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Ano: 2026
Banca:
ISET
Órgão:
Prefeitura de Anguera - BA
Prova:
ISET - 2026 - Prefeitura de Anguera - BA - Professor de Língua Portuguesa |
Q4333194
Português
Texto associado
O texto abaixo serve de base para a análise da questão.
“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do
Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a
verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de
criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o
regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora,
tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um
artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais
sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento,
têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima
rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita,
dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob
outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não
viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. [...]
Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a
testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Duas
vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação. Ateneu
era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de
nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a
tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para
recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde
muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem
levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações
o bombo vistoso dos anúncios. O Dr. Aristarco Argolo de
Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte,
enchia o império com o seu renome de pedagogo. [...]
Começava a anoitecer, quando o colégio formou ao toque de
recolher. Desfilaram aclamados, entre alas de povo, e se foram
do campo, cantando alegremente uma canção escolar. À noite
houve baile nos três salões inferiores do lance principal do
edifício e iluminação no jardim. Na ocasião em que me ia
embora, estavam acendendo luzes variadas de Bengala diante
da casa. O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás
interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de
fora. Erigia-se na escuridão da noite, como imensa muralha de
coral flamante, como um cenário animado de safira com
horripilações errantes de sombra, como um castelo fantasma
batido de luar verde emprestado à selva intensa dos romances
cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta
para uma entrevista de espectros e recordações. Um jacto de
luz elétrica, derivado de foco invisível, feria a inscrição dourada
ATHENÆUM em arco sobre as janelas centrais, no alto do
prédio. A uma delas, à sacada, Aristarco mostrava-se.
Na expressão olímpica do semblante transpirava a beatitude
de um gozo superior. Gozava a sensação prévia, no banho
luminoso, da imortalidade a que se julgava consagrado. Devia
ser assim: — luz benigna e fria, sobre bustos eternos, o
ambiente glorioso do Panteão. A contemplação da posteridade
embaixo. Aristarco tinha momentos destes, sinceros. O anúncio
confundia-se com ele, suprimia-o, substituía-o, e ele gozava
como um cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser
vermelho. Naquele momento, não era simplesmente a alma do
seu instituto, era a própria feição palpável, a síntese grosseira
do título, o rosto, a testada, o prestígio material de seu colégio,
idêntico com as letras que luziam em auréola sobre a cabeça.
As letras, de ouro; ele, imortal: única diferença. Guardei, na
imaginação infantil, a gravura desta apoteose com o
atordoamento ofuscado, mais ou menos de um sujeito partindo
à meia noite de qualquer teatro, onde, em mágica beata, Deus
Padre pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a
grandeza do último quadro. [...]
Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pai que eu
ia ser apresentado ao diretor do Ateneu e à matrícula. O
movimento não era mais a vaidade, antes o legítimo instinto da
responsabilidade altiva; era uma consequência apaixonada da
sedução do espetáculo, o arroubo de solidariedade que me
parecia prender à comunhão fraternal da escola. Honrado
engano, esse ardor franco por uma empresa ideal de energia e
de dedicação premeditada confusamente, no cálculo pobre de
uma experiência de dez anos. O diretor recebeu-nos em sua
residência, com manifestações ultra de afeto. Fez-se cativante,
paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu
espírito, evidenciou as faturas do seu coração. [...]
Verdade é que não era fácil reconhecer ali, tangível e em
carne, uma entidade outrora da mitologia das minhas primeiras
concepções antropomórficas; logo após Nosso Senhor, o qual
eu imaginara velho, feíssimo, barbudo, impertinente, corcunda,
ralhando por trovões, carbonizando meninos com o corisco. [...]
Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarco, e o
supunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara
chupada, pedagógica, óculos apocalípticos, carapuça negra de
borla, fanhoso, onipotente e mau, com uma das mãos para trás
escondendo a palmatória e doutrinando à humanidade o bê-ábá. As impressões recentes derrogavam o meu Aristarco; mas
a hipérbole essencial do primitivo transmitia-se ao sucessor por
um mistério de hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquela complicação
imediata do paletó de seda e do sapato raso, fazendo aliança
com Aristarco II contra Aristarco I, no reino da fantasia. Nisto
afagaram-me a cabeça. Era Ele! Estremeci.
“Como se chama o amiguinho?” perguntou-me o diretor.
— Sérgio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem
esquecer o “seu criado” da estrita cortesia.
— Pois, meu caro Sr. Sérgio, o amigo há de ter a bondade de
ir ao cabeleireiro deitar fora estes cachinhos... Eu tinha ainda
os cabelos compridos, por um capricho amoroso de minha mãe.
O conselho era visivelmente salgado de censura. O diretor,
explicando a meu pai, acrescentou com o risinho nasal que
sabia fazer: “Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem
no meu colégio...”
— Peço licença para defender os meninos bonitos... objetou
alguém entrando.
Surpreendendo-nos com esta frase, untuosamente escoada
por um sorriso, chegou a senhora do diretor, D. Ema. Bela
mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac,
formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o
tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos
negros, pupilas retintas, de uma cor só, que pareciam encher o
talho folgado das pálpebras; [...] Esta aparição maravilhou-me.
POMPÉIA, Raul. O Ateneu.
Fonte: https://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua000289.pdf. Adaptado.
A respeito do papel da Literatura na sociedade, a teórica
Ana Teresa Peixinho expôs o seguinte: “A Literatura nos
ensina a perceber melhor quem somos, a questionar o que
poderíamos ter sido e a projetar o que poderemos vir a ser”.
Nesse sentido, nota-se um estreitamento entre este
pensamento e a dinâmica desenvolvida no enredo do
romance “O Ateneu”, de Raul Pompeia, quanto a uma
denúncia de um contexto educacional vivenciado pelo
narrador-personagem. Pode-se afirmar, neste contexto,
que o papel da obra literária, no âmbito social, está mais
alinhado com o propósito de: