Leia o texto a seguir e responda a questão subsequente.
TEXTO
Sem enfeite nenhum – Adaptado (Adélia Prado)
A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco,
por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema,
só uma vez, quando passou os Milagres do padre
Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada
nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um
cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?
Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo
na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente
afobada em volta, cheiro de alcanfor.
Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho
dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno,
e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio
saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que
é uma gracinha, pulseirinha de crom', danado de bom
pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio
de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito
de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai.
Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente
fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era
isto: meu Jesus, misericórdia! A senhora tá triste, mãe?
eu falava. Não, tou só pedindo a Deus pra ter dó de nós.
Tinha muito medo da morte repentina e pra se
livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras,
emendadas. De defunto não tinha medo, só de gente
viva, conforme dizia. Agora, da perdição eterna, tinha
horror, pra ela e pros outros.
Quando a Ricardina começou a morrer, no Beco
atrás da nossa casa, ela me chamou com a voz alterada:
vai lá, a Ricardina tá morrendo, coitada, que Deus
perdoe ela, corre lá, quem sabe ainda dá tempo de
chamar o padre, falava de arranco, querendo chorar,
apavorada: que Deus perdoe ela, ficou falando sem
coragem de aluir do lugar.
[...]
Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim,
de ser agradada. Gostava que eu tirasse só dez e
primeiro lugar. Pra essas coisas não poupava, era pasta
de primeira, caixa com doze lápis e uniforme mandado
plissar. Acho mesmo que meia razão ela teve no caso do
relógio, luxo bobo, pra quem só tinha um vestido de sair.
Rodeava a gente estudar e um dia falou abrupto,
por causa do esforço de vencer a vergonha: me dá seus
lápis de cor. Foi falando e colorindo laranjado, uma rosa
geométrica: cê põe muita força no lápis, se eu tivesse
seu tempo, ninguém na escola me passava, inteligência
não é estudar, por exemplo falar você em vez de cê, é
tão mais bonito, é só acostumar. Quando o coração da
gente dispara e a gente fala cortado, era desse jeito que
tava a voz da mãe.
Achava estudo a coisa mais fina e inteligente era
mesmo, demais até, pensava com a maior rapidez.
Gostava de ler de noite, em voz alta, com tia Santa, os
livros da Pia Biblioteca, e de um não esqueci, pois ela
insistia com gosto no titulo dele, em latim: Máguina
pecatrís. Falava era antusiasmo e nunca tive coragem de
corrigir, porque toda vez que tava muito alegre, feito
naquela hora, desenhando, feito no dia de noite, o pai
fazendo serão, ela falou: coitado, até essa hora no
serviço pesado.
Não estava gostando nem um pouquinho do
desenho, mas nem que eu falava. Com tanta satisfação
ela passava o lápis, que eu fiquei foi aflita, como sempre
que uma coisa boa acontecia.
[...]
Dia ruim foi quando o pai entestou de dar um
par de sapato pra ela. Foi três vezes na loja e ela botando
defeito, achando o modelo jeca, a cor regalada, achando
aquilo uma desgraça e que o pai tinha era umas
bobagens. Foi até ele enfezar e arrebentar com o trem,
de tanta raiva e mágoa.
Mas sapato é sapato, pior foi com o crucifixo. O
pai, voltando de cumprir promessa em Congonhas do
Campo, trouxe de presente pra ela um crucifixo
torneadinho, o cordão de pendurar, com bambolim nas
pontas, a maior gracinha. Ela desembrulhou e falou
assim: bonito, mas eu preferia mais se fosse uma cruz
simples, sem enfeite nenhum.
Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte
mais agoniada, encomendando com a maior coragem: a
oração dos agonizantes, reza aí pra mim, gente.
Fiquei hipnotizada, olhando a mãe. Já no caixão,
tinha a cara severa de quem sente dor forte, igualzinho
no dia que o João Antônio nasceu. Entrei no quarto
querendo festejar e falei sem graça: a cara da senhora,
parece que tá com raiva, mãe.
O Senhor te abençoe e te guarde,
Volva a ti o Seu Rosto e se compadeça de ti,
O Senhor te dê a Paz.
Esta é a bênção de São Francisco, que foi
abrandando o rosto dela, descansando, descansando, até
como ficou, quase entusiasmado.
Era raiva não. Era marca de dor.
(Texto publicado em Prosa Reunida, Editora Siciliano:
São Paulo, 1999, incluído por Ítalo Moriconi no livro
“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”,
Editora Objetiva, RJ.
Fonte: http://contobrasileiro.com.br/sem-enfeitenenhum-conto-de-adelia-prado-2/)
Pelos elementos textuais, estética literária e inferências
possíveis, com base na leitura feita, está CORRETO o
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