No tocante à forma, à relação e ao sentido das práticas de l...

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Q3877514 Português
Aula de Português


A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Disponível em: https://www.escritas.org/pt/t/54105/aula-de-portugues Acesso em: 1º dez. 2025.
No tocante à forma, à relação e ao sentido das práticas de linguagem, avalie as afirmações acerca do poema “Aula de Português”.
I- Exige interpretação crítica, identificação da ironia e compreensão do contexto social da linguagem.
II- Inspira reflexões sobre como escrever de forma clara e expressiva, independente de contexto sociocultural.
III- Permite observar a função da norma culta, a relação entre forma e sentido, e como a linguagem constrói significados.
IV- Retrata a situação de aula, que envolve fala, escuta e compreensão, mostrando que o ensino oral se sobrepõe à leitura e à escrita.

Está correto apenas o que se afirma em
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o contraste interno entre língua vivida e língua escolar, explicitado em “A linguagem / na ponta da língua, / tão fácil de falar / e de entender. [...] A linguagem / na superfície estrelada de letras, / sabe lá o que ela quer dizer? [...] Já esqueci a língua em que comia [...] O português são dois; o outro, mistério.”; esse contraste mostra leitura crítica da formalização escolar da língua, com ironia e vínculo ao contexto social de uso, o que confirma I e III e exclui II e IV.

Tema central: língua vivida e escolar
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra porque II é incompatível com o poema. O texto não propõe escrever de forma clara e expressiva “independente de contexto sociocultural”; ao contrário, apresenta a língua como prática situada em experiências como “comia”, “pedia para ir lá fora”, “levava e dava pontapé” e “namoro com a prima”. Portanto, o contexto social da linguagem é central, não dispensável.
B
Certa
A alternativa B está correta porque a afirmação I se sustenta no tom crítico e irônico com que o eu lírico representa a aula e a gramática, especialmente em “Professor Carlos Góis, ele é quem sabe” e “Figuras de gramática, esquipáticas, / atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.”, além de vincular a língua a práticas sociais concretas. A afirmação III também se sustenta porque o poema permite observar a presença da linguagem escolar/normatizada e, principalmente, a relação entre forma e sentido: “na ponta da língua” remete à linguagem imediata e compreensível; “na superfície estrelada de letras” remete a uma linguagem opaca, cuja forma altera o acesso ao sentido.
C
Errada
A alternativa erra pelo mesmo problema em II. Embora III esteja correta, II altera o sentido do poema ao transformar a reflexão sobre linguagem em conselho genérico de escrita. A base textual sustenta justamente o oposto: a linguagem muda de sentido conforme a prática social e a forma em que circula.
D
Errada
A alternativa está errada porque nem II nem IV se sustentam. II falha por desvincular linguagem de contexto sociocultural, o que o poema nega. IV também é indevida porque o texto contrapõe oralidade, escrita e linguagem escolarizada, mas não afirma que o ensino oral se sobrepõe à leitura e à escrita; essa hierarquia pedagógica é inferência não autorizada.
E
Errada
A alternativa erra porque IV não encontra apoio no poema. É verdade que a situação de aula aparece e que há tensão entre língua falada e língua escolar, mas disso não decorre que o texto defenda superioridade do ensino oral sobre leitura e escrita. O poema encena um conflito de experiências linguísticas, não uma tese metodológica hierarquizante.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: fazer o candidato ler o poema como lição genérica de clareza na escrita e concluir, pela valorização da língua vivida, que o texto defende a superioridade da oralidade no ensino. O poema não faz nenhuma dessas duas afirmações.
Dica para questões semelhantes
  • Em item interpretativo, verifique se a alternativa respeita o modo como o texto liga linguagem a usos concretos e contexto social.
  • Quando o texto opõe oralidade, escrita e gramática, não transforme esse contraste em prescrição pedagógica sem apoio explícito.
  • Se a alternativa mencionar norma culta, confirme se o texto a tematiza ou problematiza; isso não significa elogio automático.
  • Observe expressões contrastivas do próprio texto: elas costumam definir quais afirmações são compatíveis e quais extrapolam.

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