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Q3294318 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.

É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.

(Pertencer, Clarice Lispector)
De acordo com o texto, qual é a principal emoção que a autora descreve sentir desde a infância?
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de texto. A habilidade avaliada consiste em compreender emoções descritas pela autora, explorando elementos explícitos e implícitos do texto, alinhado à norma-padrão e à semântica textual.

Justificativa da alternativa correta (D – Solidão):

A alternativa D) Solidão é a correta pois a autora, em diversos momentos, expressa o sentimento de não pertencimento, que resulta em uma profunda solidão desde a infância. Um dos trechos mais claros é:

"E uma espécie toda nova de 'solidão de não pertencer' começou a me invadir como heras num muro."

Além disso, ela declara sentir, desde o berço, um desejo de pertencer nunca plenamente satisfeito, o que reforça o sentimento de isolamento. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), a correta seleção semântica depende da percepção dos sentidos predominantes expressos pelo autor. Aqui, o sentido de solidão se sobressai como emoção central.

Análise das alternativas incorretas:

A) Alegria: Não há foco em momentos alegres; o texto destaca a ausência de pertencimento.

B) Raiva: Nenhum trecho revela emoção predominante de raiva. O relato é introspectivo, centrado em sentimentos de isolamento.

C) Tristeza: Embora tristeza possa estar presente, a solidão é explicitamente mencionada e desenvolvida como tema central, tornando essa alternativa menos precisa.

Estratégias para a prova:

Atente-se a palavras-chave ("solidão de não pertencer") e ao contexto emocional reiterado. Desconfie de alternativas genéricas ou que tragam termos não desenvolvidos diretamente no texto. Lembre-se: interpretar é captar o sentido global, conforme recomenda Eduardo Martins em seu Manual de Redação e Estilo.

Em síntese, a compreensão da emoção predominante demanda leitura atenta às ideias principais e secundárias e análise semântica precisa — habilidades indispensáveis para qualquer concurso, especialmente na área de Psicologia.

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