Quanto à leitura, merece destaque também o trabalho com a literatura, a literatura brasileira como este “esforço histórico que construiu uma cultura de resistência ao colonialismo” (Guedes, 1997, p.11), a literatura como espaço de reflexão crítica sobre a realidade, sobre nós mesmos, a literatura como alimento para a imaginação. Em uma escola que se ocupa da Educação Integral, o trabalho com a literatura tem centralidade, porque ela é um dos elementos culturais mais importantes para a formação humana, ética, artística e para o desenvolvimento da capacidade de pensar de forma inteligente e profunda a realidade [...].

Na tarefa de construir a(o) leitora(or), nós, professoras e professores, precisamos estar atentas(os) também ao fato de que a curadoria que fazemos dos textos que trabalhamos em nossas aulas, no nosso compromisso de promover uma Educação Integral, não pode repercutir as exclusões históricas que deixaram fora do currículo oficial as produções de mulheres, de escritoras e escritores negras(os), indígenas, quilombolas, bem como das(os) escritoras(es) locais, aquelas(es) que escrevem sobre a realidade daquele território e daquela comunidade onde a escola está inserida [...].

Falar da interface entre ensino de Língua Portuguesa e Educação Integral é falar da promoção de uma educação genuinamente transformadora. Se a língua é o nosso instrumento mais importante de significação, representação e relação com o mundo, a forma como a escola ensina essa língua será decisiva, não só quanto a garantir ou não o direito de a(o) estudante aprender, mas ela será decisiva na maneira como essa(esse) estudante construirá relações consigo, com a sua comunidade e com o seu país [...].


PONTE, Gina Vieira. Educação Integral e ensino de Língua Portuguesa: diálogos necessários. Na Ponta do Lápis, São Paulo, ed. 41, p. 7-15, set. 2024. Disponível em: https://www.cenpec.org.br/pesquisa/na-ponta-do-lapis/. Acesso em: 28 mai. 2025. [Texto adaptado]
No excerto a seguir, observa-se um padrão recomendado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, no que diz respeito à citação de vozes alheias.

O que se deve buscar nessa leitura, como nos adverte o grande mestre Paulo Freire, é “uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo” (Freire, 1989, p. 23).

O modo de citação empregado nesse excerto é 
Alternativas

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Comentário do Gabarito:

Tema central: A questão avalia a identificação de modalidade de citação textual conforme a norma-padrão (ABNT NBR 10520), além de exigir compreensão dos mecanismos de introdução do discurso alheio em produções acadêmicas e pedagógicas.

No excerto analisado, temos:

“como nos adverte o grande mestre Paulo Freire, é “uma compreensão crítica do ato de ler [...] na inteligência do mundo” (Freire, 1989, p. 23).”

A estrutura emprega, primeiramente, uma introdução com as palavras do autor do texto (discurso do autor) para, em seguida, transcrever literalmente a fala de Paulo Freire entre aspas, com referência completa (autor, ano, página).

Regra da norma-padrão: Pela ABNT NBR 10520, citação direta curta (até três linhas) deve ser integrada ao parágrafo, entre aspas duplas, seguida da referência (autor, ano, página). Quando o autor do texto prepara o leitor para a citação direta, ocorre uma combinação híbrida de vozes (o chamado “discurso híbrido”), marcando a autoria e garantindo clareza e ética acadêmica (cf. Cunha & Cintra, Bechara).

Alternativa A é a correta: Trata-se de forma híbrida porque há integração entre o discurso do autor do texto e a citação literal, com clara demarcação de autoria — exatamente como recomenda a norma. Situações assim são consideradas padrão de excelência e evitam ambiguidades sobre a origem das ideias.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) Discurso indireto: Incorreta, pois nesse caso há parafraseamento (idéias do autor com as palavras do redator), sem citação literal nem aspas.
  • C) Retextualização: Errada, já que não houve adaptação/reformulação, mas transcrição literal.
  • D) Discurso segundo: Termo ambíguo, não descrito na metodologia de citação acadêmica ou da ABNT. Aqui, a voz alheia é explicitamente transcrita.

Dica de estratégia para provas: Sempre busque os marcadores de autoria (“como diz X”, “segundo Y”) e a presença de aspas para identificar citação direta, evitando confusões com paráfrases ou menções gerais.

Resumindo: O excerto exemplifica a mobilização híbrida do discurso alheio, com demarcação precisa da autoria – exatamente como preveem as normas técnicas e a boa prática textual.

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Comentários

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Citação direta claramente, gab D. Banca viajou.

O trecho combina uma citação direta (discurso alheio) com a demarcação clara de quem é o autor original ("...Paulo Freire..."), além de incluir a referência bibliográfica. É um método que integra a fala do autor citado ao texto do autor que cita, mostrando que a voz de Freire está sendo mobilizada para sustentar o argumento, mas sem perder a autoria original.

Sobre a alternativa D) ser INCORRETA:

A termologia "discurso segundo" não é um termo técnico comum para esse tipo de citação. Além disso, a citação no excerto faz mais do que apenas "indicar apoio"; ela reproduz exatamente o conteúdo do autor citado, o que é mais do que um simples apoio.

Resposta do Copilot

A alternativa correta é A – uma forma híbrida de mobilizar o discurso alheio e demarcar a autoria.

Justificativa:

No excerto, o autor utiliza uma estrutura que combina:

  • Discurso direto: com a citação literal entre aspas do pensamento de Paulo Freire.
  • Referência autoral: com a indicação clara da fonte — (Freire, 1989, p. 23) — conforme as normas da ABNT.

Essa combinação caracteriza uma forma híbrida, pois:

  • Mobiliza o discurso alheio de maneira explícita.
  • Demarca a autoria com precisão, respeitando os padrões acadêmicos de citação.

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