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Q1622530 Português

O Líder


O sono do líder é agitado. A mulher sacode-o até acordá-lo do pesadelo. Estremunhado, ele se levanta, bebe um gole de água. Diante do espelho refaz uma expressão de homem de meia-idade, alisa os cabelos das têmporas, volta a se deitar. Adormece e a agitação recomeça. “Não, não!” debate-se ele com a garganta seca.

O líder se assusta enquanto dorme. O povo ameaça o líder? Não, pois se líder é aquele que guia o povo exatamente porque aderiu ao povo. O povo ameaça o líder? Não, pois se o povo escolheu o líder. O povo ameaça o líder? Não, pois o líder cuida do povo. O povo ameaça o líder?

Sim, o povo ameaça o líder do povo. O líder revolve-se na cama. De noite ele tem medo. Mas o pesadelo é um pesadelo sem história. De noite, de olhos fechados, vê caras quietas, uma cara atrás da outra. E nenhuma expressão nas caras. É só este o pesadelo, apenas isso. Mas cada noite, mal adormece, mais caras quietas vão se reunindo às outras, como na fotografia de uma multidão em silêncio. Por quem é este silêncio? Pelo líder. É uma sucessão de caras iguais como na repetição monótona de um rosto só. Nas caras não há senão a inexpressão. A inexpressão ampliada como em fotografia ampliada. Um painel e cada vez com maior número de caras iguais. É só isso. Mas o líder se cobre de suor diante da visão inócua de milhares de olhos vazios que não pestanejam. Durante o dia o discurso do líder é cada vez mais longo, ele adia cada vez mais o instante da chave de ouro. Ultimamente ataca, denuncia, denuncia, denuncia, esbraveja e quando, em apoteose, termina, vai para o banheiro, fecha a porta e, uma vez sozinho, encosta-se à porta fechada, enxuga a testa molhada com o lenço. Mas tem sido inútil. De noite é sempre maior o número silencioso. Cada noite as caras aproximam-se um pouco mais. Cada noite ainda um pouco mais. Até que ele já lhes sente o calor do hálito. As caras inexpressivas respiram – o líder acorda num grito. Tenta explicar à mulher: sonhei que... sonhei que... Mas não tem o que contar. Sonhou que era um líder de pessoas vivas.


(LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Siciliano, 1992.)

De acordo com as ideias contidas no texto, pode-se inferir sobre ele, CORRETAMENTE, que:
Alternativas

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Questão de Interpretação de Texto – Gabarito Comentado

Tema central: Esta questão é de interpretação de texto, cobrando sua capacidade de inferir ideias implícitas — isto é, identificar sentidos que não estão explicitamente ditos, mas que podem ser compreendidos a partir da análise do texto. Segundo Koch & Elias, a competência em interpretação envolve ir além do óbvio, percebendo intenções e reflexos subjetivos dos personagens.

Alternativa correta: A

A) os pesadelos que atormentam o líder podem representar, simbolicamente, sua própria consciência.

A leitura atenta mostra que o líder não é ameaçado por manifestações externas, mas se atormenta internamente. As “caras quietas”, “sem expressão”, que aparecem insistentemente, são símbolo de algo interior – a consciência do líder diante de seu papel frente ao povo. O texto insinua um desconforto, quase uma culpa ou medo imotivado, mostrando que sua aflição nasce de si mesmo, e não de agressões concretas. Segundo Bechara e Koch, essa leitura simbólica é fundamental na boa interpretação textual.

Análise das alternativas incorretas:

B) Incorreta: o texto afirma que as “caras” não possuem expressão “amedrontadora”, mas sim são inexpressivas, "quietas". Não há atmosfera ameaçadora clássica, mas um estranho vazio.

C) Incorreta: a mulher sacode o líder, preocupada, mas não recebe explicação racional. Ele tenta explicar: “sonhei que... sonhei que... mas não tem o que contar.” Ou seja, o líder não sabe explicar o pesadelo.

D) Incorreta: o líder não entende racionalmente a origem de seu medo. Ele se mostra confuso e incapaz de justificar ou entender o que sente.

E) Incorreta: Não há ataques ou denúncias diretas do povo. O texto trabalha uma angústia interna, nunca concretamente provocada pelo povo.

Estratégia: Ao interpretar textos, observe adjetivos-chave (inexpressivas, quietas), repetições e a relação do personagem com seus próprios sentimentos, distinguindo medo interno versus ameaças externas.

Esse tipo de análise, orientada pelas gramáticas de Bechara (2009) e Cunha & Cintra (2013), te permite, em provas, identificar corretamente inferências e evitar opções que se distanciam do texto.

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Comentários

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(gab A) na vida, o lider é um prefeito, governador, presidente, representando o povo. E seus pesadelos são os olhares das pessoas, que todos os dias são enganados com seus discursos patéticos. Os pesadelos são as pressões do povo, mas o povo é tão mal representado, que nem face tem. Veja: "Durante o dia o discurso do líder é cada vez mais longo, ele adia cada vez mais o instante da chave de ouro. Ultimamente ataca, denuncia, denuncia, denuncia, esbraveja e quando, em apoteose, termina, vai para o banheiro, fecha a porta e, uma vez sozinho, encosta-se à porta fechada, enxuga a testa molhada com o lenço. Mas tem sido inútil. 

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