Segundo o texto, de onde vem a vontade intensa de pertencer...

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Q3294611 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.

Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. 

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.
(Pertencer, Clarice Lispector)
Segundo o texto, de onde vem a vontade intensa de pertencer da autora?
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B) De sua força.

Tema central: Interpretação de texto e coerência textual. Esta é uma questão clássica de leitura interpretativa, exigindo do candidato a capacidade de localizar informações explícitas e compreender relações lógicas entre as ideias apresentadas. Conforme orientam Bechara e Cunha & Cintra, interpretar é ir além da leitura literal, captando também intenções e nuances do texto.

Justificativa da alternativa correta: A resposta certa, B, fundamenta-se no seguinte trecho: “Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.”
Isso demonstra de forma direta que o anseio de pertencer da autora não vem apenas da fraqueza, mas também, e sobretudo, de sua força. Ela quer “fortificar” algo ou alguém, direcionando sua energia para fora. A leitura atenta, nesse caso, identifica palavras-chave (“força”, “fortifique”) que ligam diretamente ao enunciado da alternativa B.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) De sua fraqueza: O texto reconhece que o desejo de pertencer pode vir da fraqueza, porém não se limita a ela – reforçando que, muitas vezes, vem da força.
  • C) De sua necessidade de atenção: Não há menção ou construção textual que relacione o desejo de pertencer a busca por atenção, sendo uma inferência equivocada.
  • D) De sua insegurança: Falar em “insegurança” implicaria em angústia ou medo de isolamento, o que não é explicitado – a autora relata carências existenciais, mas não insegurança como origem da vontade de pertencer.

Estratégia para questões desse tipo:

Procure mapear expressões-chave conectadas diretamente às alternativas. Leia atentamente trechos que expressem comparações (como “não apenas”, “também”, “muitas vezes”), pois eles costumam indicar ideias centrais e confrontar falsas generalizações.

Lembre-se: a coerência textual exige que a alternativa correta reflita o que está comprovado no texto, não apenas o que pode parecer lógico fora dele (conforme indicam os manuais de redação oficial e os principais gramáticos).

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